São José do Rio Pardo, ,

05/Jun/2021 - 22:17:43

O feriado desta semana

Maria Olívia Garcia




O mês de maio já acabou e nada mudou...  o malfadado vírus propaga-se cada vez mais, contagiando agora os mais novos; a vacinação continua em ritmo lento, perdendo para o corona, assim como os homens de bem perdem para os malandros deste país...

A vida de muitos tornou-se uma rotina automática sem sequer sair de casa: o trabalho em home office é psicológica e fisicamente desgastante para muitos, principalmente para os professores. O lazer dificilmente excede o âmbito familiar, pois reunir-se com amigos é hoje atitude imprudente. As crianças, grandes vítimas dessa pandemia, continuam sofrendo com as aulas à distância e sem poder se reunir com os amigos para brincar como antes, assim a vida vai passando. Até os feriados perderam o sentido, pois o "fique em casa" acaba sendo imperativo.

Pois bem, o último feriado nacional deste semestre é nesta semana, em que os católicos comemoram a solenidade de Corpus Christi, embora muitos deles já tenham até esquecido do que se trata!  Aliás, é de se estranhar que datas comemoradas apenas pela Igreja Católica ainda sejam feriados nacionais, uma vez que a religião no Brasil é muito diversificada e o brasileiro não foge ao sincretismo religioso, por isso é oportuno lembrar o motivo dessa parada no meio da semana.

A solenidade do Corpo e Sangue de Cristo teve origem no século XIII, com o papa Urbano IV. Na Bélgica havia um cônego chamado Tiago Pantaleão de Troyes, a quem foi revelado o segredo da freira Juliana de Mont Cornillon, cujas visões de Cristo demonstravam o desejo de que o mistério da Eucaristia fosse celebrado com destaque. 

Por volta de 1264, próximo a Orvieto, aconteceu o "Milagre de Bolsena", que foi o sangue vertido da hóstia durante a missa, no momento da consagração, empapando o pano onde se colocam o cálice e a patena durante a celebração. O papa solicitou que os objetos milagrosos fossem levados a Orvieto, em procissão, em 19 de junho de 1264, depois levados para a Catedral de Santa Prisca.

A festa de Corpus Christi foi instituída oficialmente por Urbano IV com a bula Transiturus, em 8 de setembro de 1264, para ser celebrada na quinta-feira depois da oitava de Pentecostes, é por isso que esse feriado sempre cai nesse dia da semana.

Esse papa morreu logo depois da publicação da bula, motivo pelo qual ela não teve muita repercussão, porém na diocese de Colônia, na Alemanha, o documento se propagou e a solenidade passou a ser celebrada naquela localidade desde 1270. Foi lá que surgiu a procissão de Corpus Christi, disseminando-se depois na França e na Itália, chegando a Roma em 1350. O hino para ser cantado durante a celebração foi composto por São Tomás de Aquino, com o título de Lauda Sion (Louva, Sião) e até hoje permanece em algumas dessas celebrações.

No Brasil esse dia é feriado facultativo, mas acaba sendo feriado de fato, e é costume antigo ornamentar as ruas por onde a procissão passa, com tapetes bem coloridos, feitos por voluntários, e desenhos religiosos. Foi a Irmandade do Santíssimo Sacramento que deu início a esse costume. Nas cidades históricas brasileiras ocorrem práticas antigas e tradicionais, com decorações grandiosas, de acordo com o costume do local.

Em Pirenópolis, Goiás, essa celebração acontece desde o século XVIII, na época da criação da Irmandade do Santíssimo Sacramento da Matriz e a procissão é realizada sempre ao amanhecer. Os altares também são enfeitados para a adoração do Santíssimo Sacramento, ocasião em que se entoa o Tantum Ergo Sacramentum, composto por Eugênio Leal da Costa Campos, no início do século XX, para ser executado pelo Coro e Orquestra Nossa Senhora do Rosário. Essa festa é patrimônio cultural imaterial do município.

Em Minas Gerais, é na cidade de Mariana que se comemora a festa de Corpus Christi mais tradicional, também com tapetes de serragem e pinturas cobrindo as ruas.

No estado de São Paulo essa solenidade é muito prestigiada na cidade de Matão, famosa pelos tapetes coloridos, confeccionados com vidro moído, dolomitas, serragem e flores, estendendo-se por 12 quarteirões no centro da cidade e atraindo muitos turistas.

Em Borborema (SP), as ruas são enfeitadas com enxovais, bordados e artesanatos produzidos por mais de 50 lojas e fábricas da cidade, sendo todo o material vendido após a procissão e a renda revertida ao Lar de Idosos São Sebastião. Já em Ibitinga (SP), Capital Nacional do Bordado, os fiéis bordam tapetes de tecido que se estendem por 10 quadras em torno da Igreja Matriz e todos os anos a população doa roupas de cama, mesa e banho, produtos das bordadeiras da cidade, para obras de caridade.

Em Cabo Frio (RJ), a avenida principal da cidade é decorada com tapetes de sal coloridos com tintas especiais.

Enfim, em tempos de tantas dificuldades, seria muito bom adotar a ideia de que as pessoas que pudessem, de livre e espontânea vontade, fizessem doações de roupas e alimentos no momento da procissão!

