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13/Mar/2021 - 22:57:39
Escola, um lugar de segurança!
RedaçãoSUELEN GIROTTE DO PRADO
Recordo-me quando fomos comunicadas que as escolas estariam fechadas, lá em 2020, para garantir a segurança da sociedade enquanto a pandemia não estivesse controlada.
Como professora, tive um misto de sentimentos, entre eles a insegurança e o medo. Digo isto com base nos dois mundos pelos quais transito diariamente como docente: escola da rede privada e escola da rede particular.
Logo de cara, na escola privada, entre algumas tentativas online, acreditando que retornaríamos num curto prazo de tempo às atividades presenciais, começamos a tocar o trabalho. Vendo que algumas estratégias não funcionavam, fizemos um mês de pausa, antecipando as férias para os alunos, enquanto nós da equipe docente buscávamos a maneira correta de fazer aquilo acontecer, mesmo à distância.
Um mês depois, vimos a situação pandêmica piorar, e sabendo que o ano letivo se prolongaria com o ensino remoto, a escola se organizou com plataformas, assistência às famílias pelos mais variados aplicativos, e o ano aconteceu.
Por muitas vezes, ligava chorando para a coordenadora dizendo: "Acho que minhas aulas não são as mesmas, estou falhando em alguma coisa". Na verdade, hoje vejo que o que faltava era o que coloca alma na aula: o encontro, o dia a dia do corpo presente naquela sala de aula, o encontro no corredor para aquela dúvida rápida, a organização de trabalhos em grupo com carteiras pareadas e uma andança só entre os alunos, os sorrisos e agradecimentos, o retorno de uma aula que todos e todas amaram, o abraço, o olho no olho fora de uma tela... Era esse o motivo pelo qual minha aula não estava igual, mas fomos nos adaptando, eu e meus alunos e alunas, e aconteceu tudo conforme as ferramentas que tínhamos para 2020. Afinal, não somos heroínas ou heróis, somos profissionais!
Na escola pública municipal, nada diferente da perspectiva dos profissionais que atuam diariamente no chão da escola. O mesmo empenho do corpo docente, da coordenação e gestão, plataformas disponíveis, horas de reunião para organização e o mesmo medo do que viria depois desse cenário que, diga-se de passagem, só piorou.
Porém, nossa situação na escola pública, refletia ali mesmo, naquela situação que se apresentava, todo o projeto de descaso com a educação pública e, mais que isso, deixava ainda mais evidente as distâncias sociais que gritam no palco do país.
Nem todos os meus alunos da escola municipal tinham e têm acesso à internet. Porém, segundo a nossa Constituição Federal, todos têm o direito à educação, e várias outras "equidades" que são apontadas. Por isso, extrapolamos nossas atribuições (não que seja correto) para garantir aulas e atividades, ainda que a maré não estivesse ao nosso favor, como nunca esteve. Lembremos aqui que a gestão das escolas não parou, não fez isolamento, ficou o ano todo em trabalho presencial e no risco.
Você deve estar se perguntando: e daí, Suelen?
Então, estamos em 2021, regredimos à fase vermelha, considero aqui o estado de São Paulo, mas sabemos que a situação é crítica no país cujo número de mortos superou os 260 mil. E, num cenário desses, existe um movimento de escolas abertas, que para além da complexidade das falas desse grupo (vou chamar assim), temos o argumento de que as crianças precisam estar na escola e que os professores, as professoras N?O QUEREM trabalhar.
A questão é que nunca paramos de trabalhar, estejam certos e tranquilos quanto a isso.
Com pouco mais de um mês de escolas abertas, temos listas de nomes de professores falecidos, alunos contaminados (sim, eles se contaminam também e podem transmitir aos familiares) e escolas sendo fechadas de qualquer forma diante da quantidade de contaminados e vítimas fatais.
Ser professora, está longe de ser uma vocação divina, é uma escolha profissional, assim como a do médico, do engenheiro ou advogado. Nós não trabalhamos apenas por amor, mas por escolha, e mantemos nosso dia a dia com a ética jurada quando nos formamos. Eu, particularmente, gosto do que faço, pois tenho possibilidades infinitas em uma sala de aula, tanto de aprender quanto de ensinar. Recebo e dou carinho sim, ensino sobre História, sobre sociedade e proponho reflexões. Ensino através do teatro, da poesia, da música e do cotidiano das nossas realidades.
Sei que a sociedade pode pensar melhor e acertar as contas com os profissionais da educação, respeitando a visão de nossa essencialidade para a estrutura e organização social. Cidadãos e cidadãs são responsáveis por cobrar o poder público do caos não administrado, ou minimamente desorganizado, mas não podem dizer para nós professores que não queremos trabalhar. Nunca!
A escola é um lugar de segurança, e nesse momento, mesmo com protocolo, ela não está segura para ninguém.