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17/Abr/2021 - 13:58:13
Isso tudo vai passar
RedaçãoADRIANO DONIZETI DOMINGOS DO NASCIMENTO
Eu não sei quem você é, mas estou certo de que algo não está bem. Faz algum tempo que eu venho tentando lhe escrever. Até tinha preparado qualquer texto para amenizar sua dor, linhas que pudessem lhe mostrar que tudo vai passar, mas as palavras se perderam no imenso abismo. Eu mesmo não tenho paciência para a fria retórica que não consola a desolação do ser. Não fui vítima do vírus genocida, mas de um iracundo mostro pandêmico que devora o lirismo das palavras, antes mesmo que as letras possam ter a chance de serem materializadas no branco da folha.
Mesmo que tenha se isolado, é certo que o desolador noticiário, em algum momento, possa ter invadido sua casa. Infelizmente, as ruas lá fora estão cinzas e testemunham paradoxos pungentes. Até os brancos muros do cemitério de nossa tacanha cidade ouviram a insana carreata negacionista percorrendo aquele pedaço de asfalto que, horas antes, havia sido atravessado pelo fúnebre cortejo de um conterrâneo silenciado pelo terrível vírus. Naquela tarde de domingo, pode ser que eu tenha perdido a inspiração... se, ao menos, eu tivesse escrito aquele texto para amenizar sua dor, linhas que pudessem lhe mostrar que tudo isso vai passar...
Embora suas angústias não tenham sido objeto de reportagens televisivas e, muito menos, capa estampada em jornais, imagino que seu coração também esteja desinquieto. Sei que não posso mensurar a intensidade de seus dramas tão pungentes. ? fato que não consigo ouvir o sinistro alarido que enlouquece e amedronta sua alma sensível. Apenas desconfio de seu teatral sorriso que, a custo, se sustenta para disfarçar a devastação interior pela qual sua mente passa. Quem sabe, se eu tivesse escrito aquele texto para amenizar sua dor, linhas que pudessem lhe mostrar que tudo isso vai passar...
Talvez você não tenha se dado conta, mas não adianta fugir: o mundo tem se mostrado um lugar hostil. Sabemos que, em algum ponto purgatorial da Terra, crianças esquálidas mendigam alimento, enquanto as mães, ensandecidas de fome, balbuciam preces desconexas diante de sua impotência constrangedora. Provavelmente, você seja capaz de escutar os gritos abafados dessas vítimas de uma humanidade indiferente à dor do próximo. De relance, não será difícil você entrever essa multidão de espectros humanos trajando farrapos e errando por labirintos sem fim. Que pena! Se eu tivesse escrito aquele texto para amenizar sua dor, linhas que pudessem lhe mostrar que isso tudo vai passar...
Mesmo que você tivesse a possibilidade de estar em um oásis, é certo que, a qualquer remoto destino em que se embrenhasse, estaria na presença de uma atormentada consciência, sua fiel e inseparável companheira de jornada. Eu sei que busca, incansavelmente, as razões para os martírios tão pungentes que lhe dilaceram a alma opressa, mas não encontra um único arranhão que justifique sua tempestuosa ansiedade. Observa em volta esse angustioso sentimento de vazio a agarrar o calcanhar de tantas pessoas, tombando seus corpos em uma inércia sepulcral. Perdão! Se, ao menos, eu tivesse escrito aquele texto para amenizar sua dor, linhas que pudessem lhe mostrar que tudo isso vai passar...
Pode ser que, em raro momento de lucidez, você se dê conta da efemeridade dessa sombria fase pela qual passamos. Pode ser que seus olhos se livrem da cegueira momentânea e se abram à perenidade da luz. Pode ser que você recobre o apetite há tempos perdido: não o desejo pela gula comum, mas o apetite pela vida que desprezamos ao alimentar nossos monstros mentais, enquanto as horas escorrem pelas delicadas mãos do tempo. Porque eu não escrevi aquele texto prometido, quem sabe você se encha de coragem e registre no branco da folha um texto que lhe faça amenizar sua própria dor, linhas que possam lhe mostrar que isso tudo vai passar...
Adriano Donizeti Domingos do Nascimento, professor da rede pública e particular, mestrando em Letras pela USP.