 

CURIOSIDADE:

LOUVA, SI?O

(LAUDA SION, S. Tomás de Aquino)

 

1. Louva Sião, o Salvador, louva o guia e pastor com hinos e cânticos.

1. Lauda Síon Salvatórem, láuda dúcem et pastórem, in hymnis et cánticis.

2. Tanto quanto possas, ouses tu louvá-lo, porque está acima de todo o louvor e nunca o louvarás condignamente.

2. Quantum pótes tantum áude: quia máior ómni láude, nec laudáre súfficis.

3. ?-nos hoje proposto um tema especial de louvor: o pão vivo que dá a vida.

3. Láudis théma speciális, pánis vívus et vitális hódie propónitur.

4. ? Ele que na mesa da sagrada ceia foi distribuído aos doze, como na verdade o cremos.

4. Quem in sácrae ménsa coénae, túrbae frátrum duodénae dátum nom ambígitur.

5. Seja o louvor pleno, retumbante, que ele seja alegre e cheio de brilhante júbilo da alma.

5. Sit laus pléna, sit sonóra, sit iucúnda, sit decóra méntis iubilátio.

6. Porque celebramos o dia solene que nos recorda a instituição deste banquete.

6. Díes enim solémnis ágitur, in qua ménsae príma recólitur huius institútio.

7. Na mesa do novo Rei, a páscoa da nova lei põe fim à páscoa antiga.

7. In hac ménsa nóvi Régis, nóvum Páscha nóvae légis pháse vétus términat.

8. O rito novo rejeita o velho, a realidade dissipa as sombras como o dia dissipa a noite.

8. Vetustátem nóvitas, umbram fúgat véritas, nóctem lux elíminat.

9. O que o Senhor fez na Ceia, nos mandou fazê-lo em memória sua.

9. Quod in coéna Chrístus géssit, faciéndum hoc expréssit in súi memóriam.

10. E nós, instruídos por suas ordens sagradas, consagramos o pão e o vinho em hóstia de salvação.

10. Dócti sácris institútis, pánem, vínum in salútis consecrámus hóstiam.

11. ? dogma de Fé para os cristãos que o pão se converte na carne e o vinho no sangue do Salvador.

11. Dógma dátur christiánis, quod in cárnem tránsit pánis, et vínum in sánguinem.

12. O que não compreendes nem vês, uma Fé vigorosa te assegura, elevando-te acima da ordem natural.

12. Quod non cápis, quod non vídes, animósa fírmat fídes, praeter rérum órdinem.

13. Debaixo de espécies diferentes, aparências e não realidades, ocultam-se realidades sublimes.

13. Sub divérsis speciébus, sígnis tantum, et non rébus, latent res exímiae.

14. A carne é alimento e o sangue é bebida; todavia debaixo de cada uma das espécies Cristo está totalmente.

14. Cáro cíbus, sánguis pótus: mánet tamen Christus tótus sub utráque spécie.

15. E quem o recebe não o parte nem divide, mas recebe-o todo inteiro.

15. A suménte non concísus, non confráctus, non divísus: integer accípitur.

16. Quer o recebam mil, quer um só, todos recebem o mesmo, nem recebendo-o podem consumi-lo.

16. Súmit únus, súmunt mílle: quantum ísti tantum ílle: nec súmptus consúmitur.

17. Recebem-no os bons e os maus igualmente, todos recebem o mesmo, porém com efeitos diversos: os bons para a vida e os maus para a morte.

17. Súmunt bóni, súmunt máli: sórte tamen inaequáli, vítae vel intéritus.

18. Morte para os maus e vida para os bons: vêde como são diferentes os efeitos que produz o mesmo alimento.

18. Mors est mális, víta bónis: víde páris sumptiónis quam sit díspar éxitus.

19. Quando a hóstia é dividida, não vaciles, mas recorda que o Senhor encontra-se todo debaixo do fragmento, quanto na hóstia inteira.

19. Frácto demum Sacraménto, ne vacílles, sed meménto tantum ésse sub fragménto, quantum tóto tégitur.

20. Nenhuma divisão pode violar a substância: apenas os sinais do pão, que vês com os olhos da carne, foram divididos! Nem o estado, nem as dimensões do Corpo de Cristo são alterados.

20. Núlla réi fit scissúra: sígni tantum fit fractúra, qua nec státus, nec statúra signáti minúitur.

21. Eis o pão dos Anjos que se torna alimento dos peregrinos: verdadeiramente é o pão dos filhos de Deus que não deve ser lançado aos cães.

21. Ecce pánis Angelórum, fáctus cíbus viatórum: vere pánis filiórum, non mitténdus cánibus.

22. As figuras o simbolizam: é Isaac que se imola, o cordeiro que se destina à Páscoa, o maná dado a nossos pais.

22. In figúris praesignátur, cum Isaac immolátur, agnus Páschae deputátur, dátur mánna pátribus.

23. Bom Pastor, pão verdadeiro, Jesus, de nós tende piedade. Sustentai-nos, defendei-nos, fazei-nos na terra dos vivos contemplar o Bem supremo.

23. Bóne Pástor, pánis vére, Jésu, nóstri miserére: Tu nos pásce, nos tuére, Tu nos bóna fac vidére in térra vivéntium.

24. ? Vós que tudo sabeis e tudo podeis, que nos alimentais nesta vida mortal, admiti-nos no Céu, à vossa mesa e fazei-nos co-herdeiros na companhia dos que habitam a cidade santa.

24. Tu qui cúncta scis et váles, qui nos páscis hic mortáles: túos ibi commensáles, cohaerédes et sodáles fac sanctórum cívium.

 

Amém. Aleluia.


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