São José do Rio Pardo, ,

27/Fev/2021 - 22:12:29

Universidade e fundamentalismo

Redação




Ocorre na França uma controvérsia ideológica já batizada de "nova guerra cultural" francesa: a luta contra o islamismo-esquerdista. Esse embate teve início a partir da investigação solicitada pela Ministra do Ensino Superior, Frédérique Vidal, para identificar uma infiltração do "islamo-esquerdismo" nas universidades francesas, atitude esta que provocou uma revolta em diretores, pesquisadores e intelectuais.

Não é possível esquecer, porém, que um professor de História, Samuel Paty, foi assassinado por um islâmico em outubro de 2020 e que outros acadêmicos têm sido vítimas de ameaças na França.

Em uma análise mais detalhada da situação, Valérie Toranian publicou na Revue des Deux Mondes, em 22 de fevereiro último, um longo artigo: "Islamismo-esquerdista e universidade: quando censores clamam por censura", com informações interessantes a respeito do assunto.

Valérie cita Christophe Bourseiller, especialista na extrema esquerda, que afirma estar o mal na raiz do problema, pois no Congresso Internacional Comunista de 1920, em Baku, ficou teorizado que "grupos revolucionários têm o objetivo principal de se misturar às massas para melhor guiá-las" e, se esses grupos se tornarem islâmicos, os marxistas deveriam dar a eles "apoio crítico".

Para a articulista, o islamismo-esquerdista moderno é a expressão de uma aliança entre uma esquerda equivocada - que se esqueceu do lema "a religião é o ópio do povo" - e o novo "oprimido": as massas muçulmanas.  A personificação disso foi a dupla Edwy Plenel e Tariq Ramadan, afirma ela, uma aliança do trotskismo e do Islã político da Irmandade Muçulmana.

Seis em cada dez franceses acreditam que o islamismo-esquerdista é uma tendência de pensamento disseminada na França (IFOP-FIDUCIAL), diz Valérie. A universidade francesa é constituída em grande parte por representantes dessa corrente ideológica, mas está, acima de tudo, sujeita a um "radicalismo militante decolonial que engloba e transcende o islamismo-esquerdista no mesmo ódio ao campo ocidental, universalista e branco".

Está correto dizer que o islamismo-esquerdista é um conceito amplo e que carece de precisão, mas estas características também se encontram nos conceitos de "racismo sistêmico", "racismo estatal", "privilégio branco", "racializado", "sexizado", "feminismo islâmico" - nenhum deles tem base científica, segundo a articulista, mas dessa maneira o Islã político conseguiu passar como um novo crime de racismo a "islamofobia", transformando a crítica à religião em um crime, restabelecendo o já superado crime de blasfêmia, mas que só vale se for contra o islamismo. 

Para a autora desse artigo, melhor seria que a ministra tivesse escolhido para essa investigação o Conselho Superior Para a Avaliação da Pesquisa e do Ensino Superior, que é uma instituição independente, cujo papel é de valorizar a qualidade do conhecimento ensinado e não controlar sua orientação.

A liberdade acadêmica deve ser controlada? Certamente não, porém aqueles que protestam contra a censura "não têm vergonha de exercê-la constantemente, desacreditando ou demonizando qualquer palavra que não se encaixe na grade ideológica islâmica-decolonial" - afirma Toranian - mas somente percebe essa atitude quem tem uma visão crítica das ideologias divergentes, cujos seguidores sofrem de radicalismos semelhantes.

Então ela indaga: "quantos presidentes e reitores estão submetidos à pressão de sindicatos ou associações estudantis que querem impor sua visão de mundo?" Cita ainda exemplos de acadêmicos impedidos de participar de conferências ou de ter acesso ao anfiteatro da universidade por não estarem defendendo as mesmas ideias; conta que a peça Les Suppliantes, de ?squilo, está censurada, mas Rokhaya Diallo, ativista racializada decolonial, teve as portas da universidade abertas para ela, assim como Lilian Thuram, defensora das teses essencialistas sobre a culpa do homem branco - ninguém se opõe a isso.

Valérie afirma também que é uma censura escandalosa limitar ou proibir o acesso universitário aos que defendem o universalismo, a República, o feminismo ou o secularismo.

A universidade sempre esteve na vanguarda e no "reboque da moda" - continua ela - foi marxista na era marxista; maoísta na onda maoísta; construtivista na era do construtivismo e seus presidentes ou reitores, com exceções, nunca tiveram coragem de se opor ao pensamento predominante do momento. Quem pensa ou tem uma linguagem diferente da ideologia predominante fica excluído de uma ascensão na carreira acadêmica na universidade pública.

No entanto, hoje alguma coisa mudou: os professores estão pagando com a vida pela coragem de se opor à crescente influência do Islã político na educação, conforme a articulista, o que impede o respeito à verdadeira liberdade acadêmica. Não é possível lutar pela liberdade de expressão e defender o controle do conhecimento dentro da universidade, mas também não é possível aceitar essa derrota do pensamento intelectual, que constitui o real impacto do "Islã político e do pensamento decolonial que envergonha a República, o secularismo, o universalismo e os direitos das mulheres".

Bastaria ter a coragem de respeitar o que a lei nos permite combater - afirma ela - e não minimizar a importância dessa ideologia que está se tornando dominante. A universidade deve se abrir para a pluralidade, os acadêmicos devem parar de se esconder atrás da "onda sem onda" e do "sem críticas à esquerda", como se ela fosse infalível. Os diretores devem ser firmes quanto às tentativas de "não se misturar, proibir certas atividades aos brancos, censurar obras literárias e artísticas" e se a liberdade acadêmica for violada, "não se deve hesitar em encaminhar o assunto ao Ministério Público da República".

Por fim, é preciso ser mais transparente sobre os recursos públicos destinados à pesquisa nas ciências humanas e sociais: para onde vai o dinheiro? Quem decide? Como os membros do conselho responsável pelas bolsas cooperam? Que tipos de pesquisa são favorecidos pelas instituições?

Valérie encerra dizendo que a universidade não deve mais ser refém da militância radical "disfarçada de ensino pseudocientífico". A partir desse artigo, seria oportuno refletir a respeito da realidade da universidade pública no Brasil?


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