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10/Jul/2021 - 21:35:53
Os grandes equívocos da existência
Odília Lopes Fernandes
Histórias não são mais para os pequenos. A linguagem simbólica sempre foi o elemento que nutriu a humanidade com seus ensinamentos e inspirações. Oferecê-las às crianças, aos mais velhos e adolescentes é uma forma de ajudá-las a crescer com sabedoria.
Esta é uma história verdadeira, que aconteceu há muito tempo atrás. Retirei dos arquivos do inesquecível Reinaldo Leite.
Maria Antonieta
Maria Antonieta era uma bela mulher, adorada pelo esposo, bem mais velho que ela. Ele era um antigo assistente do ministro das finanças, mesmo desempregado, ainda ocupavam um velho solar pertencente à monarquia. A vida daquele casal modificara-se após ser despedido. Apesar dos seu parcos recursos, viviam felizes.
Reinado de Napoleão
Por causa da melhoria do campo econômico, o rei resolveu comemorar. Abriria os imponentes portais do majestoso salão de festas, da nobreza francesa, o qual hoje é o mais famoso museu do mundo: Palácio do Museu do Louvre, naquela época era o reinado de Napoleão lll, que naquele momento estava entusiasmado em oferecer um requintado jantar e logo após, um grandioso baile com a melhor orquestra que havia na França. Os convites da festa foram distribuídos, principalmente para as mulheres mais formosas da corte, para embelezarem a cerimônia.
Maria Antonieta surpreendeu-se ao receber o convite. Ela prontamente recusou o convite:
?? Meu bem, não tenho roupa adequada e nem condições de ir a essa festa! O marido também não estava com ânimo e nem disposição, mas insistiu que a esposa deveria comparecer, necessitavam conviver mais com os nobres. Faria um empréstimo para a indumentária da esposa, contrataria uma costureira. Ele não iria, mas teria uma grande satisfação que ela fosse.
A grande emergência
E assim foi feito, quando ela foi experimentar o vestido, quis que o marido a acompanhasse para ver a roupa. Ele ficou encantado, a roupa assentara-lhe muito bem, no entanto sentiu que aquele colo alvo e perfeito merecia um lindo colar. No começo ela relutou, eles já estavam endividados com o vestuário.
O lindo colar
Lembraram-se da duquesa, sempre pronta para atender qualquer pedido vindo da bela Maria Antonieta. A reputação da nobre dama era meio duvidosa, mas enfim tentariam a sorte. Chegaram até a grande mansão da duquesa. Ele ficou na porta, achava que entre mulheres seria mais fácil o diálogo. Após os cumprimentos, a madame convidou-a para um chá. A duquesa era uma mulher experiente, quis saber o motivo da visita.
Muito timidamente, Maria contou que precisaria de um colar emprestado. A nobre senhora com um largo sorriso, e disse:
?? Venha escolher o que mais lhe agrada.
Minutos após, ela lhe apresentou várias caixas de veludo com as mais belas pedras, dizendo:
?? Escolha, minha filha.
O rio das lágrimas perdidas
O colar escolhido foi o que mais combinava com os trajes que iria usar. Havia um título no colar: "O rio das lágrimas perdidas".
Na noite da grande gala, o marido ficou orgulhoso ao levá-la até a carruagem. Ela estava totalmente esfuziante de beleza e elegância. Tanto ela insistiu para que ele lhe fizesse companhia, que este, resolveu ficar sentado num banco do jardim do palácio, para aguardá-la na saída.
A iluminação com seus lustres magníficos, e toda a pompa extraordinária encheram seus olhos de encantamento ao entrar no imenso salão. O rei Napoleão, assim que a viu, veio ao seu encontro, deslumbrado pela figura maravilhosa que estava a sua frente, e não saiu do seu lado, dançando e falando em seus ouvidos elogios o tempo todo.
A perda do colar
Já passava da meia noite, quando ela saiu do baile, sentindo o frio da madrugada e num dos bancos do jardim quase enregelado encontrou o marido. Ela estava tão eufórica pelos felizes momentos que passara que dispensou a carruagem para poder prolongar aqueles instantes fascinantes que ainda a dominavam. E, voltaram para a casa caminhando solitários pelas longas avenidas. Quando chegaram em casa, ela correu para retirar aqueles espartilhos apertados e foi nesse momento, que deu pela falta do colar. Desesperados saíram pelas mesmas ruas que haviam caminhado, chegaram até o palácio, onde naquela hora, estavam somente os serviçais, que nada encontraram. Tinham medo que a duquesa os denunciasse e trataram de mandar fazer no joalheiro um colar idêntico que havia desaparecido. Duzentos mil francos em ouro, foi o custo do colar. Tiveram que vender todo o mobiliário, tapeçarias e quadros que ornamentavam as alvas paredes da bonita vivenda. Quando foram devolver o colar, a nobre dama mal quis olhar, mandou que o depositassem em cima de um móvel, sem ao menos ver o conteúdo do bonito estojo de veludo.
Passaram-se os anos
Passaram-se vinte anos, os quais trabalharam arduamente. Aquele seria um dia especial, pagariam finalmente a última promissória. Era muita emoção para aquele homem já arqueado pelos anos e um fulminante ataque cardíaco o levou. Alguns anos se passaram. Napoleão lll, ia deixar o reinado e quis novamente fazer a festa igual a que fizera anos atrás, e novamente mandou o convite para aquela dama que muito o impressionara. Ao receber o convite, Maria rasgou-o com uma sonora gargalhada. No dia marcado para a festa, ela teve vontade de chegar até o palácio, colocou um casaco já surrado e foi até lá e permaneceu até o final do baile. Não conhecia ninguém que se retirava, nesse instante, ela ouviu uma risada.
A explosão da verdade
Era a duquesa que saia acompanhada de vários rapazes. Maria se aproximou e para o seu espanto; reconheceu o colar que ela estava usando. Chegou-se até ela e perguntou se lembrava dela.
?? Eu não te conheço. Não me dou com a ralé, disse virando-lhe o rosto.
?? Eu sou Maria Antonieta! ?? disse quase num grito.
?? Tudo o que me aconteceu foi por causa desse colar que perdi e tive que gastar uma fortuna para poder lhe devolver...
?? Porque não foi me dizer? Aquele colar que te emprestei era falso, comprei de um mascate. A decepção foi tão grande que Maria caiu sem vida a seus pés. Pobre Maria era apenas uma grande vítima dos grandes equívocos da existência...
Envolva-se no amor e na paz.