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03/Abr/2021 - 19:15:27
Semana Santa de Sevilha
Maria Olívia Garcia
Sempre tive vontade de passar uma Semana Santa em Sevilha, que guarda a tradição de celebrações medievais, das quais a maioria dos sevilhanos participa e as quais muitos turistas seguem. Enquanto esse desejo não se realiza, é possível sonhar, portanto embarquemos neste sonho.
Capital da Andaluzia, Sevilha tem sua data de fundação no século XIII, tendo sofrido em sua história várias invasões, como a dos fenícios, dos visigodos, dos mouros e dos romanos, daí a riqueza de arquitetura antiga de outras civilizações que se vê pela cidade, como o Real Alcázar, com seus maravilhosos jardins e La Judería, bairro judeu, com lojinhas, bares e restaurantes e a ruína romana de Italica.
Mas a Semana Santa naquela cidade é um evento histórico-cultural grandioso, que se repete desde o século XVI e é considerada Festa de Interesse Turístico Internacional. Desde o Domingo de Ramos até a Páscoa as procissões são constantes, divididas por cofradías ou hermandades. Cada uma das 60 cofradías desfila em um horário, dia e itinerário determinados e nunca coincidem o mesmo trajeto. Algumas são mais populares, outras chamam a atenção pelo silêncio e recolhimento.
Há uma hierarquia entre esses grupos, cuja importância é medida pela tradição, qualidade e antiguidade das imagens e pelos aspectos técnicos, como a experiência dos costaleros e da banda de música. As procissões geralmente são à tarde e à noite, com exceção da noite da "madrugá", cujo desfile começa à uma hora da manhã da sexta-feira santa e acaba ao meio-dia.
Cada procissão sai de sua igreja e a Carrera Oficial é o caminho obrigatório por onde todas as procissões devem passar antes de chegar à Catedral de La Giralda, a maior da Espanha e a terceira maior do mundo, cuja construção começou em 1434, no local da antiga Mesquita Alfama de Sevilha. A Torre de La Giralda, campanário da Catedral, era o minarete da Mesquita, do século XII, que paira a 105 metros acima da cidade e de onde se tem uma vista deslumbrante, após, é claro, galgar 35 rampas e alguns degraus (no verão quentíssimo de lá não é fácil). Nessa catedral fica, também, o túmulo de Cristóvão Colombo.
As procissões possuem alguns elementos fundamentais, que é preciso compreender, mesmo se formos assistir apenas pela internet: a MARCHA, que são as bandas que as acompanham com músicas religiosas e saetas, músicas flamencas em honra às imagens; a CRUZ DE GUÍA, que abre o cortejo, acompanhada por dois nazarenos que carregam lanternas; a BULLA, aglomeração de devotos ao redor das imagens religiosas (PASOS); os NAZARENOS, membros das cofradías que acompanham a procissão vestidos com túnicas e máscaras, levando bandeiras das irmandades e velas. Quanto mais escura for a túnica do nazareno, mais "séria" é a cofradía; os COSTALEROS, que levam sobre a cabeça a pesada estrutura de madeira com a imagem religiosa, que pode passar de 1.000 kg. Eles são os grandes devotos a carregar esse peso imenso em uma caminhada perfeitamente sincronizada, que necessita de muitas horas de ensaio, e fazem esse sacrifício somente pela fé.
Ainda há os PASOS, que são as imagens e estruturas de madeira que as sustentam, cada procissão tem dois ou três PASOS: o de Cristo, o da Virgem (PASO PALIO) e o Mistério, que representa cenas da Paixão.
O PASO DEL CRISTO é o primeiro de cada procissão. Os sevilhanos consideram o PASO PALIO como o momento mais significativo da procissão e cada Virgem é única, diferente e especial. Os PASOS DE LA VIRGEN sempre representam a mesma cena bíblica: Maria chorando pela morte do Filho. O elemento que muda no PASO PALIO é o manto da Virgem, sempre uma obra de arte.
Por último, os PENITENTES, membros da irmandade que, para pagar alguma promessa, desfilam carregando uma cruz e muitas vezes descalços, atrás do PASO DEL CRISTO.
A procissão da Soledad de San Lorenzo fecha o ciclo de penitências e da Semana Santa. ? noite, são realizadas nas igrejas a vigília de Páscoa, comemorando a Ressurreição de Cristo e, no Domingo de Páscoa, há uma última procissão feita pela irmandade El Resucitado, encerrando a Semana Santa de Sevilha, que espero conhecer em alguma época mais favorável do que a atual, em que nem da Semana Santa local podemos participar presencialmente! Mesmo assim, estamos vivos, portanto saibamos agradecer por isto e que todos tenham uma feliz Páscoa!