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24/Abr/2021 - 21:45:35
O corpo nosso de cada dia
RedaçãoFILOMENA MARIA PERRELLA BALESTIERI
"O meu corpo é um jardim, a minha vontade o seu jardineiro. " (William Shakespeare)
O nosso corpo é o que temos de mais próximo, no entanto, nos esquecemos dele muitas vezes. Podemos até fazer atividades físicas, preocupar-se com uma dieta equilibrada e ter um estilo de vida saudável, mas será que essas práticas são suficientes? A cada dia, você percebe o seu corpo realmente? A sua respiração está calma, centrada, rítmica ou está desorganizada, ansiosa? E os seus músculos? Estão relaxados ou estão tensos sem necessidade? Convido-o para uma pausa e percepção do seu corpo.... Essas tensões desnecessárias revelam a nossa forma individual de enfrentar o cotidiano e se refletem nas nossas emoções e pensamentos. Um corpo calmo, relaxado, com a respiração tranquila percebe realmente o momento vivenciado. A contemplação da própria vida e o autoconhecimento estão intimamente relacionados ao modo com que o nosso corpo navega pelos seus espaços internos e externos.
Se a respiração ansiosa e a ausência de percepção do próprio corpo são comuns no nosso cotidiano, imagine agora em plena pandemia! A cada notícia que surge, a cada informação que temos sobre pessoas conhecidas que podem estar contaminadas, o nosso corpo se contrai. Essa contração ocorre porque o nosso cérebro interpreta a mensagem como sendo de risco de sobrevivência...precisamos preparar o corpo para fugir ou enfrentar a situação.... E para isso nosso coração acelera, os brônquios se abrem para aumentar a oxigenação, as pupilas dilatam e os músculos se contraem para entrar em ação. O nosso corpo foi adaptado para o ambiente natural e vivemos em um mundo modificado pela cultura; os perigos mudaram e são muitas vezes invisíveis, mas o corpo reage da mesma maneira. Esse estado de ativação contínua de enfrentamento constitui o chamado estresse, importante em situações de perigo. Hoje vivemos situações de estresse psicológico, o que pode causar ansiedade com reflexos no corpo, tais como dores musculares, dores na coluna, dores de cabeça e, em casos extremos, o desenvolvimento de doenças mais complexas. Isso ocorre porque o nosso corpo está tão voltado para o mundo externo, que o mundo interno acaba sendo esquecido. Em termos fisiológicos, dizemos que o nosso Sistema Nervoso Simpático (SNS) está continuamente ativado para lidar como o meio externo e deixamos o Sistema Nervoso Parassimpático (SNP), que lida com o mundo interno, menos ativo. Nosso foco para o mundo externo (SNS) geralmente dura entre uma hora e duas horas e, em seguida, abre-se o espaço para o mundo interno (SNP), que pode durar por volta de vinte minutos. Nesse momento, o corpo tende a relaxar, o coração acalma, a circulação sanguínea nos tecidos aumenta e estimula os processos de digestão, de secreção hormonal e, muito importante, a mente fica tranquila acompanhando o ritmo da respiração. Esses seriam os movimentos naturais de recuperação do nosso corpo no cotidiano. E é aí que os problemas começam. Muitas vezes não obedecemos às necessidades corporais; ao sentirmos que o foco externo diminui, buscamos estimulantes como café e/ou cigarro, ou iniciamos outra atividade, e não percebemos que o corpo precisa de uma pausa. ? como se um instrumentista não conseguisse ter uma pausa na execução de uma música e tivesse que tocar ininterruptamente?ou um cantor que cantasse sem as pausas para respirar?. Sufocante... percebe?
E é nesse sentido que o momento que vivenciamos agora parece nos dizer algo. Ficamos sufocados com as queimadas na Amazônia, no Pantanal e nas diversas cidades, inclusive na nossa. Ficamos com a respiração suspensa quando vemos cenas cruéis de pessoas negras nos EUA e no Brasil, morrendo asfixiadas por policiais. Ficamos paralisados e ansiosos quando percebemos que milhões de pessoas estão morrendo sufocadas pelas patologias causadas pelo coronavírus (Sars-Cov-2). Parece que criamos um mundo que não nos permite respirar...
O oxigênio que inalamos é o alimento mais precioso que recebemos continuamente; quando respiramos plenamente preenchemos os alvéolos pulmonares e o oxigênio penetra nos vasos sanguíneos ali presentes e o leva a todos os tecidos para que eles funcionem de forma equilibrada. Enquanto o oxigênio chega nos tecidos, o gás carbônico acumulado nesses locais é retirado do corpo quando exalamos o ar... Enfim, a saúde do nosso corpo depende muito da qualidade da nossa respiração.
Quando respiramos bem, nossos pensamentos fluem tranquilos, centrados, focados nas necessidades do momento presente. Essa é a ideia de as pessoas fazerem yoga e meditação, sem a conotação espiritual para a qual foram criadas. Quando a pessoa trabalha o corpo no yoga, ela se concentra na respiração, contrai e relaxa a musculatura, respira calmamente, foca no instante presente. Uma pessoa calma geralmente respira bem; passa por momentos de ansiedade, de estresse, mas pela capacidade de respirar adequada retoma seu ritmo respiratório natural e pleno.
O mundo precisa reaprender a respirar; comece por você! Feche os olhos, inspire pelas narinas profundamente, sentindo o preenchimento dos seus pulmões. Pare a respiração por alguns segundos e exale o ar, pelas narinas, mais lentamente que em relação à inspiração. Repita várias vezes, de forma consciente, sentindo o ar entrar e sair do seu corpo. Esse é o começo da sensação de bem-estar que a respiração propicia e o que pode levar à maior percepção de si mesmo e do Outro, do espaço de vida...é um momento de estar consigo mesmo. Respire bem e seja mais feliz!