São José do Rio Pardo, ,

06/Mar/2021 - 22:42:09

Perigos da vida

Márcio José Lauria




Por mais que não queiramos,  vamos entendendo menos mal os mecanismos da vida e da convivência humana, vamos fazendo de tudo que nos chega às mãos leituras mais ou menos acuradas, interpretações mais ou menos elaboradas. Percebemos com clareza as angústias alheias, captamos sinais de S.O.S. emitidos quase em desgosto. Ao fim e ao cabo, dá vontade de resumir tudo numa daquelas frases antológicas em que um autor inspirado diz com meia dúzia de palavras o que não conseguimos expressar em páginas e páginas. Guimarães Rosa, por exemplo, o momentaneamente desfocado autor de obras importantes como Grande sertão: veredas, reduz muita filosofia e muita reflexão a esta frasezinha de nada, posta na boca de um cismarento jagunço: ??Viver é muito perigoso?... E quem se atreve a desmenti-lo? Viver é muito perigoso, talvez só menos do que explicar, com todos os efes e erres, por que viver é perigoso. Vai distância quilométrica entre alguém ter a percepção de que outra pessoa acha muito perigoso viver, e esta mesma pessoa declarar de viva voz que viver é, mesmo, muito perigoso, porque ninguém tem o direito de fazê-lo por outro, de ditar autoritariamente como  proceder no encaminhamento de   vidas.

 

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Será que de fato atravessamos um momento histórico dominado por  más notícias,  escândalos, falcatruas, ou se trata apenas de um geral exercício de opções? Como assim? Tento pôr ordem no caos. Pelo que se sabe, desde que o mundo é mundo, as coisas boas e más acontecem, com um detalhe próprio de nosso tempo: tudo pode virar notícia. Antes, muito acontecia e pouquíssimo se sabia. Veja você: de que matéria são feitas as colunas sociais dos jornais, de que vive uma revista de circulação nacional como Caras e assemelhadas? De não-notícias, como diria Carlos Drummond de Andrade. De coisas despiciendas, como ele também gostava de dizer.

E daí? Daí que o mesmo raciocínio pode ser aplicado a muitos outros aspectos da atividade humana: de repente, tudo precisa ser divulgado, qualquer acontecimentozinho vulgar ganha notoriedade no preenchimento de espaços de tanto noticiário de TVs nacionais, regionais e locais, de jornais grandes e pequenos, de revistas, resenhas, sumários... E aí se noticia tudo, desde a viagenzinha sem importância até o recebimento do diplomazinho sem valor algum. Crimes, transgressões, escândalos sociais, políticos e financeiros, uniões  fugazes e separações fulminantes, fofocas, então ?? cada vez mais ficamos saturados com informes que não levam a nada. Parece que há mesmo  certo prazer de se viver o drama alheio, a alegria alheia, à falta de alegrias e dramas próprios em tantas  vidas.

 

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Há quem tenha plena certeza de que a televisão, as revistas e os jornais não gostam de noticiar as coisas boas que ocorrem; e dão como exemplo conclusivo  a diferença de noticiário de duas emissoras de tevê: enquanto numa  qualquer noticioso vira reportagens policiais minuciosas, noutra no mesmo horário se fala muito mais  a respeito do que se constrói, do que é digno de reflexão. Ou em outras palavras: há quem ache que os meios comercializados de comunicação  viraram pelo avesso a frase ??a falta de notícias já é uma boa notícia? e a transformaram em ??boa notícia não é notícia?...

 

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Você tem conseguido acompanhar com interesse e sem misturar dramas e personagens os diferentes casos de polícia em que se transformou a política brasileira? Difícil, muito difícil, mas como resumiu um autor calejado, em todos eles uma boa pista inicial é tentar localizar a mulher envolvida. Garante esse autor que o método é  infalível; faz mesmo um retrospecto da história recente do Brasil e conclui que o bom êxito das investigações se resume em levar muito a sério o mandamento cherchez la femme, quer dizer, busque a mulher.

 Outro analista de nossos tristes tempos aconselha os políticos com pretensões a voos mais altos a não se descuidarem de três das possíveis pedras nos sapatos, a três de seus calcanhares de aquiles: ex-mulher legítima, ex-amante e ex-motorista. Qualquer um dos três personagens tem condições de repetir a frase de um rei francês que, de volta de longo exílio, perguntado como iria se comportar dali em diante, só advertiu:

?? Nada aprendi; nada esqueci!

 

 

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Para contrabalançar o tom carrancudo deste meu escrito, abro ao acaso A bíblia do caos, do insuperável Millôr Fernandes, e leio:

 

As pessoas que se perdem em reflexões geralmente não conhecem o território.

Os monumentos são só pra celebrar vitórias. Nas derrotas se queimam os arquivos.

O hipocondríaco procura doenças pros seus remédios.

Se o rádio fosse inventado depois da televisão, acharíamos genial um aparelho que nos evita a cara dos locutores.

A música é a única arte que te agride pelas costas.

Uma desgraça nunca vem só. No Brasil vem sempre acompanhada de ameaças à democracia.


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