São José do Rio Pardo, ,

27/Fev/2021 - 22:08:25

Obras do acaso

Márcio José Lauria




O novo dicionário Aurélio do século XXI garante  que acaso é um conjunto de causas imprevisíveis e independentes entre si, que não se prendem a um encadeamento lógico ou racional, e que determinam um acontecimento qualquer.

 

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Se não fosse pessoa de bom gênio um tal Gonçalo Borges, capaz de perdoar e relevar pequenas ofensas, muito provavelmente a pobre literatura portuguesa teria ficado mais pobre ainda com a perda do mais glorioso de seus vultos, Luís Vaz de Camões. ? que na procissão de Corpus Christi de 1552, em Lisboa, Camões viu dois homens emascarados brigando com o tal Gonçalo Borges, tendo logo Camões, de gênio belicoso, acudido em favor dos mascarados, amigos seus. Ficou comprovado que de prepósito, com uma espada ferira ao dito Gonçalo Borges de  uma ferida no pescoço, junto ao cabelo do toutiço (nada mais do que a parte posterior da cabeça, o cachaço, a nuca.) O processo arrastou-se por meses, nem tanto pelos ferimentos causados, mas pelo ultraje cometido por Camões ?? o de não se comportar com o necessário recato durante aquela procissão, ainda hoje a mais importante e solene da Igreja Católica. Esse procedimento desrespeitosíssimo poderia redundar em prisão, em exílio, em sumiço, em fim dos projetos poéticos. Mas, para a glória da língua portuguesa, em fevereiro do ano seguinte, passa-lhe o mesmo Gonçalo Borges uma ??carta de perdão?, por ser já sã a ferida, sem aleijão nem desformidade e para que o Senhor Deus lhe perdoe seus pecados. . Bom Gonçalo Borges: preocupado em assegurar para si o reino dos céus, achou de ótimo alvitre perdoar ao desafeto. Não se sabe se conseguiu alcançar  sua tão alta inspiração; ganhou, ao menos, a glória nada efêmera de passar à história por haver levado uma surra do ilustríssimo versejador, em dia e local pouco adequados a desforços pessoais.

 

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Se não fosse diretor da Tipografia Nacional o romancista Manuel Antônio de Almeida (Memórias de um sargento de milícias, 1852) quando alguém, por certo despeitado, acusou um mulatinho tipógrafo-aprendiz de ficar lendo pelos cantos nas horas de serviço, provavelmente a literatura brasileira poderia haver corrido o risco de ter ficado muito mais pobre do que é. Porque o tipógrafo-aprendiz  era um certo Joaquim Maria Machado de Assis, então com dezessete anos  e autor de apenas um poema ?? ??Quando ela fala?, de visível inspiração shakespeariana e publicado na prestigiosa Marmota Fluminense. Estivesse Manuel Antônio de Almeida, o seu Maneco, preocupado com a produtividade empresarial  da Tipografia (hoje Imprensa) Nacional, por certo passaria solene descompostura  no Machadinho, espetando-lhe o dedo indicador no nariz  e esbravejando coisas. Ao invés disso, Manuel Antônio de Almeida  estimulou o rapazinho franzino e com certeza até lhe deu a entender que ali  podia desfrutar moderadamente de alguma mordomiazinha literária. O poetinha de meia-tigela acabou abandonando os versos e se dedicando a garimpar a alma humana em Quincas Borba, Memórias póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro.

 

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Se não fosse o poeta e editor Augusto Frederico Schmidt  ter  lido com atenção e prazer os pouco formais relatórios  que Graciliano Ramos, como prefeito de Palmeira dos Índios, enviou ao governador de Alagoas, é quase certo  que permaneceria na provinciana obscuridade o futuro grande romancista de Vidas secas, São Bernardo e Angústia. Foi preciso Schmidt  intuir que quem escrevesse como Graciliano escrevia, deveria ter pronto um romance, que jazia no fundo de uma gaveta. De fato, jazia alinhavado o romance Caetés, a que o autor dava pouco ou nenhum valor. Ainda hoje se leem com especial deleite as observações de Graciliano sobre como sempre foi duro administrar pequenas comunidades sem os mínimos recursos financeiros e dominadas pela centenária política do nepotismo, do clientelismo.

 

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Se não fosse uma carta que Edoardo Bizzari, adido cultural do consulado italiano em São Paulo e diretor do Istituto Italiano di Cultura, escreveu   a Guimarães Rosa, solicitando-lhe autorização para verter o conto ??Duelo?, de Sagarana, não teria existido a incomum correspondência  entre ambos. Iniciada em 1959, só terminou em 1967, com a repentina morte de Rosa. Embora os dois só se tenham encontrado uma vez e se dirigido palavras protocolares enquanto um elevador os conduzia a um terceiro andar, cartas que depois trocaram  dão testemunho de uma bela cooperação intelectual e humana. ? custa de muito perguntar a GR sobre o significado de palavras sertanejas e arcaicas e de invenções poéticas, Edoardo Bizzarri  como que obrigou o grande romancista a revelar conscientemente  todos os seus processos de elaboração intelectual, ordenando o seu arsenal de naturalista, poliglota, estudioso da literatura, da mitologia clássica e da religião. O resultado desse incomum esforço a que o tradutor submeteu o autor, foi o conhecimento íntimo da estrutura da obra rosiana e a certeza  de como as afinidades intelectuais acabam suprindo, às vezes até vantajosamente, as ausências físicas.


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