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10/Abr/2021 - 21:17:28
As maçãs podres monitoradas por satélite
RedaçãoSAULO DE OLIVEIRA FOLHARINI
O Brasil passa por um período muito sombrio na sua política ambiental, com atuação do poder público para enfraquecer ações preventivas de fiscalização e combate a crimes ambientais. A eminentemente fusão entre IBAMA e ICMbio está a todo vapor!
Desde 2017 as taxas de desmatamento estão aumentando na Amazônia legal. Por parte do governo o discurso é que está tudo dentro de parâmetros aceitáveis, questionando os dados de monitoramento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) através dos programas DETER e PRODES, o que resultou na queda do diretor Ricardo Galvão em agosto de 2019. No mesmo ano foi escolhido um dos dez cientistas do ano pela Nature, importante revista científica.
O Brasil tem muitas instituições que utilizam o monitoramento por satélite para desenvolver suas atividades científicas, planejamento ou de fiscalização. O INPE, por exemplo, tem um corpo de pesquisadores capacitados para projetar, construir e processar os dados do satélite Amazônia-1, primeiro satélite inteiramente brasileiro lançado a poucos dias ao espaço. Não são muitos países que possuem essa tecnologia.
Através de pesquisas desenvolvidas, por nomes como Carlos Nobre e Gilberto Câmara hoje temos um bom conhecimento sobre assuntos relacionados a dinâmica de ecossistemas tropicais, mudanças climáticas e mudanças no uso e cobertura da terra, temáticas que utilizam as imagens de satélite e são fundamentais para planejar as ações de preservação e uso dos ecossistemas do país.
Esses pesquisadores têm importantes estudos publicados em periódicos científicos como Nature e Science . Além do reconhecimento internacional, como o caso recente de Carlos Nobre pela Associação Americana para o Avanço da Ciência. Ele também fez parte do grupo de cientistas que ganharam o prêmio Nobel da Paz em 2007 como membro do Painel Internacional sobre Mudanças Climáticas (IPCC).
Carlos Nobre propõe que a floresta Amazônia pode passar por um processo de savanização. Sua hipótese é que haverá uma conversão de áreas florestais em savana (já ocorre em áreas limites entre os biomas amazônico e cerrado). A médio e longo prazo a dinâmica das massas de ar sobre a floresta se alterará com aumento da temperatura e diminuição da precipitação, intensificando este processo e diminuindo a disponibilidade hídrica em toda América do Sul. Uma área muito afetada seria o centro-oeste, região que concentra as grandes plantações de commodities como a soja. Voltada para exportação o plantio e comércio da soja é fundamental para o PIB brasileiro.
Áreas atrasadas do agronegócio que colaboram com o processo de desmatamento são tratadas por outros pesquisadores. Em 2020, Raoni Rajão e Britaldo Soares-Filho da UFMG (e outros autores) publicaram um artigo intitulado The rotten apples of Brazil s agribusiness (As maçãs podres do agronegócio do Brasil). Em síntese o artigo identificou que apenas 2% das propriedades na Amazônia e Cerrado são responsáveis por 62% de todo o desmatamento potencialmente ilegal. Chegaram a esses números analisando dados do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e imagens de satélite.
O cenário ambiental conturbado por interesses econômicos e políticos atrapalha a implementação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia que traria mais oportunidades de negócios, visto que não é habitual (nunca foi e nunca será) o governo ouvir os cientistas.
Não há ideologia ou "xiitismo" em questões eminentemente técnica com trabalhos produzidos por pessoas que passaram em média 10 anos estudando entre graduação, mestrado e doutorado nas diferentes áreas do conhecimento (exatas, humanas e biológicas) e que de fato querem contribuir para o país. Os trabalhos científicos são baseados em fatos e dados, seguem o rigor da metodologia científica que pode ser validada pelos periódicos científicos mais importantes do mundo. Infelizmente essas pessoas geralmente não são ouvidas por governantes populistas e autoritários, vejam o caso do médico Li Wenliang, um dos primeiros a identificar a existência do surto do novo coronavírus, acusado de espalhar boatos pela polícia chinesa.
Não precisamos ir ao outro lado do mundo para encontrar políticos que negligenciam a ciência, o excrementíssimo presidente populista do Brasil é nosso exemplo mais próximo. Ele é o típico brasileiro oportunista que encontrou na política seu sustento, perpetuando muito bem o modo de vida do homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda. Que seu tempo na presidência seja breve e deixe a ciência trabalhar em paz para construir um país com bases ambientais, sociais e econômicas em sinergia. Já que seu legado é apenas não ter legado nem mesmo com as maçãs podres do agronegócio, nem no combate a pandemia, nem como ser humano.
Saulo de Oliveira Folharini, professor do Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza