São José do Rio Pardo, ,

10/Jul/2021 - 21:11:14

A dessacralização pós-moderna

Maria Olívia Garcia




O fim do mundo, tão anunciado por várias seitas religiosas, ainda não chegou e a sensação de que tudo está perdido nada mais é do que consequência desta turbulenta travessia em que nos encontramos: o fim de uma era e o início do novo que vem por aí. ??Viver é perigoso? e a travessia na noite escura e aparentemente sem fim mete medo... Todas as crenças e instituições se desmoronam, perdemos nossas certezas e os alicerces de uma civilização milenária estão ameaçados. O que acontece, afinal?

Para começar, está ocorrendo uma desconstrução do sagrado que parece não levar em conta o fato de que em todos os fenômenos há causa e consequência. Na sociedade atual, o modo de ser religioso está saindo da esfera protegida das instituições e da tradição, deslocando-se para a mídia. Lembro-me quando, nos anos 60, os intelectuais tanto alertaram para a forma como seria utilizada a televisão. Hoje temos a internet, vivemos conectados e assim os poderes locais e regionais perdem a força que sempre tiveram.

Não é apenas o âmbito religioso a sofrer essa mudança: o conceito tradicional de família já se desintegrou; assistimos atualmente à imposição por outras mudanças, como o conceito de gênero, imposto de uma forma que chega a chocar uma parcela da sociedade. Em algumas escolas, já instituíram um dia em que meninas vão travestidas de meninos, e vice-versa. Vivemos um momento de iconoclastia total.

A mídia contemporânea dita tudo: o padrão de beleza, a moda, o comportamento, a religião, os relacionamentos... A séria questão é que nem sempre ela se pauta pela ética. Ou então, muitas vezes, esta é distorcida para servir aos objetivos de quem comanda as ideias a serem implantadas. Triste é que, por trás disso tudo, sempre há ganância e objetivo maior é o lucro.

Não interessa mais aos que detém esse tipo de poder onde está nem o que seja a Verdade; basta-lhes o verossímil. Convenceu? Seduziu o consumidor? Fez sucesso? Deu lucro? Então passa a ser ??verdade? disseminada insistentemente pela mídia, que manipula o medo, a ânsia de felicidade e a produtividade dos indivíduos. E como estamos cada vez mais conectados, seremos cada vez mais comandados por ela. O preço a pagar por quem foge dos padrões é alto, nem todos têm a força de caráter para resistir a isso e correr o risco de ser isolado ou rejeitado.

Tudo virou espetáculo. Na mesma cidade em que os templos se encontram vazios, um show de alguém como o padre Fábio de Melo, por exemplo, fica lotado e com ingressos caros, como nos informou o mestre Agenor. Nunca as pessoas foram tão escravizadas como agora e, o que é pior, com a ilusão de serem livres!

Nesse ??sagrado moderno? ?? se for possível chamá-lo assim ?? acontece uma diminuição do poder sagrado do centro organizador de cada sociedade. Este centro foi deslocado para o ser humano, mas de uma forma totalmente alienada dos valores essenciais. Isto provoca uma grande mudança de paradigma: a Verdade das religiões fragmenta-se em muitas pequenas verdades individuais.

Poderíamos até pensar que, enfim, somos donos de nós mesmos... Infelizmente, é uma utopia julgar que todos os indivíduos são evoluídos a ponto de gerir a si mesmos. Então a convulsão social aflora, uma vez que os ritos são ordenadores da sociedade, são eles que estabelecem as prioridades, mostram o que é importante e o que é secundário; equilibram e organizam o mundo. Desde os primórdios das civilizações os homens necessitam de ritos para uni-los na formação de uma comunidade. Sem essa presença concreta do sagrado, o mundo se torna sempre hostil, agressivo e violento, pois o ser humano retorna ao seu mais primitivo estágio: o animal.

O caos e o enfraquecimento dos vínculos que tudo isso provoca facilitam o aparecimento de regimes totalitários e de fundamentalismos religiosos e políticos. Portanto vários antropólogos já alertaram: esse comando da mídia não tem a mesma eficácia dos rituais sagrados autênticos e levam as pessoas a uma angústia e frustração crescentes.

A sociedade do espetáculo, superdesenvolvida científica e tecnologicamente, por haver desprezado a essência do ser humano, que é a parcela a buscar incessantemente um sentido para a existência, tem tudo para ser violenta, infeliz, desumana e suicida. Basta assistir aos noticiários na TV para termos a comprovação disso. Médicos que submetem pacientes a cirurgias sérias e desnecessárias, somente para receber propinas de empresas de próteses... Gerações de jovens que se matam aos poucos ?? quando não cometem também homicídios ?? afundando-se nas drogas... Bandidos e políticos que não têm a mínima consideração com o outro... Muitos são os exemplos do caos em que vivemos!

Qual a nossa reação diante disso? Cruzar os braços e chorar por nossos filhos e netos? Esperar que uma solução caia do céu, enquanto continuamos indiferentes, trancados em nossos mundinhos, salvando a própria pele? A omissão é a pior das atitudes. Enquanto nos calamos e nos acovardamos, estamos permitindo que construam um futuro desumano para as novas gerações que, se ainda forem capazes de pensar por conta própria, um dia irão nos condenar!


O Riopardo - 2020/2025 - Todos direitos reservados