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03/Abr/2021 - 19:11:43
Da utilidade do inútil
Márcio José Lauria
Até que ponto tem validade o que pessoas como eu (que levaram a vida profissional voltada para coisas da cultura, da educação, da literatura) passaram para os milhares de alunos que procuraram ilustrar ao longo de anos e anos de convívio? Calculo que eu tenha tido doze mil deles, no ensino médio e superior. Quis oferecer-lhes bem mais do que macetes de redação, dicas de análise sintática, regras de ortografia, exceções de gramática, biografias de autores, noções de teoria literária. Terei tido êxito? Alimento a pretensão de que sim.
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Agora tomo conhecimento de um livro que cuida exatamente disso ?? o papel dos saberes considerados inúteis, por não visarem o lucro, mas o trato do espírito e o crescimento cultural das pessoas. ? a coletânea de ensaios breves, A utilidade do inútil, do pensador italiano Nuccio Ordine.
Para esse autor, a literatura, a cultura e a educação constituem o líquido amniótico ideal em que podem se desenvolver vigorosamente as ideias de democracia, liberdade, justiça, solidariedade e outras tantas qualidades que só exaltam as pessoas que as têm.
Nuccio Ordine traz para a defesa de suas teses um respeitável conjunto de escritores e filósofos, entre eles Vargas Llosa, Oscar Wilde, Eugène Ionesco, Aristóteles, Platão, Kant.
Ionesco, aquele louco inventor do teatro do absurdo, chama-nos a atenção ao perigo de as pessoas se voltarem apenas para o lado prático da vida e, em razão disso, transformarem-se em autômatos (em rinocerontes, por exemplo) e em fáceis presas de um fanatismo delirante, não importa se de direita ou de esquerda.
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Para Ordine, a maneira eficaz de se evitar esse tipo de capitulação é transformarmos a arte em instrumentos úteis de oposição à barbárie, em imenso celeiro para preservar a memória e os eventos injustamente destinados ao esquecimento.
O homem atual tem enorme dificuldade em mostrar interesse por algo que não redunde em uso prático e imediato, com objetivos técnicos.
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Afirmativa ousada do ensaísta italiano defende a tese de que uma nação em crise (claro que pensei no Brasil de nossos dias) não pode virar as costas à cultura e à educação; ao contrário, é fundamental que sejam duplicados os recursos destinados ao saber e à formação dos jovens, para evitar que a sociedade caia no abismo da ignorância, muito mais perigosa do que a miséria!
Pois é exatamente o contrário dessas altas aspirações que vemos não só no Brasil, mas em todos os países em crise: em momentos de dificuldades econômicas, o que logo se corta é o dito supérfluo e as frivolidades. Sendo a cultura tida por frivolidade, ela é das primeiras, se não a primeira, a ter verbas suprimidas, recursos diminuídos, planos abortados.
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Ordine lamenta a visível mudança de postura de dois baluartes das artes e da cultura ?? as livrarias e as universidades. Quanto às universidades, ele as classifica hoje como ??empresas?, geridas e dominadas por professores burocratas, cada vez mais preocupados em preencher formulários, realizar cálculos, produzir relatórios para infindáveis estatísticas, com isso fazendo o ano correr ao ritmo de uma incansável métrica burocrática e intermináveis reuniões de assembleias e colegiados. Já as livrarias, por imposições do mercado, desfiguraram-se e perderam importante característica: a de ser um lugar onde textos fundamentais, de difícil aquisição, podiam ser encontrados. Hoje elas não passam de pontos de venda de obras da moda, sem que consigam proporcionar a seus frequentadores a liberdade de escolha dos produtos à mostra, dados os interesses menos nobres dos grandes distribuidores, que impõem suas publicações de acordo com critérios puramente comerciais.
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Um ensaio do pedagogo norte-americano Abraham Flexner é aditado ao livro, para ratificar as ousadas teses de Ordine. Relata Flexner sua vivência como professor na Universidade de Princeton, onde, juntamente com outros colegas, defende o direito de exercício da liberdade de espírito, relegado a plano ínfimo o conceito de utilidade. As instituições de ensino, diz Flexner, deveriam estimular o cultivo da curiosidade, o ensino em si mesmo, porque só a busca livre e desinteressada do conhecimento inútil poderá trazer resultados práticos no futuro, como trouxe no passado.
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Saio reconfortado da agradável incursão pela utilidade do inútil. Quem sabe a leitura deste meu apanhado de ideias alheias tão promissoras também venha a agir como estímulo e consolo a muitos colegas que, aposentados ou não, sempre tiveram como alto objetivo passar a seus alunos o gosto pelos livros, o aprofundamento da reflexão, a precisão nos conceitos, as justas cobranças de tarefas e obrigações.
Afinal, milhares de outras pessoas sempre tiveram muito clara, ao longo de suas carreiras professorais, a percepção de que o melhor que pudemos ofertar para os outros sempre foi a chave do acesso às insuspeitadas riquezas ocultas nas dobras da chamada vida interior de cada um.