São José do Rio Pardo, ,

07/Ago/2021 - 21:46:38

Três meses euclidianos

Maria Olívia Garcia




Novamente agosto... mês da Semana Euclidiana, que mais uma vez será on-line, devido à pandemia que persiste. Infelizmente, por motivos pessoais, neste ano não poderei participar ativamente, porém isto não significa que ficarei indiferente a esse evento e às pesquisas euclidianas.

Trago hoje, portanto, um texto interessante de Cybelle Pacheco, que encontrei em Fundamentos - Revista de Cultura Moderna, ano VI, nº 34, janeiro de 1954, página 19, intitulado Três meses euclidianos, que transcrevo a seguir, pela importância do assunto. Cybelle Pacheco residia em São José do Rio Pardo em 1900 e alega, nesse depoimento, haver convivido com Euclides da Cunha. Diz ela:

 

"Já vão longe no tempo. E o tempo, que tudo consome, não consegue desvanecer sequer a lembrança comovida de Euclydes da Cunha, Francisco Escobar, Adalgiso Pereira da Silva, Mauro Pacheco, Jovino de Syllos, José Honório de Sylos, Pascoal Artese - essa plêiade de moços talentosos, que formava, há meio século, num recanto do Estado de São Paulo, a vanguarda da liberdade e da paz na grande terra brasileira. 

Foi em São José do Rio Pardo. Sucediam-se, com requintes de arte, as brilhantes   reuniões na casa do Cel. João G. Ferreira Novo, que então hospedava o casal Euclydes da Cunha e seus filhos pequeninos Solon e Euclydes (Quidinho, o predileto). 

Chegados em 1898, da capital de São Paulo, ao lugarejo distante nos confins da Mogiana, são aí recebidos com as mais vivas demonstrações de simpatia, tornando-se o Dr. Euclydes da Cunha, dentro em pouco - não só durante a sua permanência no seio da família amiga como, depois, em sua própria residência - o alvo da admiração de toda gente, a que faziam jus o seu valor e a sua integridade moral.

Era o dr. Euclydes nessa época o engenheiro na reconstrução da ponte metálica sobre o Rio Pardo, em cujas margens, o ilustre escritor, nos momentos de lazer, também construía a sua obra monumental "Os sertões" - páginas maravilhosas, lidas pelo autor aos amigos, entre os quais a esposa do Cel. João Novo, D. Luizinha - a mais assídua ouvinte - que o aplaudia com entusiasmo.

Entretanto, esse vulto gigante não era compreendido pela esposa querida, que o torturava, provocando-lhe explosões de ciúmes em repetidas cenas escandalosas. De uma feita, sob a irritação que sempre lhe causava o exagero dos penteados da esposa, grita-lhe sarcástico: "Detesto os cabelos encrespados" (ela usava papelotes) e a alguém que lhe pergunta: "Prefere os lisos?" "Não; prefiro o natural". E Euclydes sofria. Num entrechoque de sentimentos - tímido e agreste, simples e profundo, indeciso e violento, pendia mais para a dúvida, que contemporiza, do que para a certeza, que desespera. E que tormento no temor de ser injusto! Afetuoso - sem ternuras, todo se desajeita às manifestações de agrado, furtando-se até ao desejo de afagar os filhos, nos quais o mais leve sintoma de enfermidade o apavorava.

Era impressionante vê-lo quedar-se imobilizado, em contemplação angustiosa, sobre o leito do seu Quidinho doente, abatido pela febre alta. E, ao despertar desse torpor, como de um sonho mau, à voz da esposa: - "Não esteja agoirando o menino" - olhos esgazeados, Euclydes apenas murmura: "Estou sofrendo". ? falta de carinhos no lar voltava-se para os amigos, encontrando neles refúgio salutar às suas angústias, principalmente no devotamento de Francisco Escobar, o auxiliar indispensável em seus estudos, a quem chamava - o mestre dos mestres. A qualquer contrariedade, vibravam-lhe os nervos incontidos. Certa vez, tapando irreverente os ouvidos com as mãos a uma palavra errada, exclama sem piedade: "Ferem-me os ouvidos".

Um dia, ao desencadear-se uma tempestade com raios e trovões, durante o jantar, levanta-se inopinadamente o nosso grande Euclydes e rodeia a mesa num desvairamento que fazia pena. Uma ocasião, após a visita do Juiz de Direito, a dona da casa surpreende seus passos agitados na sala. Euclydes confessa o seu tormento à suposição de um erro em conversa com o magistrado. - Não é possível - tranquiliza-o a sua devotada admiradora - e, demais, não tem o Juiz capacidade para julgá-lo. E, já esquecido da sua apreensão, continua a palestrar com a distinta senhora, enaltecendo-lhe os dotes de espírito e coração. De sobressalto em sobressalto não lhe era dado nem repouso aos nervos para o trabalho material, nem sossego ao cérebro para o trabalho intelectual. Alma de escol, Euclydes não tolerava a descortesia; ao ouvir alguém comentar ironicamente o idílio de um casal de noivos, recrimina com altivez: "Deve-se respeitar a mais bela quadra da vida".

Amigo dos seus amigos, tinha-os na mais alta consideração, transparecendo, na retidão do seu caráter, a sinceridade das apreciações. E assim é que se reflete nos episódios de sua vida íntima, qual em revoltas águas cristalinas, o feitio original do escritor, que deixa, em páginas memoráveis, o ardor dos seus estudos, de grande alcance social, sobre a realidade de sua terra, espalhando em todo o Brasil, através da independência de tão nobres ideias, a semente da liberdade.

Fadado para a Glória e marcado pela Fatalidade, morre tragicamente Euclydes da Cunha - expoente máximo da literatura brasileira, cujo nome imortal, gravado indelevelmente na lembrança dos seus contemporâneos, terá, para a posteridade, o fulgor irradiante do gênio. E São José do Rio Pardo - a cidade privilegiada - como preito de admiração ao insigne autor de "Os Sertões", comemora todos os anos, a 15 de agosto, num sentir de pungente saudade, a data fatídica em que desapareceu a figura notável de Euclydes da Cunha desta vida transitória. Mas ainda está mais vivo o genial escritor nos livros que escreveu, pela atualidade surpreendente de seus conceitos sobre os graves problemas sociais de sua época. Intrépido lutador pela causa da humanidade, ressalta, com infinita grandeza, em seus livros, que encerram os mais sublimes ideais, o profundo patriotismo de Euclydes da Cunha".

       

Pois bem, resta-me descobrir agora quem foi Cybelle Pacheco. Ficarei muito grata se alguém tiver alguma informação a respeito, assim como quem foi e principalmente onde morava o Cel. João Novo, pois a informação de que Euclides residiu um tempo nessa casa é nova. Quem sabe o Trinca não nos dá essa resposta?


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