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31/Jul/2021 - 20:36:31
O mal da indiferença
Maria Olívia Garcia
O sofrimento das pessoas - seja real, em filmes ou livros - sempre me abalou. Não me conformo, por exemplo, em ver nas grandes cidades pessoas morando na rua, sem a menor condição de dignidade, o que me faz sentir o tamanho da minha impotência diante dos grandes problemas sociais. No entanto, a sociedade atual está ficando cada vez mais indiferente a esses problemas, até com os milhares de mortes que poderiam ter sido evitadas as pessoas se acostumam, não se importam, já não reclamam nem se revoltam. Temo que estejamos em um caminho sem volta para o individualismo extremo e a apatia em relação ao outro!
A indiferença presente hoje entre os cidadãos é resultado do desinteresse ou desprezo pelo outro, da falta de solidariedade ou até mesmo com a insensibilidade em relação ao próximo. ? um tipo de apatia incompreensível, pois a indiferença gera perdas significativas na trajetória da vida de qualquer ser humano. Não concordo que apenas a burguesia tenha essa indiferença pelo sofrimento alheio; o marginal que assalta um idoso, por exemplo, demonstra um desprezo enorme pela vida e pela situação do outro! A violência contra a mulher e contra a criança também revelam esse desdém pelo próximo; aquele que explora nos preços dos produtos para levar vantagem em tempos de crise e de miséria de muitos também não pensa jamais na dor do outro.
O problema se dissemina na sociedade brasileira principalmente porque esse mau exemplo vem de cima, vem dos governantes, dos políticos e empresários que só pensam em lucrar, independentemente de quem irão sacrificar. A mudança de que necessitamos é cultural, é a erradicação do famoso "jeitinho brasileiro", que nada mais é do que malandragem, presente em todas as classes sociais.
Cada vez mais assistimos a atitudes de pessoas que não se comovem com as necessidades do outro, que não se importam com o sofrimento alheio, com a injustiça, que não são tocadas pela miséria humana, como se nada tivessem a ver com ela. Infelizmente esses comportamentos estão se banalizando e se globalizando em nosso planeta!
? preciso reagir diante de comportamentos negativos, não se pode achar normal a indiferença pelo próximo! A repetição de erros no mundo globalizado, agravada pela mídia e pela internet pode ser catastrófica e temos presenciado isto durante esta pandemia! As pessoas estão se tornando brutalizadas com a apatia diante do sofrimento, da violência, dos abusos e das arbitrariedades de autoridades. Desinteresse e desrespeito pelo outro sempre foram sinal de mau caráter, mas agora estão sendo considerados normais, o que é sinal de alerta!
Para evoluirmos como seres humanos é preciso que vivamos em sociedade, que tenhamos interação e empatia com outras pessoas, só assim poderemos adquirir conhecimento, vivências e experiências completas que tornam nossas vidas úteis e com emoção - e isto é o contrário de ser indiferente ao próximo.
Está comprovado que a mídia tem grande influência nessa indiferença generalizada: com os atentados terroristas, com a tragédia dos refugiados ou as vítimas de violência ou desastres naturais, as pessoas reagem às primeiras notícias e às imagens de sofrimento alheio de forma substancialmente diferente de como o fazem quando já se habituam a essas notícias.
Quando essas tragédias são repetidas à exaustão - exatamente o que faz a mídia -, os indivíduos vão ficando como anestesiados, indiferentes e já não se deixam mais comover. O sofrimento e a tragédia tornam-se banalizados, já não comovem quase ninguém. Mais desastres, mortes e sofrimento? Sente-se muito, mas a vida segue como se isso já fosse parte do cotidiano, e este é o mal!
Quantas vítimas de tragédias da última década continuam desamparadas, não indenizadas e sem ter para onde ir? Quantas pessoas conhecemos que perderam entes queridos na pandemia? Quantos perderam emprego, estão em situação desesperadora? Quem se importa com essas pessoas?
Estamos realmente vivendo tempos muito ruins, mas a indiferença generalizada agrava muito a situação. Lutemos contra ela, vamos nos unir, ajudar os movimentos sociais já existentes, ajudemos a quem nos for possível socorrer, façamos alguma coisa, mas não aceitemos a indiferença, que é a morte de um povo como nação!