São José do Rio Pardo, ,

03/Jul/2021 - 21:04:53

Espetáculo macabro

Maria Olívia Garcia




Na obra O homem medieval, Jacques Le Goff menciona que as violências cívicas, como as exposições no pelourinho, flagelações e execuções de condenados significavam muito mais que punições, tornavam-se espetáculo aos habitantes das cidades.

A atração do ser humano por esses macabros espetáculos de violência é antiga; em Roma, por volta do século II a.C., a Damnatio ad bestias (condenação às bestas) era uma pena que condenava o réu à morte por animais selvagens, geralmente leões, e essa forma de execução fazia parte da classe de "esportes de sangue" chamada Bestiário, entretenimento para as classes mais baixas daquela cidade e aplicada aos piores criminosos, escravos fugitivos e cristãos. Os historiadores descrevem condenações semelhantes nas campanhas de Alexandre, na Ásia Central.

No século I, a pena começou a ser usada contra os cristãos, sob o reinado de Nero, em que as pessoas eram envolvidas em peles de animais - a chamada túnica molesta - e jogadas aos cães. Esta prática servia para equiparar os cristãos aos piores criminosos, que eram punidos dessa maneira.

Outro espetáculo de correção em alguns países, na Idade Média, era a morte na fogueira, para os acusados de traição, para os escravos rebeldes, os acusados de heresia, bruxaria, incesto e homossexualidade.

Basta recordar Tiradentes que se lembra imediatamente de mais um: a condenação à forca, outra exibição macabra que durou muito tempo e que em alguns países ainda existe, haja vista a condenação de Sadam Hussein, no Iraque, em 2006, e sua execução em 30 de dezembro do mesmo ano.

Ainda se pode falar no espetáculo da morte na guilhotina, símbolo da repressão na França, onde rolaram aproximadamente 40 mil cabeças entre 1792 e 1799. No período conhecido como Terror, entre 1792 e 1794, o governo revolucionário suspendeu as garantias civis e cerca de 15 mil pessoas morreram na guilhotina. No final, um golpe derrubou o líder Robespierre, que também foi guilhotinado. Tudo isso me passou pela mente ao ver o espetáculo da execução de Lázaro na TV.

? óbvio que não defendo um comprovado assassino de quatro pessoas de uma família no Distrito Federal e um caseiro em Girassol, Goiás, mas o espetáculo montado pela mídia foi desprezível!

Todos sabem que o bandido foi preso três vezes e conseguiu fugir de todas as prisões. De que modo? Quem o ajudou?

A mídia divulgou a fala do secretário de Segurança Pública de Goiás, Rodney Miranda, que afirmou ser Lázaro um psicopata, uma pessoa que, se tivesse a oportunidade, iria fazer reféns ou matar. O terror da população já se instalou ao ouvir essa declaração, a que a mídia acrescentou ser um maníaco, um serial killer, estuprador e praticante de magia negra. O "monstro" estava construído. Quem não sentiria pavor só em pensar na possibilidade de o rapaz estar nas proximidades?

A partir daí, o povo passou a acompanhar o Big Brother do crime: a caçada ao Lázaro, que caminhava em seu destino para um fim que ele mesmo desconhecia... mas pressentia, porque já estava condenado à morte a partir do momento em que a caçada a ele havia iniciado, vinte dias antes de ser abatido. A grande mídia já lhe dera a sentença fatal, à qual ele não poderia fugir.

Até o programa de Ana Maria Braga passou a ter, no seu início, um relato dos avanços da polícia na caça a Lázaro. Tudo pela audiência de uma população ávida para ver a cena de sangue e de vingança.

Lázaro recebeu, no mínimo, 38 tiros, afirmou o secretário da Saúde de Goiás, em "cálculo aproximado". A polícia alegou que ele descarregou a arma nos policiais e estes revidaram. Na mochila que ele carregava, havia uma faca, um coldre de arma de fogo, um carregador de pistola sobressalente, além de diversas munições, liga de borracha e fita plástica; uma jaqueta camuflada, uma balaclava, uma luva de pano, um isqueiro, um frasco com óleo, outro com comprimidos, antibiótico, analgésicos, macarrão instantâneo, tempero pronto, cebola e bolachas. No bolso da calça, R$ 4.400,00. Ao lado do corpo do rapaz, duas armas: uma pistola e um revólver calibre 38, com seis balas disparadas.

Foram seis tiros disparados por ele contra os tiros de fuzis de 270 policiais fortemente armados. A polícia admitiu que Lázaro Barbosa usou todas as balas que havia na arma. Poderia ser capturado, mas talvez por que não se acredita mais no sistema judiciário brasileiro, a opção foi pela execução. Era ele um matador profissional? Para quem trabalhava? Esses responsáveis serão realmente punidos ou tudo será esquecido, uma vez que o bandido já foi abatido e não poderá fazer denúncias?

Ao saber dos detalhes da execução, lembrei-me imediatamente deste trecho de Os sertões:

"Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados".

O que me causou indignação, nessa história toda, foi a cena de policiais comemorando a morte do jovem, postando fotos e vídeos desse acontecimento; a carreata e o buzinaço em frente ao IML de Goiânia, as pessoas soltando fogos e a mídia divulgando tudo isso, sendo que ele deixou uma criança que terá de saber que o pai era um criminoso e, pior ainda, que tomará conhecimento de como foi a morte dele. Que reação terá? O quanto será estigmatizada por ser filha de Lázaro Barbosa?

 

Definitivamente, estamos regredindo à barbárie!


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