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12/Jun/2021 - 21:04:30
O mundo ficou muito chato!
Maria Olívia Garcia
Lembro-me de um mundo alegre, divertido, em que cada feriado
ou final de semana prolongado era festejado com bailes ou jantares; em que a
praça da Matriz ficava cheia de gente... Lembro-me da antiga quermesse de São
Roque, onde o grupo de jovens a que eu pertencia - a JAP - trabalhava feliz,
servindo as mesas ou vendendo correios-elegantes. Ah, os correios-elegantes!
Era uma emoção recebê-los e adivinhar quem os havia enviado!
Recordo-me das serenatas à porta de casa, na Vila Pereira, ao som do violão e da voz que gostávamos de ouvir! E os carnavais? Animadíssimos, mesmo com as fantasias confeccionadas no improviso, com pouco dinheiro, mas que faziam sucesso!
Ainda havia os bailes das Semanas Euclidianas: o Baile da Moda, que abria a Semana (guardo na memória um vestido xadrez preto e branco, com botões vermelhos em formato de rosas), o Baile Branco (lembro-me de um vestido de renda branca, gola rolê e cavas profundas); o Baile de Gala... eventos que foram se esvaziando na década de 70. Tudo isso agora pertence a um passado distante, em que o mundo parecia lindo!
Mas também me recordo de um passado recente, em que as pessoas se reuniam, viajavam em grupo, faziam festas e o mundo ainda era um lugar agradável para se viver. No entanto, este mundo agora ficou chato. Mas não ficou assim apenas em consequência da pandemia: ele já vinha, pouco a pouco, perdendo a graça com a exacerbação do "politicamente correto". Obviamente, ninguém concorda com preconceitos nem com a injustiça, porém esse monitoramento paranoico do politicamente correto nada mais é do que um controle social, uma espécie de censura colocada como "bem da humanidade"!
A realidade é que indivíduos autoritários e com pouco senso de humor têm se colocado como se tivessem o direito alienável de não se sentirem ofendidos em nenhum momento, mesmo que para isso seja necessário censurar a maioria. Esses sujeitos são patrulheiros implacáveis que asfixiam todas as liberdades da humanidade e deles ninguém ousa discordar, por puro medo.
O "politicamente incorreto" é, na essência, uma desculpa para censurar discursos indesejados, embora muitas vezes os objetos desses discursos nem se sintam ofendidos! Esse policiamento acaba provocando efeitos funestos nas relações sociais, que passam a ser cada vez mais supérfluas, impedindo que se desenvolvam a intimidade e a profundidade dessas relações.
Ninguém mais pode ser sincero, expressar com liberdade seus pensamentos, pois o receio de sofrer uma crítica contundente ou uma censura tolhe a espontaneidade das pessoas. Até as agências de publicidade têm a liberdade criativa tolhida e muito limitada por esse excessivo policiamento das opiniões, o que fez desta época a mais chata de todas que já vivemos.
Passamos de um extremo ao outro: de uma fase em que falas ofensivas eram totalmente liberadas a uma era em que qualquer coisa que fuja do senso comum seja taxada de preconceituosa; em que piadas que sempre existiram passassem a ser consideradas ofensivas, em que autores que encantaram crianças, como Monteiro Lobato, sejam abominados e até censurados.
O que se vê, infelizmente, é uma geração sem preparo emocional e educacional para lidar com frustrações, conflitos e opiniões divergentes. Uma geração que se apregoa politicamente correta, mas que se mostra preconceituosa com pobres, obesos, idosos e com pessoas que fujam da beleza ditada pela mídia. Essa geração está conseguindo fazer do nosso mundo um lugar quase insuportável para se viver!
? preciso aprender a vencer as frustrações, enfrentando-as de forma sadia, sem buscar culpados, mas também compreender que o mundo não gira ao nosso redor, que não podemos ter o controle de tudo. ? preciso aprender a respeitar as diferenças, as pessoas mais velhas, as diversas religiões, ideologias políticas e opiniões divergentes e não apenas exigir que os outros aceitem as nossas ideias e preferências, abdicando dos próprios pensamentos!
Segundo Eliane El Badouy, a censura do politicamente correto é primeiramente autoimposta, pois censuramos nosso próprio eu; a seguir, esse domínio psicológico se volta sobre as outras pessoas, alienando-as, limitando-as e controlando-as com uma espécie de proibição prévia que na verdade não existe, uma vez que todo ser humano é livre para se expressar.
Essa ordem disseminada por esses patrulheiros é inoculada nas pessoas através dos costumes e do medo da reação que um posicionamento contrário poderá desencadear. Para Badouy, caminhamos para uma sociedade em que todos crescerão aprendendo um discurso padrão e desestimulados a ter pensamento crítico, contrário a essa fala padronizada. ? o grande truque de manipulação das mentes, é a ditadura do "Admirável Mundo Novo", de Huxley: a imposição do senso comum, o condicionamento das pessoas para que vivam conforme as regras e leis sociais escolhidas por um grupo que almeja o domínio absoluto da sociedade.
? momento de buscar o equilíbrio e retroceder com esse policiamento exagerado, pois a vida após a pandemia já promete ser difícil, não precisa, também, de ser triste nem de formar uma sociedade de zumbis!