São José do Rio Pardo, ,

12/Jun/2021 - 19:41:12

Para entender "Os Sertões" III ?? A Guerra de Canudos I

Redação

CIDINHA GRANADO




A Guerra de Canudos é considerada um dos conflitos mais emblemáticos que marcaram o período entre a queda da Monarquia e a instalação do Regime Republicano no Brasil. Foi uma sucessão de conflitos armados envolvendo inicialmente a Polícia Militar baiana e depois o Exército brasileiro contra os sertanejos que seguiam o líder religioso Antônio Conselheiro. A guerra de Canudos foi uma verdadeira guerra civil, envolvendo brasileiros contra brasileiros, que poderia ser evitada se as paixões políticas e os interesses sociais das partes envolvidas não fossem tão conflitantes. A Guerra de Canudos aconteceu no ano de 1897, terminando em 5 de outubro de 1897, quando o arraial de Canudos foi totalmente destruído. Esses conflitos deixaram muitas marcas no início do período republicano, tanto pela brutalidade empregada quanto pelos pretextos que foram usados para justificar a aniquilamento do arraial e a morte de milhares de canudenses que lá viviam e de 5.000 soldados mandados pelos governantes.

Essa guerra não aconteceu por acaso e suas raízes eram antigas. A escravidão havia sido proclamada em 1888 e muitos ex-escavos perambulavam pelos sertões, sem possibilidades de trabalho. Assim como os caboclos sertanejos, que já seguiam o Conselheiro, esse povo muito pobre, entusiasmado com o seu discurso, aproximou-se dele. Essas pessoas acreditavam realmente que Conselheiro poderia tirá-los daquela pobreza material e garantir-lhes a salvação espiritual. As autoridades católicas tentaram impedir que Antônio Conselheiro continuasse suas pregações religiosas, isso durante a monarquia, pois embora fosse católico, não era padre e sim beato. Ele chegou a ser preso na Bahia e enviado para sua terra natal, no Ceará, onde foi libertado dos crimes de que era acusado. Ele voltou para a Bahia e o seu prestígio aumentou.

Quando foi proclamada a República, em 1889, surgem então, segundo Walnice Galvão, "tempos que assistem à eclosão de insurreições e levantes de todo tipo pelo território nacional afora, desde aqueles geograficamente restritos até os mais alastrados" Segundo Walnice, "a Guerra de Canudos, desencadeada no sertão da Bahia em 1896-1897, não passa de uma dessas revoltas que compõem o cortejo de uma mudança de regime."

O governo republicano apresentava uma série de mudanças para a vida brasileira. Uma mudança significativa foi a separação entre Igreja e Estado. Isso impactou as mentes da época, apegadas à religiosidade. Antônio Conselheiro repudiou todas as mudanças, como a obrigatoriedade do casamento civil, pois só admitia o casamento religioso, feito pelos sacerdotes católicos.  Conselheiro via, assim, no fim da Monarquia e na implantação da República, não uma simples mudança política, mas uma ameaça à própria existência da religião. O governo republicano estabeleceu também uma fiscalização acirrada na coleta de impostos, que incidiam sobre os mais pobres. Antônio Conselheiro entrou em choque com a República, que considerava "um grande mal para o Brasil", sonhando com a restauração do regime monárquico, o que foi largamente explorado por seus adversários. Ele acreditava que o governo da República era a materialização do "Anticristo" na Terra, porque o governo leigo seria um sacrilégio contra a Igreja Católica.

