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14/Ago/2021 - 20:05:53
Ao meu bisavô, com carinho
Maria Olívia GarciaAo pesquisar um texto sobre Euclides, acabei me deparando algumas vezes com fatos envolvendo meu bisavô e, de repente, tive uma enorme vontade de resgatar essas coisas esquecidas no passado, mas que são importantes para o próprio resgate de nós mesmos, muitas vezes. Lendo sobre algumas atitudes dele, pude compreender que possuía um ímpeto de luta que se repete em mim. Talvez a teimosia que se transfigura algumas vezes em coragem, ou até mesmo em ousadia... Talvez o gosto pela literatura romântica de cunho social... Enfim, agora sei que, se tivesse convivido com ele mais tempo, talvez hoje eu me explicasse melhor.
Sim, porque um rapazinho que sai da Itália, no final do século XIX, e se aventura a vir para o Brasil, indo parar em Buenos Aires, onde fica por um tempo, conhece e se casa com uma quase menina; um jovem que tem, então, a oportunidade de construir uma vida por lá, perto da família dela, mas acaba vindo com a esposa para o Brasil, para se fixar em uma cidadezinha sem luz nem água encanada, só podia ser, no mínimo, um sonhador teimoso... Teimoso porque lutou para se estabelecer, e venceu, deixando uma grande família.
Minha mãe o adorava, sempre me conta os sábios conselhos que ele lhe dava e recorda os bons tempos de toda aquela enorme família reunida...
Meu bisavô foi vizinho de Euclides, a quem alugou a residência em que atualmente funciona a Casa de Cultura Euclides da Cunha. Porém, se sabia alguma coisa da vida do escritor, parece que nunca revelou a ninguém.
E eis que, no livro "Euclides e o Socialismo", de José Aleixo Irmão, à página 209, está a fotocópia de um documento respondido e assinado por esse avô de minha mãe, que resgato agora:
"São José do Rio Pardo, 29 de maio de 1956.
Sr. Roque Ventura,
Como ex-sócio do Club "1° de Maio", desta cidade, peço me responder, com absoluta isenção de ânimo, ao seguinte questionário:
1. Foi sócio do mencionado club (sic) no período 1900/1901? SIM.
2. Pode informar, por meio de conhecimento próprio, ter sido Euclides da Cunha sócio do Club "Os filhos do trabalho"? N?O.
3. Recorda-se de ter visto Euclides da Cunha nalgum comício socialista, nesta cidade? N?O.
4. Sabe se Euclides da Cunha redigiu algum manifesto socialista? N?O.
Peço me responda de próprio punho, assinando na linha abaixo."
Outro documento que encontrei foi uma notícia do jornal "O Rio Pardo", de 26 de abril de 1900, à página 2:
"CLUB SOCIALISTA DOS OPERÁRIOS"
"A comissão iniciadora desse club (sic), composta dos italianos Vicente Giuliano, Antonio Migliaccio, Pasquale Artese, Roque Ventura, fizeram (sic) espalhar, no dia 23 do corrente mês, um boletim convidando a todos os operários dar-se uma reunião especial no salão da Sociedade Italiana, a fim de acordarem o melhor meio de festejarem com brilhantismo o dia 1° de Maio, dia este que é na Velha Europa e na Nova América conhecido pelo nome de "festa do trabalho".
A iniciativa não é má, entretanto não vingará no Brasil, onde há demasia de liberdade, onde o operário toma o sueto que deseja e trabalha quando quer e como quer."
Ah! Meu bisavô também tinha urubus rondando seus sonhos!
E é ainda no livro de Aleixo, à página 137, no relato "Festa operária", que vejo novamente o nome de meu "bisa"...
"Conforme estava determinado, realizou-se domingo, 14 de julho de 1901, a festa dos operários desta cidade, tomando posse a nova diretoria do Club dos Operários 1° de Maio.
?s 5 horas de tarde, chegava ao templo da loja maçônica União Universal numeroso grupo de operários, tendo à frente o estandarte do club, seguido da banda Giuseppe Garibaldi. Tomando a palavra o Sr. João Batista de Souza Moreira, primeiro presidente eleito, declarou os fins da reunião, dizendo que testemunhava a sua posse aquela assembleia, perante a qual assumia o compromisso de bem desempenhar o cargo para que foi eleito. Seguiu-se depois a posse do secretário e do tesoureiro, srs. Antonio G. Vieira e Domingos Meringolo, prestando também o respectivo juramento os membros do Conselho Fiscal, Srs. Celestino Detienne, Lourenço Landini, Miguel Santoro, Rocco Ventura, André Abilotti, Francisco Goleriani, Manoel Antonio Motta, Eduardo Angel Giudice e Vicente Giouliani.
Depois de lido alguns artigos do Estatuto do Club demonstrando seus fins, tomou a palavra o Dr. Jovino de Sillos, orador oficial, discorrendo brilhantemente sobre a conveniência da agremiação dos operários, terminando seu discurso com entusiástica saudação aos membros do Club e à Diretoria empossada. Sucedeu este orador o Sr. Carlos Nogueira lendo dois artigos escritos a propósito daquela festa e da data - 14 de julho.
Também falaram os senhores Adalgiso Pereira, Dr. Moreira Dias e Angelo Giudice. Foi uma das festas em que o operariado de São José do Rio Pardo pode cientificar-se de quanto é estimado, pois a enorme concorrência, a presença de importantes famílias e distintos cavalheiros assim o atestaram." (Transcrito do jornal de 20/07/1901).
Sei apenas que reencontrar esses textos que eu já conhecia foi, desta vez, algo especial para mim, como se deles viesse uma mensagem de força do meu "Vovô velho" (assim o chamávamos), bem neste momento em que tenho alguns obstáculos difíceis a vencer antes das férias e outros tantos depois delas.
Está vendo, mãe? Agora não dá mais para dizer que não sabe de quem eu puxei... Está no sangue, no meu e no seu!