São José do Rio Pardo, ,

31/Dez/2020 - 20:58:48

Mãe-da-lua

Marcos De Martini







Com certeza é uma das aves mais estranhas, não pelas suas características físicas, mas pelas estratégias que utiliza para sua sobrevivência na natureza e pelo seu canto, que encanta, quando não entristece e assusta. O urutau é uma ave chamada de mãe-da-lua, também conhecida como urutau-comum, urutágua, urutágo, Kúa-kúa e Uruvati.

O nome urutau é tupi, e significa "ave fantasma". Conta uma famosa lenda boliviana, que na densa mata, habitava a bela filha do cacique de certa tribo, enamorada por um jovem guerreiro da mesma tribo, a quem amava profundamente. Ao saber do romance, o pai da menina, enfurecido pelos ciúmes, usou suas artes mágicas e tomou a decisão de acabar com o namoro da maneira mais trágica: matar o pretendente. Ao sentir o desaparecimento de seu amado, a jovem índia entrou na selva para procurá-lo. Enorme foi sua surpresa ao perceber o terrível fato. Em estado de choque, voltou para casa e ameaçou contar tudo à comunidade. O velho pai, furioso, a transformou em uma ave noturna para que ninguém soubesse do acontecido. Porém, a voz da menina passou à ave. Por isso, durante as noites, ela sempre chora a morte de seu amado com um canto triste e melancólico. (Fonte: WIKIAVES)

São aves exclusivamente insetívoras. De comportamento calmo e observador, o urutau pode capturar grandes besouros, mariposas e outros animais. Pousam geralmente na ponta de troncos mortos e mourões, parecendo um prolongamento destes. Sua boca, quando aberta, pode alojar um punho cerrado de um homem, chegando a quase oito centímetros de diâmetro. Quando a ave é capturada viva, a boca é utilizada como mecanismo de defesa.

De fato, nas noites silenciosas da mata, quando o muito que se ouve é o cricrilar dos grilos, o canto do urutau se destaca. E, pelo timbre, associa-se a um lamento compreensivelmente inspirador de tantas lendas a seu respeito. Depois que canta, parece que nada mais se ouve, ficando nossos ouvidos hipnoticamente atentos ao estranho repertório, aguardando nova estrofe.

"Todo o mundo dormindo. Só o chochôrro mateiro, que sai de debaixo dos silêncios, e um ô-ô-ô de urutau, muito triste e muito alto" (Guimarães Rosa, 1956: Grande sertão: Veredas).  (Fonte: Atualidades Ornitológicas)

E foi assim, depois de forte chuva e com a queda de uma árvore, que alertado por meu irmão Rafael e minha cunhada Luzia, que resgatamos "mãe e filho" urutaus entre os galhos. Os dois foram levados para a Ilha São Pedro para cuidados, já que a mãe aparentava ferimentos.

Com ouvidos mais atentos, em noites posteriores ouvi o canto de outros, talvez revelando a tristeza pelo afastamento da família.