O regime republicano vinha atravessando instabilidades e todas as tensões, violências e rancores desencadeados pelos conflitos e pelas crises, acrescidos às condições políticas e sociais específicas existentes na Bahia, foram canalizadas contra Canudos, para a terrível e trágica guerra no sertão da Bahia, provocando a sua destruição e uma matança sem precedentes. Antônio Conselheiro, segundo muitos que já escreveram a respeito, surpreendia as pessoas por onde passava com sua maneira tão peculiar de ser. Conselheiro levava vida pessoal exemplar e tinha hábitos rigorosos, pois não comia carne nem tomava bebidas alcoólicas. Nunca realizou milagres nem curas. Quando chegava aos vilarejos, dedicava-se às reformas das igrejas, construção de cemitérios e a dar conselhos. Em suas caminhadas pelo sertão, lia, interpretava e divulgava a Bíblia à sua maneira, como livre-pensador. Redigia e lia suas reflexões para os seus acompanhantes no fim do dia, após o trabalho de todos. Sua linguagem era límpida, clara, transparente. As citações latinas eram utilizadas para fundamentar suas opiniões religiosas. Podia se perceber em seus escritos que ele conhecia as ideias dos principais santos católicos como S. Agostinho, S. Tomás, S. Inácio. Ele citava também autores clássicos como o poeta grego Homero, o teatrólogo Eurípedes, o poeta latino Virgílio. Antônio Conselheiro citava ainda o mártir católico inglês Thomas Morus, autor do livro A Utopia, cujo enredo é sobre uma comunidade ideal, perfeita, onde todos viviam em paz e igualdade, onde não existia propriedade privada nem dinheiro, prostituição, tavernas. O ouro valia menos que o ferro, por ser este mais útil. A produção era colocada em armazéns públicos e cada um retirava o que precisava. Não havia fechaduras nas portas das casas nem trancas nas janelas. Falava sobre o juízo final e a santidade da vida. Alertava para o fato de que só conseguiriam ter uma vida sem miséria no sertão, só alcançariam o céu se cultivassem uma vida de santidade e devoção. Os sertanejos, em número cada vez maior, ouviam e iam pouco a pouco aceitando tudo isso como verdade e iam abandonando suas vidas para seguir Antônio Vicente. Foi dessa maneira que Antônio Vicente Maciel passou a ser conhecido como Antônio Conselheiro. Ele confiava em que a solução para o acabar com o sofrimento do povo sertanejo estava na fé e na luta pela autonomia. Sua figura começou a influenciar as pessoas porque representava uma esperança de "salvação", de "redenção" para aqueles desvalidos dos sertões, que o viam como um profeta que trazia promessas de um novo tempo mais promissor

Em 1893, um episódio envolvendo Antônio Conselheiro espalhou a primeira faísca da futura e trágica Guerra de Canudos. Antônio Conselheiro e seus seguidores ao passarem pela cidade de Bom Conselho, no sertão baiano, Conselheiro mandou arrancar e queimar os editais públicos de cobrança de impostos, que foram colocados nos postes pelas autoridades republicanas da localidade. O fato foi presenciado pelo Dr. Arlindo Leôni, juiz de direito do município, mas, por não possuir policiais naquele momento, não pôde tomar nenhuma atitude. O governo da Bahia, ao ser informado sobre o ocorrido, resolveu penalizar os conselheiristas, enviando 120 soldados, comandados por um tenente, para afrontá-los. O embate aconteceu em Masseté, entre as cidades de Tucano e Cumbe, onde se encontravam Conselheiro e seus seguidores. Os sertanejos resistiram à investida, lutaram, e os soldados fugiram, havendo mortos dos dois lados. Conselheiro e os fiéis seguiram então para a direção norte, onde havia um trecho bem grande de terras secas, caatingas, passagens difíceis e serras acidentadas, por pressentirem que os soldados voltariam para um novo ataque. Aquela região era conhecida por Conselheiro e ele sabia que poderia viver ali sem correr riscos.

Após alguns dias de penosa jornada, chegaram a um lugar chamado Canudos, às margens do Rio Vaza-Barris, onde havia uma fazenda de gado abandonada e uma pequena igreja toda avariada.  Antônio Conselheiro chamou o lugar de Belo Monte, e começou, em 1893, a realizar a sua utopia no sertão.


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