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03/Jul/2021 - 21:19:23
Ave Caesar, morituri te salutant
RedaçãoJOÃO PAULO DA CUNHA GOMES
O assunto não poderia ser outro. Não tem como voltar a atenção para qualquer outra questão que não seja a pandemia do novo Coronavírus, que se estende planeta afora há mais de um ano. A tragédia que inaugura o século XXI ainda está distante de ser compreendida e, por esse motivo, não se sabe até quando se estenderá, ou mesmo se algum dia terá um fim. Cientistas não descartam a hipótese de o Coronavírus acompanhar a humanidade pelas próximas gerações e a COVID se tornar uma doença endêmica. Muitas perguntas ainda não têm respostas.
O que se tem em relação à novel peste é que a arma mais eficiente para o seu controle é a minimização da transmissão. Isso, obviamente, se a intenção for a preservação da vida, porque, por mais incrível que possa parecer, há quem defenda, em pleno ano de 2021, que a maneira mais eficiente de controlar o surto pandêmico da doença é justamente permitir, deliberadamente, que tal se espalhe para o maior número de pessoas possível, para se conseguir, com isso, uma natural imunidade de rebanho. Estágio alcançado quando a maior parte da população (que sobrevive) adquire anticorpos contra o agente causador da enfermidade, de modo que o patógeno deixa de circular descontroladamente e acaba sendo neutralizado.
Nem é preciso ser estudioso da história para saber que pandemias sempre existiram. Mais de um terço da população da Europa morreu no século XIV arrasada pela Peste Negra. Os europeus, quando desembarcaram na América, trouxeram o vírus da gripe que se alastrou entre os indígenas dizimando populações inteiras por muitos anos.
No início do século passado, a gripe espanhola se espalhou pelo mundo causando a morte de dezenas de milhões de pessoas, entre as quais Rodrigues Alves, que foi eleito pela segunda vez presidente do Brasil e que, por isso, não chegou a assumir o cargo. Esses são alguns exemplos de pandemias que se findaram de modo natural. Todavia, a custa de centenas de milhões de mortes, considerando-se o total de vítimas, somados, dos casos mencionados. Mencione-se que a Peste Negra, embora tenha tido seu ápice em meados do século XIV, teve outros surtos nos séculos subsequentes.
? uma insanidade, em tempos atuais, de progresso científico e de medicina avançada, fazer alusão a essas tragédias históricas para insinuar que o caminho para a erradicação da pandemia do Coronavírus seja a exposição em massa da população ao vírus, em busca da chamada imunidade de rebanho. Sobretudo porque vivemos a era das vacinas. A ciência evoluiu a ponto de tornar possível essa imunização coletiva por meio dos imunizantes, preservando-se vidas, e não se abrindo mão delas.
Em relação ao novo Coronavírus, não se sabe, ainda, por quanto tempo subsiste a imunidade de quem já contraiu a doença, nem mesmo se haverá a necessidade de se vacinar novamente e de quanto em quanto tempo. Quanto mais lenta a vacinação, mais o vírus circula e isso possibilita o surgimento de novas cepas, mais transmissíveis e mais agressivas. Cite-se o exemplo de Manaus. Por ter sido extremamente atingida pela doença, acreditou-se que a diminuição de casos observada entre maio e outubro do ano passado deu-se em virtude do alto número de pessoas que tinham sido infectadas, circunstância esta que teria levado a cidade atingir a imunidade de rebanho (Sciense, https://science.sciencemag.org/content/371/6526/288).
A população ensaiou uma volta à normalidade. O resultado todos conhecemos. A circulação intensa do vírus possibilitou o surgimento de uma nova variante, que levou a cidade a um surto ainda mais devastador, culminando no caos do sistema de saúde. Hoje a chamada P1 é predominante no país.
? mais do que razoável reconhecer que nosso país não suportaria uma parada total de sua atividade econômica por muito tempo. O ideal seria a adoção do lockdown nacional por intervalo breve, para frear a transmissão do vírus. Como isso é utopia, minimamente racional seria uma campanha nacional de conscientização da população acerca da necessidade de se manter o distanciamento social, higienização das mãos e do uso de máscaras para aqueles que precisam sair de casa para trabalhar, enquanto não se dispõe de vacinas para todos.
Essas tarefas simples fazem a diferença e são eficientes no combate à disseminação do Sars-Cov-2 enquanto a vacinação coletiva ainda não é possível. Cientistas e estudiosos aduzem que as vacinas ora em uso têm potencial para impedir o agravamento da COVID-19 e, com isso, desafogar o sistema de saúde e prevenir mortes. Todavia, mesmo o vacinado pode contrair o vírus e transmiti-lo. Somente a imunização de uma considerável parcela da população poderá acarretar a diminuição da transmissão do patógeno a ponto de ensejar o início da retomada da normalidade pré-pandêmica. Realidade ainda distante. Eis o porquê da necessidade do uso de máscara mesmo após ser imunizado com a vacina. ? ato de amor ao próximo.
O negacionismo e a irresponsabilidade, colocam em risco não apenas a vida de quem assim age, mas a de seus familiares, de seus amigos. E infectar os outros, conforme exposto, não levará à imunidade coletiva. Levará, sim, à tristeza, à dor da perda sem despedida. A história não registra a existência de mártires que promoveram a morte alheia em nome de um ideal.
Outrora, gladiadores e prisioneiros que entravam na arena para lutarem até a morte se voltavam para o imperador, que assistia ao espetáculo macabro, e o saudavam bradando "Ave, César, os que vão morrer o saúdam", talvez em um último pedido de clemência revestido de bravura, de coragem.
Na atualidade, o não ser marica implica em saudar César pelos outros que irão morrer.
? oferecer holocausto com cordeiro alheio.
João Paulo da Cunha Gomes, licenciado em História pela FEUC - S.J.R.Pardo, bacharel em Direito pela UNIP - S.J.R.Pardo