São José do Rio Pardo, ,

27/Mar/2021 - 21:27:22

Arthur Ramos e dr. Ítalo Galli

Maria Olívia Garcia




Nas "andanças" pelos arquivos da Hemeroteca Nacional Brasileira, encontrei cartas de 1949, do então Juiz de Direito de São José do Rio Pardo a um grande intelectual daquela época, dr. Arthur Ramos de Araújo Pereira, nascido em Pilar (AL), em 7 de julho de 1903, e falecido em Paris, em 31 de outubro de 1949.
Ramos foi médico psiquiatra, psicólogo social, etnólogo, folclorista e antropólogo, tendo alcançado grande destaque nos estudos sobre o negro e a identidade brasileira. ? também um dos nomes importantes no processo de institucionalização das Ciências Sociais no Brasil. Foi professor de Psicologia Social da inovadora Universidade do Distrito Federal em 1935, a convite de Anísio Teixeira, tornando-se colega de Gilberto Freyre. Em 1939, porém, o Estado Novo fechou a universidade e Ramos passou a lecionar Antropologia e Etnografia na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, até ir para a Diretoria do Departamento de Ciências Sociais da Unesco, em 1949, falecendo logo depois.
Ramos veio a Rio Pardo proferir a conferência da Semana Euclidiana de 1948 sobre os "Grandes problemas da Antropologia brasileira", em um cenário em que essa ciência sofria numerosos ataques da Sociologia e antes da Primeira Reunião Brasileira de Antropologia, que se deu apenas em 1954. Essa conferência foi divulgada graças à professora e euclidiana Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros, que entregou uma transcrição do manuscrito inédito a Moacir Palmeira, para publicação em Mana. Estudos de Antropologia Social, em 2015.  
Parece-me que a vinda a esta cidade, graças ao convite do dr. Oswaldo Galotti, fez com que Ramos estabelecesse alguns contatos; entre eles, com o dr. Ítalo Galli, Juiz de Direito na época, do qual há duas cartas na Biblioteca Nacional, sendo a primeira datada de 21 de agosto de 1948, ou seja, logo após a conferência do dr. Ramos, desejando que este e a esposa tivessem feito boa viagem de retorno e enviando a eles as fotos que havia tirado. Lamenta pela "cópia da fotografia tirada ao pé da cabana, tendo como fundo a ponte e a estátua do Cristo", e diz ter apelado "para um novo fotógrafo", que fora mais feliz, e esperava que dª Luísa ficasse mais contente, pois "embora pequenino, o Cristo aparece no fundo, como era de seu desejo..."
O sr. Waldemar Poggio dera ao dr. Galli postais com os aspectos mais interessantes desta cidade para que fossem enviados ao dr. Ramos, conforme o juiz lhe informa. Justifica-se também por não enviar os negativos, uma vez que "o dr. Genésio, editor das Comemorações Euclidianas", desejava ilustrar o volume daquele ano com algumas dessas fotos. Fala ainda que o dr. Arthur e esposa haviam deixado saudades e, na ausência deles, o juiz ia recebendo, em nome do professor e de dª Luísa, "as manifestações de simpatia e apreço", embora ele não fosse "nenhuma viúva inconsolável, como diria Agripino".
A outra carta é de 5 de janeiro de 1949, também enviada por Galli a Ramos, em que o primeiro agradece e retribui os votos de Boas Festas do professor, desejando ao casal "inúmeros e belos filhos intelectuais. Agradece também pelos livros que Ramos lhe enviara e conta que a "vidinha" aqui estava "bastante trabalhosa", não apenas pelo aumento do serviço forense, com a proximidade das férias, mas devido às doenças da família.
Relata que "Maria Cecília e Vera Lúcia tiveram pneumonia", sendo a desta última "bastante acentuada", pois havia tido que tomar "um milhão de unidades de penicilina"; Maria Stella tivera "monocleose", só Maria Helena tivera apenas "uma gripezinha, para não passar ilesa".
Galli fala do nascimento de "mais um herdeiro", José Antônio Ivo, nome que recebera "em homenagem aos Santos homônimos, sendo o último protetor dos advogados", e comenta: "pois advogado há de o garoto ser, se Deus quiser..." Conta que  dª Alayde, sua esposa, acabara de sair da maternidade e que o filho nascera no dia das bodas do casal, "para economia de festas".
Avisa que a conferência do dr. Arthur saíra no Diário de São Paulo, no "suplemento literário de dois domingos consecutivos", cujos recortes que separara para enviar a Ramos haviam ficado, lamentavelmente, em casa, sobre a mesa, junto com duas fotos da conferência, uma da plateia, que ficara bem nítida, e "outra da Mesa, do momento da fala de Ramos", e uma terceira, em que o fotógrafo focalizara exclusivamente o conferencista, "no momento em que falava", e que ficara ótima. Promete que as enviaria assim que voltasse a Rio Pardo, no dia 20 daquele mês, como penitência "pela indesculpável falta".
Esses documentos nos revelam a importância do envolvimento das autoridades desta cidade com os grandes intelectuais que aqui vinham como conferencistas, sempre a convite da "alma" dessas Semanas Euclidianas: o saudoso dr. Oswaldo Galotti!


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