São José do Rio Pardo, ,

27/Mar/2021 - 21:41:27

A quem interessa? (parte 2)

Redação

PROF. DR. ALEXANDRE HENTIQUE DE MARTINI




? fato que vivemos tempos difíceis. ? fato que o medo, a tensão e a pressão psicológica podem levar a ações extremas, causando dentre outros problemas, a discórdia e a desunião. Contudo, alguns posicionamentos destoam do aceitável, mesmo levando-se em conta todo este cenário.

Um destes posicionamentos é o "negacionismo" cientifico. Sou professor doutor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo - IFSP. Como tal, desenvolvo, dentro de minhas atividades, o tripé: ensino-pesquisa-extensão. Convivo no dia a dia com diversos professores/pesquisadores que debruçam dia e noite sobre seus projetos, sobretudo de tecnologia, visando melhorar a qualidade de vida das pessoas. Além disso, terminei recentemente o doutorado numa das maiores instituições da América latina: a USP.

Convivi com pesquisas de ponta, principalmente na área de saúde, em que todo rigor é exigido. Existem muitos protocolos a serem seguidos, um comitê de ética, além de toda uma comunidade cientifica que irá avaliar, de modo até desumano, todo trabalho realizado. No meio deste caminho, ao menor sinal de qualquer possibilidade de falha, o processo é reiniciado ou até descartado.

No primeiro caso, o pesquisador até pode aproveitar algo de seus estudos, "juntar os cacos" e reiniciar; já no segundo, muitas vezes é só tempo e trabalho perdidos. Depois de todo esse processo, se a pesquisa for considerada viável, o que o pesquisador ganha? Geralmente uma "menção honrosa", um certificado, o nome em uma publicação e um belo "boleto", que muitas vezes é pago com dinheiro dos próprios pesquisadores, caso realmente queriam ter suas pesquisas divulgadas.

Tudo o que foi exposto aqui tem o objetivo de mostrar que a ciência, principalmente no Brasil, é construída mediante muito esforço, muito trabalho e muita dedicação. A pesquisa, para conseguir uma nova tecnologia, um novo produto e até uma nova vacina, passa por etapas e por crivos que nos dão perspectivas de melhoria na qualidade de vida, na evolução dos métodos e na busca por uma cura. Sem esses profissionais, estaríamos estagnados no tempo ou já teríamos sucumbido em alguma das epidemias pelas quais a humanidade passou.

Precisamos da ciência assim como de qualquer outro profissional. Não cabe aqui (e nem em lugar algum) uma discussão de valor, já que todos tem seu lugar e sua importância.  Aliás, destaco a fala de um motorista de aplicativos com quem tive o prazer de viajar um dia desses. na cidade de Sertãozinho: "Você é doutor? Parabéns? eu não tenho cabeça para isso não? não sei se conseguiria desenvolver um projeto desse tipo? aliás, não precisamos que todas as pessoas sejam doutoras? mas precisamos sim de alguns bons doutores, de alguns bons pesquisadores, que amem o que fazem e que sejam bem retribuídos por isso? e, depois, precisamos de pessoas que confiem nas pesquisas e as coloquem em prática - esse sou eu! (e deu uma gargalhada)".

Em contraponto, destaco a discussão que tive com o dono de um perfil, um tanto quanto suspeito, de uma grande rede social. Dizia o tal usuário acerca dos resultados de uma pesquisa que publiquei: "Estes cientistas não sabem de nada? valorizo muito mais o trabalhador que fica o dia todo, sob sol e chuva, vivendo do seu próprio esforço físico e não aconchegado nos braços do Estado?". ? claro que fui obrigado a substituir algumas palavras publicadas por este cidadão de bem, já que as mesmas tornariam este artigo impublicável.

Diante destas duas situações distintas que acabaram aparecendo neste texto, repito a pergunta/reflexão que fiz há alguns meses nesta mesma coluna: "A quem interessa?"

A quem interessa negar a ciência e desvalorizar seus profissionais? A quem interessa o conflito entre classes de trabalhadores, que, na verdade, lutam por um mesmo ideal em plataformas diferentes (como disse o meu amigo motorista: um pesquisa, desenvolve e os outros executam - por uma humanidade melhor).   Vale a reflexão.

A resposta, cada um já tem e, apesar de vista de diferentes ângulos, vão apontar para a mesma direção: daqueles que não querem o Brasil como uma nação livre e desenvolvida, como um país que caminhe com as próprias pernas, que tenha suas tecnologias e que viva eternamente num conflito interno. Estes conflitos impedem nosso crescimento; na verdade, a expressão correta é: implodem nosso crescimento.

Volto a perguntar: "A quem interessa?"

 

 

Prof. Dr. Alexandre Henrique de Martini

IFSP (Campus Sertãozinho)


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