São José do Rio Pardo, ,

19/Jun/2021 - 18:00:48

A serpente e Deus

Redação

AFFONSO ORLANDI NETO




Aqueles que me conhecem sabem que, desde pequeno, tenho uma paixão por um animal que a maioria das pessoas não gosta nem de ouvir falar, a serpente. Um réptil escamoso e rastejante que se originou há cerca de 130 milhões de anos e desde a sua convivência com os humanos, a maioria das pessoas as temem e abominam por sempre possuir a fama de um animal perigoso, fatal, diabólico e tantos outros adjetivos pejorativos que se associam à sua imagem. O que muitas pessoas não sabem é que esse ódio e medo por esses animais foram fortalecidos, principalmente, pela simbologia que algumas culturas e religiões os representam.

Obviamente, não posso contrariar os argumentos que as serpentes são animais perigosos, sim, elas realmente são. Algumas espécies são peçonhentas e seus venenos podem levar a morte, outras podem atingir comprimentos de até 9 metros, e serem capazes de engolir um ser humano. Mas ainda assim, não são animais que querem fazer o mal, elas não correm atrás de pessoas, elas não tentam se alimentar de pessoas ou até preferem ficar perto de pessoas. Muito pelo contrário, na primeira oportunidade de fuga ela tentará fugir o mais rápido possível. Acontece que, infelizmente, o medo e a ignorância abrem espaços para pensarmos que elas sempre vão fazer o mal, já que essa percepção é criada principalmente por mitos e lendas, os quais foram sustentados pela principal protagonista dessa fama terrível, a religião.

Na Bíblia, no antigo testamento, Eva foi tentada por uma serpente e acabou comendo o fruto da árvore do bem e do mal, consequentemente a senhorita Eva desencadeou uma devastação nas populações das serpentes, já que a partir daquele fruto, a serpente ganhou uma simbologia de tentação, traição e falsidade. Uma imagem de que o ser rastejante é perigoso e traiçoeiro, gerando assim um medo nos cristãos tão grande que até hoje acreditam na malignidade embutida no instinto deste animal e as matam por isso. Além de Adão e Eva, a serpente aparece mais vezes na Bíblia, mas nunca como uma imagem positiva, sempre negativa e relacionada ao Diabo, significando que a serpente não é "coisa de Deus". Por isso, no ocidente as serpentes são mais odiadas e temidas, já que ninguém quer chegar perto de um animal que gerou a expulsão de Adão e Eva do paraíso.

Por outro lado, temos religiões que idolatram as serpentes, como o Budismo. Na sexta semana após Buda ter atingido a Iluminação, ele foi meditar embaixo de uma árvore de tílias. Entretanto, uma forte tempestade começou a cair. Uma gigantesca naja, então, saída do nada, enrolou seu corpo sete vezes ao redor de Buda para mantê-lo aquecido, e dispôs seu enorme capelo acima da cabeça de Buda para protegê-lo da chuva. A naja era Mucalinda, a grande naja Rei de todas as serpentes, que recebeu como agradecimento a marca de Buda (desenho de binóculo no capelo das najas indianas). Em outras passagens do Tripitaka (livro sagrado do Budismo), onde aparecem as serpentes na história, todas são para ajudar Buda em seu caminho. Sendo assim, no oriente, temos vários países que admiram e idolatram as serpentes por elas possuírem uma imagem benevolente, é claro que as pessoas temem as serpentes pelo perigo que elas apresentam, mas acima de tudo, as respeitam.

Diferentes culturas, diferentes religiões e diferentes Deuses possuem suas próprias concepções da imagem das serpentes, benévola ou não, não podemos nos esquecer que esses animais possuem uma importância fundamental em nossa ecologia e por motivos de mitos, lendas e crenças, não podemos deixar que isso as tornem as vilãs da história.


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