São José do Rio Pardo, ,

17/Abr/2021 - 13:46:56

O "milagre dos 7 minutos": o segredo da limpeza no Japão

Maria Olívia Garcia




Só conheço o Japão por documentários veiculados na mídia, porém é possível notar, através destes, que naquele país quase tudo funciona beirando a perfeição, por isso interessei-me pela reportagem publicada em El Clarín, de Buenos Aires, de 14 de abril desta semana, que fala da estratégia de limpeza dos trens japoneses nesta época de pandemia.

Para começar, os trens de lá estão anos-luz à frente das antigas e raras máquinas existentes em nosso país, embora o ideal seria que tivéssemos grandes malhas ferroviárias em todo o Brasil, em vez de estradas horríveis nas quais diariamente caminhoneiros e viajantes perdem as vidas!

No Japão, os governantes levam a sério a higiene metódica, uma das formas mais recomendadas de prevenção de infecções por coronavírus. Esta higiene é a base de uma rotina há anos elaborada, que ocorre toda vez que um trem de alta velocidade chega à Estação Central de Tóquio. O modelo dessa limpeza foi até objeto de estudo em Harvard, pela eficiência apresentada, uma vez que se sabe ser o transporte coletivo um dos locais de maior risco de contágio da doença.

Esse apelido de "o milagre dos 7 minutos" foi dado a essa atividade pela imprensa internacional, devido ao tempo estipulado para que duas equipes de 44 pessoas deixem impecáveis cada um dos 17 vagões dos 120 trens-bala (Shinkansen) que diariamente chegam à capital japonesa.

Só para terem ideia do atraso do Brasil nesse setor de transportes, esse trem que anda a 320 km/h foi inaugurado nos Jogos Olímpicos de Tóquio de 1964 e é sinônimo de pontualidade. E nós, brasileiros, ainda dependemos de transportes coletivos parados no tempo!

 

TR?S MINUTOS PARA DESCER

 

Quando chegam a seu destino, os passageiros têm 3 minutos para desocupar os carros e, como ninguém deixa lixo neles (não existe essa opção), a maioria desce com embalagens de alimentos, guardanapos usados, jornais amassados e vasilhames vazios, materiais que são recebidos pela equipe de limpeza, que os armazena em um recipiente, e embarca.

O cronômetro marca 6h59, então começa a contagem regressiva: em um ritmo vertiginoso e controlado, os membros da equipe limpam as poltronas, mesinhas de cabeceira, apoios de braço e janelas; abrem as cortinas e viram os assentos giratórios para a saída do trem. A seguir, varrem o chão, trocam as capas das cabeceiras das poltronas e limpam os banheiros (os donos da Viação Santa Cruz precisavam ler isto!).

Se houver algum assento sujo, colocam nele um aviso: "Não use!". Os objetos esquecidos ganham o número do assento onde foram encontrados e o horário da chegada do trem em que esses objetos foram deixados.

 

DOIS MINUTOS PARA O EMBARQUE

O cronômetro marca 00h00, os novos passageiros têm dois minutos para embarcar, tendo a sensação de um carro novo, limpo. Cerram-se as portas, o trem volta a se movimentar e os funcionários da limpeza dispensam-no como se o fizessem para um rei: com o tronco inclinado para frente, mãos nas laterais e o olhar para o chão.

No Japão os alunos são treinados para formar equipes de limpeza das salas de aula, corredores e banheiros, então quando chegam a funcionários de limpeza já possuem uma agilidade que os diferencia de outras civilizações. Mas essa eficiência só virou manchete depois que a Harvard Business School a tornou um estudo de caso obrigatório.

Além da questão da eficácia, os alunos de Harvard analisam o modelo de liderança de Teruo Yabe, o executivo que em 2005 foi chamado para reformar uma empresa de limpeza que apresentava problemas organizacionais, reclamações de passageiros e baixa autoestima de seus funcionários.

Yabe trocou os ásperos manuais por sugestões dos próprios funcionários e elaborou uma vigorosa "coreografia de limpeza", a que chamou de "Teatro Sinkansen de 7 minutos"; adotou novas ideias de uniformes, como camisas havaianas no verão, e estabeleceu um sistema de promoção que elevou o moral da equipe.  Além da sua capacidade de reformar uma empresa em crise, ele também foi de vanguarda ao conseguir sistematizar a higiene!

Seria ótimo ter um profissional desses governando o país, dirigindo escolas e outras instituições, pois essa seriedade e esse compromisso com o cargo exercido faltam em nosso país, em que grande parte dos líderes não possui a diplomacia necessária para a liderança e muitos dos trabalhadores, sempre insatisfeitos, não se comprometem com o desempenho profissional, apenas desejam receber o salário no início do mês.

Gostaria muito de ter a oportunidade de viver algum tempo em uma sociedade tão civilizada, em que todos respeitassem as regras por respeito ao próximo; em que as pessoas não emporcalhassem o espaço público e onde os meios de transporte fossem limpos e rápidos.

Infelizmente não acredito mais em um futuro em que possamos chegar a um estágio semelhante, visto que estamos regredindo como seres humanos, em vez de evoluir como deveríamos!


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