São José do Rio Pardo, ,

17/Jul/2021 - 21:54:56

Esta nossa triste República

Maria Olívia Garcia




Diante da nova avalanche de denúncias de mais esquemas de corrupção, podem-se ver as hienas com as gengivas à mostra, as mandíbulas preparadas para o embate que não acaba, o eterno vale-tudo, em que os mais astutos devoram os menos espertos e quem termina destruído é, obviamente, o povo. Isto ainda continua sendo, infelizmente, a política brasileira!

Isto é Brasil... Há muito! Um povo que ??não lê, não pensa e não estuda?, conforme afirmaram vários escritores, não pode saber quantas advertências estão registradas desde o final do século XIX até hoje, para que mudássemos os rumos deste sistema. Não custa dizê-las, para quem não as conhece, nem lembrá-las, para quem já as esqueceu.

Basta conferir. Coelho Neto, no início do século XX, escreveu:

 

??Na República os estados são menos que satrapias, nas quais se instalam, por manobras e tranquibérnias inconfessáveis e com poder discricionário, não os mais dignos, senão os mais audaciosos.?

(Para ajudar alguns leitores:  ??satrapia? é governo do sátrapa,  na Índia, ou do sibarita, ou seja, de um déspota.  ??Tranquibérnias? são fraudes e ??poder discricionário? é um poder arbitrário, ilimitado).

Continua Coelho Neto: ??E esses tais, porque não confiam no valor próprio, que lhes granjearia, se eles o tivessem, o apreço e a estima das populações, empregam meios férreos de garantir-se, cercando-se de uma guarda fiel, organizada com a parentela parasitária, distribuindo as posições de mando com os aparceirados, destacando subservientes para vigiarem os pontos onde existam insubmissos e avexam, oprimem os que ousam levantar protestos ou entrar rebeldemente em pleitos eleitorais. E se os não aliciam pelo processo infamante da peita nem os dobram pelo temor, organizam expedições com carta de prego para restabelecerem à baioneta e bala a tranquilidade nos campos e nas matas, firmando em túmulos o que eles chamam irrisoriamente ?? o princípio da autoridade.?

 

Observem que nada mudou, ao contrário, o esquema se foi aperfeiçoando:

 ??E os governadores? Estes, por causa das dúvidas, acautelam-se. Para não ficarem ao léu quando houverem de deixar o governo em que se achataram, como pesadelo em corpo adormecido, como não têm préstimo para mais nada, senão para intrigas e areoscas, despacham alguém para uma cadeira do Senado, como quem toma assinatura em bilheteria de teatro e, terminado o mandato governamental, desalojam o guardador da sede, dando-lhe uma gorjeta pelo serviço que é, quase sempre, o governo do Estado, mas sob a condição de só fazer o que lhe for por eles ordenado e, balordamente, repimpam-se no subsídio para as delícias da inércia soberana. Isto não se fazia no Império ?? transação nova, de pura origem republicana.? 

 

Na galeria de escritores que nos advertiram contra essa república presidencial que se formava, ainda temos o ??príncipe dos poetas?, que também escreveu artigos e crônicas sobre o assunto. Eis o que diz Bilac em ??Crítica e Fantasia?:

 

Ao governo, ??pouco lhe importa que o manto de sua soberania seja um trapo esburacado. Deitada sobre um monturo, raspando como Jó, com um caco de telha, a sua lepra, escarnecida pelas suas vizinhas e irmãs, explorada e insultada por meia dúzia de especuladores, causando o desespero e a vergonha dos seus filhos, - ela ficará satisfeita enquanto puder dizer, batendo as mãos fracas sobre o estômago vazio: Tenho fome! Mas alimento-me com a minha soberania!?

Parece tão atual este trecho do poeta: ??Ide à Câmara, ide ao Senado, lede os jornais políticos, entrai nos botequins em que se reúnem os republicanos sem emprego, - e por toda a parte encontrareis esta frase magoada, soando como uma campanada de réquiem: Não era esta a república que eu sonhava!? (sic).

Enfim, se a república teve, conforme Bilac, ??uma puberdade triste e apagada?, se no início do século XX ela chegara ??à velhice sem ter passado pela primavera nem pelo outono, como essas plantas que as soalheiras ou as geadas mirram e matam antes da sazão feliz?, o que dizer, então, desse mesmo sistema, 131 anos depois? O que dizer desta República que tem revelado tanta podridão que suas entranhas encerram?


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