São José do Rio Pardo, ,

10/Jul/2021 - 20:29:23

Para entender: Os Sertões IV ?? A Guerra de Canudos II

Redação

MARIA APARECIDA GRANADO RODRIGUES




O ESTOPIM DA GUERRA

Exército se prepara para combate em Canudos (Detalhe de foto de Flávio de Barros)

Antônio Conselheiro chegou a Canudos em 1893. Ele decidiu chamar o lugar de Belo Monte. O nome Canudos originou-se do costume que os antigos moradores do lugar possuíam de fumar em cachimbos feitos de caniços ou canudos vegetais encontrados às margens do Rio Vaza-Barris. No entanto, o nome Belo Monte não predominou e o que prevaleceu foi o nome Canudos. Antônio Conselheiro contava, nessa época, com 63 anos de idade. Ele tinha muitos planos para aquele grupo de fiéis que o seguiam.

A comunidade liderada pelo "Bom Jesus", como Antônio Conselheiro passara a ser chamado, começou a crescer vertiginosamente, atraindo milhares de camponeses, índios e ex-escravos libertados em 1888. Os desabrigados do sertão e as vítimas da seca eram recebidos e trabalhavam na terra, sem os castigos aplicados pelos capatazes das grandes fazendas, sem as obrigações das autoridades religiosas católicas e políticas, bem como das leis republicanas e tudo que estivesse ligado a esse novo regime político.

Tudo era dividido entre os habitantes e o que sobrava era negociado nas cidades vizinhas. Desse modo, conseguiam obter os bens e produtos que não eram produzidos no local. Para se protegerem, os habitantes de Canudos organizaram grupos armados. Foi assim que, em poucos anos, o arraial de Canudos se firmou na região, passando a reunir cada vez mais sertanejos que lutavam para mudar suas condições de vida fugindo da miséria e dominação dos grandes latifundiários. ? medida que as pessoas chegavam a Canudos e recebiam a autorização para morarem lá, Conselheiro ia orientando a construção de casas de pau a pique, revestidas de barro vermelho. Aquelas casas todas juntas, desalinhadas, poderiam significar uma disposição toda confusa, mas, na verdade, talvez Conselheiro agisse assim como forma de proteção e resistência contra possíveis ofensivas futuras das autoridades.

Antônio Conselheiro e seus seguidores conseguiram edificar em pleno sertão, em apenas 4 anos, uma comunidade pobre, mas autônoma, fecunda, igualitária, serena, organizada e diferente dos outros lugares do sertão. O rápido crescimento da comunidade de Canudos, num total entre 25 e 30.000 habitantes e 5400 casas, passou a incomodar os coronéis locais e a Igreja católica. Os latifundiários perdiam mão-de-obra enquanto a Igreja perdia seus fiéis. O arraial de Canudos passou a ser alvo de inúmeras críticas por parte dos poderosos que enxergavam naquela comunidade uma ameaça à ordem estabelecida, já que perdiam mão-de-obra para ele.

Apesar de ser uma comunidade pobre, ninguém passava fome. Embora vivesse ali uma concentração grande de pessoas, não havia violência, tampouco havia exploração entre os trabalhadores. Antônio Conselheiro incentivava as festas, os casamentos religiosos, os batizados e as missas, aceitando que padres realizassem esses sacramentos, quando visitavam o arraial, o que não era muito comum. Não havia prostituição nem bares vendendo com bebidas alcoólicas. A cadeia local era conhecida pela alcunha de "poeira", por estar sempre vazia...

A população de Canudos continuou aumentando com a chegada de homens e mulheres de várias procedências. Em 1895, quando lá esteve a missão dos capuchinhos da Piedade, o frei João Evangelista, acompanhado de dois sacerdotes, calculou que mais de seis mil pessoas haviam assistido a sua pregação, admitindo, porém, que a maior parte era gente de fora. O frei João, num dos encontros com Conselheiro, disse que iria aconselhar o povo a se dispersar e a voltar para suas casas e seus trabalhos para o bem de todos. Isso não foi bem aceito por Conselheiro nem pelos canudenses. Antônio Conselheiro acalmou o povo. Porém, o frei João, em seu relatório ao arcebispo da Bahia, fez denúncias mais de cunho político do que religioso. Acusou Conselheiro de monarquista contumaz, que não aceitava o governo e as leis republicanas.

Logicamente, essas denúncias exageradas do frei João foram suficientes para criar um clima de indisposição por parte da Igreja Católica em relação a Antônio Conselheiro e a Canudos, mas o início da guerra se deu por um incidente equivocado. No final do ano de 1895, o próprio Antônio Conselheiro comprou uma certa quantidade de madeira em Juazeiro para o término da construção de uma nova e maior igreja no arraial. No entanto, apesar de terem recebido o dinheiro da compra, os comerciantes locais não entregaram a encomenda conforme combinado. Conselheiro disse que mandaria alguns dos homens de Canudos buscar a madeira em Juazeiro, ou ele mesmo se encarregaria disso. O juiz de direito daquela localidade, Dr. Arlindo Leôni, o mesmo que, em 1893, presenciara o Conselheiro mandando arrancar e queimar os editais de impostos em Bom Conselho, aproveitou o ensejo para vingar-se daquele insulto. O juiz Leôni, deturpou o recado de Conselheiro, divulgando-o como uma ameaça de assalto à cidade ou uma ameaça de vingança contra ele, telegrafou ao governador do estado pedindo providências enérgicas para defender a cidade. No entanto, o governador do estado, Luís Viana respondeu que não podia fazer nada movido por um simples boato. O juiz insiste com outro telegrama afirmando "desânimo domina a população, apreensiva da possibilidade de invasão antes da chegada de força", segundo Edmundo Moniz (A guerra social de Canudos, 1978). Diante do insistente pedido do juiz Leôni, o governador Viana conseguiu um destacamento de cem soldados do exército, sob o comando do tenente Pires Ferreira, para evitar que a invasão à cidade de Juazeiro não acontecesse. Estava deflagrado o estopim da guerra.


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