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17/Jul/2021 - 22:09:02
Cameron Crowe e a Arte da Vida
RedaçãoVAGNER FERNANDO PASCHOAL PAULO
Quando descobre que está em um sonho cuja realidade foi escolhida de acordo com suas preferências e anseios psicológicos, David Ames Jr. (Tom Cruise) percebe que seu psiquiatra McCabe (Kurt Russel) é a representação de Atticus Finch (Gregory Peck). Finch, de acordo com as lacunas sentimentais de David, é representação ideal da figura paterna: amoroso e íntegro. Logo depois, quando resolve abandonar o sonho e voltar à realidade, David se vê envolto na iconografia de sua vida, e lá está Atticus novamente. No meio de tantas imagens que surgem na tela também está a lendária banda de rock The Who, em um de seus momentos mais memoráveis: o longo grito do "yeah" do vocalista Roger Daltrey, enquanto o guitarrista Pete Townshend salta energicamente com seu instrumento durante a performance da canção "Won t Get Fooled Again".
A professora universitária Elaine Miller (Frances McDormand) se orgulha da inteligência de seu filho Willian (Michael Angarano) de apenas 11 anos, e debate com ele as implicações dos aspectos mais importantes do filme "O Sol é Para Todos" (To Kill a Mockingbird, 1962), e almeja que o rebento siga a carreira de advogado assim como o protagonista da obra: Atticus Finch. Algum tempo depois, Anita (Zooey Deschanel), a irmã mais velha de William, completa 18 anos e decide sair de casa para escapar do controle de sua mãe e "viver a vida". Ao se despedir do irmão, Anita pede que ele olhe embaixo de sua cama pois o que tem ali irá libertá-lo. O que o garotinho encontra são discos de vinil de clássicos do rock n roll e, entre eles, está "Tommy" de 1969, da banda The Who. Enquanto admira as imagens do disco, o garoto nota que um bilhete de Anita cai no chão: "Ouça Tommy com uma vela acesa e você verá todo o seu futuro". ? neste momento que ele coloca o disco para tocar e a faixa "Sparks" faz a perfeita transição temporal mostrando Willian (agora com 15 anos em 1973, interpretado por Patrick Fugit) como um aficionado por rock e aspirante a jornalista, escrevendo textos sobre o ritmo musical que tanto aprecia.
Através do contato com o crítico musical Lester Bangs (Philip Seymour Hoffman), por meio de seus trabalhos para uma revista local e uma série fortuita de acontecimentos, Willian consegue a oportunidade de acompanhar a turnê da banda Stillwater para escrever uma matéria para a prestigiada revista Rolling Stone. Essa viagem fará com que ele embarque no universo que tanto gosta e irá lhe proporcionar, além do crescimento profissional precoce, uma jornada pessoal de descobertas típicas da adolescência.
O primeiro parágrafo relata os minutos finais do filme "Vanilla Sky", enquanto o segundo e o terceiro relatam o mote do filme "Quase Famosos" (Almost Famous, 2000). O que essas duas obras cinematográficas tem em comum é o fato de terem sido dirigidas pelo cineasta Cameron Crowe, e o que me chamou a atenção foram as claras manifestações de apreço do cineasta pelo filme "O Sol é Para Todos", e também pelo rock n roll e, neste caso específico, pela banda The Who.
Mesmo que a sequência deste texto não respeite a cronologia do lançamento dos filmes, os relatos se encontram na ordem em que eu os assisti e somente há pouco percebi a importância (mesmo que antes já admirasse muito seu trabalho) da obra de Crowe em minha vida. Apaixonado por rock, Crowe fez carreira como jornalista na revista Rolling Stone e os eventos narrados em "Quase Famosos" são baseados em sua juventude, quando teve a chance de acompanhar algumas das bandas que mais curtia. A relação de Crowe com o rock é tão próxima que durante o período de 1986 a 2010 ele foi casado com Nancy Wilson, membro da banda Heart, além disso, até hoje sua filmografia conta com documentários e /ou personagens ligados ao rock.
Nos últimos anos, o The Who passou a ser a minha banda favorita (estampo na pele essa admiração) e analisando minhas memórias concluí que a origem desse fascínio foi o filme de Crowe, ao me instigar pelo sugerido teor místico de Tommy e pelo poder sonoro de Sparks. Foi através da exploração dos trabalhos da banda que a imagem vista por David Ames, até então de origem desconhecida pra mim, foi enfim decifrada.
Como, infelizmente, a luta contra o racismo é algo atemporal, é sempre válido ressaltar a importância de Atticus Finch, um dos personagens mais marcantes do cinema do século XX, não apenas pela sua dedicação em dar uma boa educação aos filhos mas também pela sua tenacidade ao lutar contra um sistema e uma comunidade racista, quando precisa defender um homem negro injustamente acusado de assassinato. Tendo em vista que a principal característica da filmografia de Crowe é abordar de maneira profunda a humanidade de seus personagens e como eles lidam com questões abrangentes e relevantes, a principal ideia que quero transmitir com esse texto é como a arte reflete a sociedade.
Em suma, os sentimentos que as letras do The Who me trouxeram, e ainda trazem, com o passar dos anos foram determinantes para decisões e pensamentos importantes; os princípios de Atticus são exemplares tanto no campo pessoal e profissional, e Crowe comunica sua essência nestas obras e o fato dessa essência perdurar (para mim e pra quem consegue apreciar) é o que mais me encanta, pois creio que atualmente a frivolidade tirou a voz de verdadeiros artistas em detrimento de falta de conceitos que podem agregar conhecimento, fazendo surgir uma grande pobreza artística e uma influência comportamental no mínimo questionável.
Alinhado com o trabalho de Crowe, por me considerar um cinéfilo desde a adolescência e fã assumido de rock n roll devido a sua riqueza temática e diversidade de estilos, me pergunto: são os admiradores do cinema que gostam de rock ou os roqueiros que curtem cinema.
A resposta não é importante, neste caso porque o que realmente importa é como nos relacionamos com a arte, pois mesmo que em uma primeira camada pareça apenas diversão, deixamos ela nos influenciar e definir sempre através de reflexão, contemplação e, em casos de um grau elevado de sintonia, a transcendência.