São José do Rio Pardo, ,

17/Abr/2021 - 13:34:24

O poeta universal

Márcio José Lauria




Prestei minha homenagem a Mário Quintana, poeta gaúcho que faz poesia parecer algo muito simples, de nenhum esforço: adquiri Poesia completa, por então nada desprezíveis cento e noventa reais, isso em 2006. Hoje deve valer bem mais que o dobro. São mil páginas organizadas, preparadas, prefaciadas  e anotadas por Tânia Franco Carvalhal. (Como as mulheres se vêm destacando nos estudos literários e linguísticos!)  Lá estão  todos os seus livros em versos, desde A rua dos cataventos (1940) até Velório sem defunto (1990), além da fortuna crítica a cargo de Augusto Meyer, Guilhermino César, Paulo Rónai, Gustavo Corção e Paulo Mendes Campos, nomes de peso da cultura brasileira.

Porto Alegre com uma escultura que reúne Quintana (sentado) e Carlos Drummond de Andrade (em pé), na Praça da Alfândega, pereniza em bronze o grande poeta, que não tem apenas valor regional. Sua poesia não é localista, nem mesmo nacional. Tende mais ao universal, porque fala a todos e expressa a condição humana, explorando a reflexão sobre a vida e sobre a morte.

A maior e mais concreta homenagem que Mário Quintana recebeu em vida  não foi de nenhuma academia, de nenhum crítico de renome. Foi de um admirador sincero, Falcão, o elegante jogador de futebol que mereceu em outros tempos o belo título de rei da Roma:

Quintana, solteirão, morava num hotel de Porto Alegre. Com a passagem do tempo, seus recursos financeiros minguaram a ponto de ele já não ter como pagar a hospedagem. Então o elegante Falcão, hoje técnico de futebol e/ou comentarista de televisão, não teve dúvida: combinou com os proprietários do Hotel Majestic que se encarregaria de todo o pagamento. E assim, o poeta pôde viver sossegado ali, entre 1968 e 1980.

Leio que o prédio do antigo Majestic abriga a Casa de Cultura Mário Quintana ?? o que não é pouco num país tão desleixado de seus melhores valores morais e intelectuais.

Vale a pena ter, ao menos, a Antologia poética de Mário Quintana, preparada por Rubem Braga e Paulo Mendes Campos e lançada pela sempre lembrada Editora Sabiá, em 1966, que acabou dando ao poeta o reconhecimento nacional.

Um pouco de Mário Quintana:

 Um engano em bronze é um engano eterno.

Bem-aventurados os pintores escorrendo luz que se expressam em verde, azul, ocre, cinza, zarcão! Bem-aventurados os músicos. E os bailarinos e os mímicos e os matemáticos. Cada qual na sua expressão. Só o poeta é que tem de lidar com a ingrata linguagem alheia. A impura linguagem dos homens.

Há um grande silêncio que está sempre à escuta.

Quando o silêncio a dois se torna incômodo.

Cada palavra é uma borboleta morta espetada na página. Por isso a palavra escrita é sempre triste.

Mas quem foi que tomou agora o fio da minha vida?  Que outro lábio canta, com minha voz  perdida, nossa eterna primeira canção?

As histórias de crimes que vovó Ágata contava para nosso horror, no mundo inacreditável de hoje viraram histórias de fadas.

Autodidata: ignorante por conta própria.

O segredo da arte ?? e o segredo da vida ?? é seguir o seu próprio nariz.

Há mortos que não sabem que estão mortos.

Infância ?? tecnicólor;  velhice ?? a vida em preto-e-branco.

Planto com emoção  este verso em teu coração. 

Ele fugiu de casa... Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade... Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!

Nem tudo estará perdido enquanto nossos lábios não esquecerem teu nome.

Poesia não é a gente tentar em vão trepar pelas paredes, como se vê em tanto louco por aí: poesia é trepar mesmo pelas paredes.

A vida é tão bela que chega a dar medo.

No céu, os anjos do Senhor leem poemas às escondidas. São suas leituras pornográficas.

O que mais me comove, em música, são essas notas soltas ?? pobres notas únicas ?? que do teclado arranca o afinador de pianos...

Não leia  romances, leia poesias. Ou melhor, leia dicionários.

Ninguém ouve um discurso por muito tempo: começa-se a pensar em outras coisas.

?? Mas há as pessoas que nos compreendem...       ?? Ah, essas são as piores!

No peitoril de todas as janelas há uma flor convalescente.

Quem nunca se contradiz deve estar mentindo.

Eu sempre achei que toda confissão não transfigurada pela arte é indecente.

Uma das mais deliciosas manifestações de amor é a falta de respeito.

Uma formiguinha atravessa, em diagonal, a página ainda em branco. Mas ele, aquela noite, não escreveu nada. Para quê? Se por ali já havia passado o frêmito e o mistério da vida...


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