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30/Jan/2021 - 22:27:54
A história da Vovó Catarina
Nivaldo Sernaglia
Vovó foi para Aruanda, lugar de muita paz, após ter desencarnada num tronco enquanto seus irmãos negros cantavam na Senzala.
Vejam o que relatou a ?ngelo Inácio no livro Tambores de Angola: --- "A cada toque mais forte do tambor, eu recebia uma chibatada, até que desfalecendo fui conduzida nos braços de Oxalá para o reino de Aruanda.
"Meu corpo, na verdade, estava morto, mas eu estava livre, no meio das estrelas de Aruanda, colônia espiritual, casa dos caboclos e negros do Mundo Todo.
"Eu fui para o tronco por desespero de Sinhá, mas eu retornei...
"Pedi a meu pai Oxalá que desse oportunidade de retornar ao Brasil para ajudar Sinhá.
"Ela me ensinou muita coisa com o jeito dela nos tratar.
"E eu voltei e agora as coisas pareciam mudadas!
"Eu não era negra, feia e escrava!
"Era filha de gente grande e bonita!
"Sabia ler e ensinava crianças dos outros!
"Um dia bateu na minha porta um homem com uma menina enjeitada da mãe. Era muito esquisita, doente e trazia nela o mal da lepra...
"Tadinha! Não sabia para onde ir e o pai desesperado não sabia o que fazer...
"Adotei a pobre coitada. Fui tratando dela aos poucos e quando me casei, levei a menina comigo. Até que um dia ela veio a desencarnar em meus braços, de um jeito que fazia dó!
"Passados alguns anos também desencarnei e retornei para Aruanda que vocês chamam de Plano Espiritual.
E imaginem quem veio me receber com os braços abertos e chorando muito, mas muito mesmo? --- Aquela menina enjeitada que aceitei como filha na Terra!
"Perguntei porque chorava, se nós duas agora estávamos livres do sofrimento na carne. Então, ela transformando-se em minha frente, assumiu a feição de Sinhazinha!
"Ela era a minha Sinhá dos tempos de cativeiro!
"E nós duas nos abraçamos e choramos juntas...
"Hoje, trabalhamos nas falanges da Umbanda com a esperança de passar a nossa experiência para muitos que ainda se encontram perdidos em suas dificuldades..."
E vovó Catarina continua contando sua história:
"Em meu Espírito, não restou nenhum rancor, mas apenas um profundo agradecimento aos meus antigos senhores, por me ensinarem com o suor e sofrimento, que mais compensa ser Bom do que Mau, sofrer cumprindo nosso dever do que sorrir na ilusão, trabalhar pelo Bem de todos do que servir de tropeço."
FONTE: "Tambores de Angola", ?ngelo Inácio e Robson