São José do Rio Pardo, ,

06/Mar/2021 - 23:01:46

Mais perdidos que achados

Redação

IZILDA MARIA ARAÚJO FERNANDES GODA




1.       "Nem a sorte nem a morte, nem as tábuas do destino..." (José Saramago)

Tenho ainda e, quem sabe, só dois netos e o pensamento de que existe algo de leve que nos possa conduzir dia depois de dia a algumas horas divertidas em Passárgada. Na busca pela leveza, nestas seguidas batalhas e tanta sombra, dou-me ao direito de divagar sobre seus cachos, peles, palavras, abraços, dentes e sustos. Além do amor atávico por cachorros de qualquer pelagem e porte. Tem sido assim. Inusitadas fórmulas. Figuras, personagens viscerais. Ele de cachos loiros, quase ruivos. Olhos de um verde fermentado na profundeza. Ela, alva e serena, delicada, sempre com seus cachos densos e escuros na moldura acertada. Algumas diminutas sardas dão a ela, tão etérea, uma pintada de realidade. São eles a revelação mais contundente do que a vida me devolve em milagre. A oferta generosa e gratuita das gotas da sonhada felicidade e que me chega sem que soubesse merecê-la. Isso a Vida dá.

 

2.      "Quem me dera saber escrever essas histórias..."

Saramago, o menino de Azinhaga, vilarejo de Ribatejo, pobre, foi antes mecânico de carros e, adiante, bem adiante, Nobel de Literatura em 1998, o primeiro autor de língua portuguesa.

Em "A maior flor do mundo" lança-se à aventura, não só ao mar, destino de Portugal. Vai à Marte nosso personagem e registra uma história possível para todas as crianças.

Sai de sua aldeia o menino. Busca a flor e a si mesmo, quem sabe, e sua salvação. Transpões divisas, cercas, todos os limites, na sua narrativa que pretende e transcende contos-de-fadas, princesas, todas as magias. Acorda, encontrado e refeito e protegido. Como se tivesse voltado João pelo caule infinito do pé de feijão. Além.

Houve caminhos, rotas e sempre o rio além do Tejo, campos, olivais extensos. O fio dos tempos.

O "herói menino" de Saramago é o espelho, do exercício criativo, a equação para encantar pequenos leitores. O jeito, a maneira e a grande paciência nas mãos do narrador.

O menino sem nome cristaliza seu fado na história a ser recontada, expandida e recriada enquanto intenção do próprio autor. Generoso, modesto e claro, aponta na direção da cura pela palavra, na catarse e na alteridade. O adulto aprenderia?

 

3.      Pare o mundo...

Houve, na casa da esquina, centro da cidade, uma pichação irreverente como tantas e apagada bem depois. A moda era pichar.

Que eu quero descer...

Sosseguem, não haverá novo normal, já se sabe. E nem dá pra pular do bonde andando. Da nave. De paraquedas. Nem cair mais do burro.

O planeta em sua rotação sem parada segura. Se houvesse paradas... O mundo despenca. Sem lágrimas para velar, de longe, tantos mortos. Quantos teremos pela frente?

 

4.      Estado de Defesa

O governo que está aí esgota-se em sua pesada inutilidade. Desce ladeira abaixo o país. A montanha-russa de asneiras sobe que sobe e mergulha em estoques generosos de cloroquina de comprovada ineficácia, empilhada em kits e mais kits para toda a eternidade.

Manaus não respira. Belém sufoca-se. Filhas de manauaras ricos furam a fila da vacina no desfile de privilégios. Escolhidas a dedo.

O bordão ecoa: faltam insumos, faltam seringas, faltam agulhas.

O cansaço extremo. Somos o olho do furacão, somos a pandemia materializada pelo total fracasso e descaso do governo federal e seu arcabouço pusilânime. Há culpados de toda ordem. As notícias apenas se repetem. Nem se fala mais em curva. Os números não desincham. O mundo parece agora dividir-se entre os que vão se imunizar ou não. A escolha de Sofia em todas as escalas.

O Brasil cai em parafuso, descola dos registros de um passado recente de conquistas e brilho próprio negados, pois fruto de governos progressistas anteriores e que fascistas de toda cepa camuflam a qualquer preço. Somos o depois do golpe. O day after. Nada de Dia D nem hora H.

Os que tinham também saído da miséria absoluta são, hoje, e de novo, só algarismos do abandono institucionalizado. Nos sacos pretos lacrados, ora dizimados nas ruas, à margem, principalmente pela cor da pele.  Muito distantes das garantias constitucionais.

? o governo do escárnio, de todas as injustiças, das mentiras deslavadas, das fardas anacrônicas, da primeva ignorância, da negação da Ciência.

Mas o de cima já caiu.


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