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10/Abr/2021 - 20:24:27
Para entender Os Sertões I
RedaçãoMARIA APARECIDA GRANADO RODRIGUES
"? um livro destinado aos corações. Devem compreendê-lo admiravelmente os poetas e os bons, se não vai nesta conjunção dispensável redundância." (Euclides da Cunha)
Dando continuidade ao nosso projeto de levar informações acerca de Euclides da Cunha e de suas obras, nesta semana, começarei a falar do livro Os Sertões. Terei que dividir o artigo em algumas partes por se tratar de um assunto extenso. No primeiro artigo, falarei sobre o que ocasionou a ida de Euclides da Cunha como repórter de jornal para a Bahia, onde acontecia a Guerra de Canudos, o que foi decisivo para a elaboração de seu livro Os Sertões.Os Sertões é uma obra de Euclides da Cunha, publicada em 1902. O autor, que era jornalista do jornal O Estado de S. Paulo, foi enviado aos sertões da Bahia para cobrir a Guerra de Canudos que acontecia no final do século XIX. Segundo Olímpio de Sousa Andrade, no livro História e Interpretação de Os Sertões, Júlio de Mesquita convidou Euclides da Cunha para a tarefa porque não queria simplesmente um trabalho jornalístico, mas pensou nas "qualidades literárias e de cultura de Euclides que, além disso, levava vantagem de um mais amplo conhecimento dos assuntos militares."
Ainda segundo Sousa Andrade, Euclides não aceitou de início, mas Júlio de Mesquita conhecia bem o temperamento de Euclides e alegou que ele não faria uma simples reportagem, mas ele teria oportunidade de "ir ao encontro de um grande tema que poderia resultar num grande livro."
Segundo O Estado de São Paulo, em nota de redação, em 13 de dezembro de 1952, por ocasião dos 50 anos do livro Os Sertões: "Euclides resiste. Pede tempo para refletir, cede aos estímulos contraditórios de seu temperamento nervoso, oscila entre os impulsos incontidos e a timidez doentia que assinalaram, tão indelevelmente, a sua personalidade de exceção. Júlio de Mesquita não se deixou vencer; insistiu com afabilidade de companheiro de redação, a fraterna simpatia de amigo íntimo, mas com a inabalável firmeza de quem, conhecedor dos homens, não poderia admitir que se frustrasse para sempre, na vida de um grande espírito, o seu instante decisivo. Não teve dúvida, portanto, em reargumentando, repetir seus conselhos. Graças a essa tenacidade, Euclides cedeu."
Segundo Sousa Andrade, tudo estava certo. O jornal O Estado de São Paulo anunciou no dia 30 de julho de 1897, a ida de Euclides para a Bahia, "onde, além das reportagens que faria para o jornal, tomaria notas e faria estudos" que serviriam mais tarde como um material primoroso para o seu livro que se tornou um documento muito importante para a História do Brasil.
Euclides da Cunha ficou dezessete dias em Canudos. Não viu o fim do conflito. Chegou a Canudos no dia 16 de setembro de 1897, junto com a quarta expedição, liderada pelo general Artur Oscar, e voltou a Salvador dois dias antes da queda do arraial, que aconteceu no dia 5 de outubro de 1897. Euclides teve que ir embora porque estava doente. Euclides sofreu, como todos os soldados que participaram no conflito, com as condições precárias daquele lugar, com o clima hostil, com a insuficiência de água e comida, com as mortes, com o odor dos mortos em decomposição e com as armadilhas dos soldados que punham em risco a vida de todos o tempo todo.
Mas o pouco tempo em que Euclides esteve em Canudos foi muito proveitoso para ele porque com suas reportagens para o jornal, suas observações da guerra, suas anotações na Caderneta de Campo e alguns estudos que fez, ele escreveria o livro Os Sertões, tão importante para a história como para a intelectualidade brasileira.
Euclides da Cunha já havia escrito artigos em que defendia a ideia de que o movimento de Canudos era monarquista, com objetivo único de derrubar a República recém instaurada, mas mudou de opinião em Os Sertões, após observar as condições de vida dos moradores do lugar e da forma como era organizada a comunidade comandada por Conselheiro. Lá, o autor analisou com bastante atenção as pessoas e os conflitos que existiam.
Antônio Conselheiro, considerado um profeta por todos que o seguiam, tecia críticas ferrenhas contra o regime republicano, recém implantado, porque se desvinculou da Igreja. Nas suas pregações também revelava a vida miserável dos sertanejos e o descaso dos governantes em relação ao povo. O novo regime político só aparecia na região para receber impostos. Então, Antônio Conselheiro, com seu discurso religioso e exemplo de vida digna, começou a chamar a atenção de muitas pessoas que resolvem segui-lo para morar em Canudos, que foi denominado por Conselheiro de Belo Monte, depois de sofrer perseguições dos republicanos.
? claro que o crescimento de Belo Monte incomodou os padres e latifundiários da região, que passaram a disseminar a ideia de que Antônio Conselheiro representava um perigo para a República porque ele queria restaurar a Monarquia. Em 1896, então, começa a Guerra de Canudos, o que ocasionou a ida de Euclides da Cunha para lá como repórter do jornal O Estado de São Paulo para ver o que acontecia com seus próprios olhos.