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17/Jul/2021 - 21:48:20
Desagrados & negativas
Márcio José Lauria
No dialeto de Rímini, a cidade italiana em que nasceu Federico Fellini, o nome do seu filme ?? Amarcord ?? quer dizer ??eu me lembro?. ? a crônica da infância do louvado diretor, que retira dos armazéns da memória personagens e cenas do sentido humano mais profundo. Entre elas, a prostituta que um belo dia teve a oportunidade de ouro de sua atividade profissional, a de agradar um aristocrata fascista, pretensioso e cheio de si, em visita de caráter político. Ela se sente tão honrada com tão ilustre cliente, que lhe diz, mostrando-lhe os atributos físicos no início dos trabalhos: GRADISCA, quer dizer, ??disponha, tire proveito?... A incomum oferta, não se sabe como, chegou aos ouvidos de outras pessoas curiosas e o resultado foi permanente: Gradisca se tornou o nome da profissional do amor. Ficou o episódio conhecido universalmente como o máximo de sujeição a que alguém pode voluntariamente se submeter para agradar a outrem.
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Essa arte de agradar, presente em todas as atividades humanas, não poucas vezes merece o nome de sabujice, bajulação, puxa-saquismo, subserviência, condição de capacho... O contrário disso tudo seria independência, autonomia, pundonor, hombridade, altivez... A propaganda, com sua linguagem apelativa que só mostra o lado bom dos produtos e das pessoas, é o ápice da arte de agradar, interesseiramente.
Não poucos sabem que o termo grego pathos tem em nosso vocabulário o sentido de ??o comovente, capaz de despertar tristeza ou dor?. Daí patologia, apatia... Daí também, pelo uso adequado de diferentes prefixos: simpatia (quando os sentimentos das pessoas se afinam), empatia (quando as pessoas conseguem entender-se até mesmo sem palavras), antipatia (quando ao primeiro olhar se coloca entre elas a primeira das muitas pedras que formarão barreira altíssima, insuperável, sem se saber exatamente por quê). Tanto a simpatia quanto a empatia e a simpatia têm forte base intuitiva , independendo, pois, do controle racional dos sentimentos.
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Claro, tudo em matéria emocional é mudável e corrigível. Simpatias tanto deságuam em amor como em indiferença. A empatia por vezes não passa de erro inicial de leitura, não deita as raízes da forte amizade, do mútuo entendimento. Da antipatia programada e cultivada, de repente brotam a paixão, o ódio, o nada. Da antipatia tanto se vê o sentimento fenecendo como planta que se deixou de irrigar ou como árvore cujas raízes se aprofundam no solo: lança galhos, floresce, frutifica, justifica a vida.
Tornamo-nos simpáticos ou antipáticos por ações e por omissões. Não vou perder o nosso tempo recapitulando as formas usuais na geração da simpatia, mesmo porque é dificílimo fazer amigos e influenciar pessoas. Tanto, que circula por aí, há bem meio século, um livro cujo título acabei de furtar de Dale Carnegie. Não poucas vezes, tenho sentido tanto a simpatia que possa despertar nesta ou naquela pessoa quanto a antipatia que de mim outras muitas não conseguem ocultar. Há casos em que se pode dar graças aos céus por não se merecer a simpatia deste ou daquela.
Quanto à empatia, nem vale a pena comentar, porque ou se sabe o que isso representa ou o esforço demonstrativo será tão inútil como a tentativa de explicar a cegos de nascença a singular beleza dos crepúsculos.
De agora em diante, avalie o prezado leitor seu potencial de antipatizar, assinalando o que lhe cai como luva nesta exemplificativa de negativas, com força capaz de abalar relacionamentos, de deitar por terra todos os esforços de entendimento e de aproximação:
a não comparecer à entrega do diploma de pré-primário do Júnior
a não estender a mão à quiromante amadora
a não dar bola à placa PROIBIDO ESTACIONAR
a não chegar atrasado, jamais
a não passar pela nova loja que o vizinho inaugurou
a não assistir à divulgada palestra sobre ecologia
a não ficar com o número da rifa beneficente
a não tomar conhecimento do livro inaugural da poetisa local
a não lembrar o nome daquela cara tão familiar
a não agradecer o e-mail-circular de boas-festas
a não visitar na própria cidade a mostra internacional filatélica
a não cumprir a promessa de voto no deputado
a não levar a sério o orador da festinha de batizado
a não notar a perda, pela mulher, de quase dez quilos num mês
a não engolir calado aquele cacófato do cunhado
a não refazer o piso da sala
a não baixar os faróis altos
a não apagar os faróis baixos
a não emprestar o CD de coleção
a não perdoar aquela vírgula da cunhada
a não aguardar a sobremesa da doceira
a não saber se o pano é verde ou azul
a não dar carona por princípio
a não gostar daquele tom de cabelo
a não aplaudir o trombonista vesgo
a não rir da história recontada (mal)
a não seguir a trilha no meio dos canteiros
a não estar nem aí
a não incensar a sumidade científica do bairro
a não cumprimentar o pai da noiva
a não acompanhar a novela das oito
a não achar o Messi essas coisas
a não se inscrever no torneio de buraco da paróquia
a não louvar a decisão do júri
a não passar pelo velório do vizinho secarrão
a não deixar de notar aquela ruga na prima solteira
a não cair das nuvens no fim da história
a não apostar no talento do decorador
a não se interessar pela genialidade do Neto
a não explicar aquela crase ao primo
a não ajeitar o quebra-galho do sobrinho
a não dar o braço a torcer ao são-paulino
a não aprender e não esquecer.
Avaliação? Isso é aí com você. Não quero aumentar meu índice de antipatias.