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14/Ago/2021 - 20:20:55
Sobre himens e las buchonas ?? o corpo feminino sob controle
RedaçãoANA PAULA PEREIRA
Ao longo da história, o controle sobre a mulher foi construído e consolidado a partir do fato de que a mulher tem um corpo feminino. Esse controle não apareceu do nada; pelo contrário, estabeleceu-se como um conjunto de verdades, aparentemente indeléveis, construídas sobre pressupostos religiosos, morais, políticos (e até científicos, em muitos casos). Controlar o corpo da mulher está diretamente ligado às primordiais formas de manutenção de linhagens familiares; "tirar" a virgindade de uma mulher seria a certeza (ou incerteza) da manutenção dessas linhagens; controlar o corpo também é tentar controlar o pensamento e as formas de protagonismo do feminino. O resultado disso é a permanência de um senso comum injusto, definindo pensamentos e comportamentos de homens e mulheres para que realmente acreditem em papéis fixos sobre suas próprias existências. Falar sobre dignidade humana ainda é ter que falar sobre como o corpo feminino ocupa os espaços, sobre quais significados carrega e sobre suas chances de exercer a sua própria existência. A presença feminina objetificada, nesse planeta, é reduzida a enquadrar-se, grosso modo, em dois arquétipos: a de santa (da mãe ou da esposa "recatada e do lar", ambas assexuadas) e a de puta (exercendo saudavelmente sua própria sexualidade ou sendo sexualmente explorada). Tais arquétipos dicotômicos explicitam o quanto os diferentes grupos sociais determinam a posição da mulher nos jogos de poder. O fato é que falar sobre o corpo feminino e sobre os desdobramentos relacionados a ele, para variar, faz-se ainda de extrema urgência.
Os imorais números mundiais referentes à violência contra meninas e mulheres, violência de todos os tipos ( feminicídio, estupros, mutilações genitais, casamentos infantis, tráficos de mulheres, explorações sexuais) mostram como o corpo feminino é ainda o corpo de segunda classe, facilmente manipulado, explorado, silenciado, destruído. Esse corpo descartável subsiste, enquanto o machismo se perpetua ou se reedita em discursos mascarados de verdades, mobilizando até mesmo mulheres em crenças que não passam de formas de manipulação. Os arquétipos de santa e de puta não são mais do que os dois lados da mesma moeda desse controle. E movimentos demagógicos sobre a castidade e sobre a objetificação do corpo feminino, sua exploração sexual, crescem vertiginosamente.
A reedição/manutenção do mito fundamental de virgindade feminina, como princípio definidor de caráter de mulheres, continua, por exemplo, fortemente presente em algumas regiões dos Estados Unidos da América, na Europa, África e Ásia. Bailes de celebração de castidade, organizados por conservadores cristãos, acontecem nos Estados Unidos, unicamente para o pai e sua jovem filha. Não se trata de um baile de debutante comum; pelo contrário: mães maquiam, vestem ricamente suas jovens filhas para que essas participem do primeiro baile de suas vidas, tendo como primeiro acompanhante.... o seu próprio pai. Em tais eventos, pais e filhas assinam acordos em que o pai promete a deus, em voz alta, proteger a castidade de suas filhas, enquanto essas se comprometem a preservar a sua pureza, virgindade, seguindo as regras morais de seu pai até se casarem. Essa tal castidade feminina também é usada em alguns países da África, em campanhas contra a epidemia de HIV/AIDS, muitas dessas campanhas, aliás, impulsionadas por dinheiro de governos norte-americanos (PEPFAR - President s Emergency Plan for AIDS Relief). Nesses países, a estratégia de prevenção à doença é a manutenção da castidade (principalmente feminina) até o casamento; concursos de "celebração da dignidade feminina", como o Trophées Vierges (Troféu Virgem), acontecem com o apoio de agentes de saúde pública; o critério mínimo para estar no concurso? Passar por um teste de virgindade. Revoltante, entretanto, é saber da existência de inúmeros casos de mulheres com HIV, mulheres que se casaram virgens, mas que contraíram o vírus de seus maridos. A obsessão pela relação entre "mulher de valor" e virgindade é marcante em nossa civilização. Os exemplos chocantes sobre essa relação são inúmeros. Durante a Revolução de Lótus (Egito, 2011), por exemplo, mulheres tiveram sua cidadania plena arrancada, ao serem ameaçadas de terem de passar por um teste de virgindade, feito pelo exército, caso fossem pegas nas manifestações de rua. Na Indonésia, a mulher interessada em ingressar no exército ou na polícia deve também estar disposta a passar por um teste de virgindade, já que é por meio disso que se acredita atestar o caráter moral das participantes.
O corpo da mulher é o corpo de segunda classe, seja o corpo da santa, seja o corpo da puta. Muitas propagandas de padrões de beleza femininos ou de liberação sexual se revestem de um falso protagonismo, quando, no fundo, são somente estratégias reeditadas de exploração desses corpos de segunda classe. Um caso gritante acontece no estado de Sinaloa, no México, estado já comandado por um dos mais sangrentos e poderosos grupos do narcotráfico. Ali, a pobreza, falta de oportunidades, educação afeta principalmente mulheres. Passando por dificuldades, falta de emprego, ou de perspectivas, mulheres veem, como alternativa para suas vidas, a associação aos traficantes. Estabelece-se uma troca de sexo por segurança, proteção, respeito. No caso de Sinaloa, choca também o crescimento desenfreado de clínicas de tratamento e de cirurgias estéticas. Isso porque se tornou comum traficantes pagarem por cirurgias estéticas de suas namoradas que, após os procedimentos, passam a ser chamadas de Las buchonas; estas devem ter seios grandes, cinturas finas e quadris largos; a figura hiperfeminina da mulher é determinada pelo traficante que usa esse corpo de mulher para seu prazer e como um dos símbolos de seu poder entre os demais traficantes da região; ter muitas buchonas é sinal de poder. ? comum também que mulheres se ofereçam sexualmente aos traficantes em troca dessas cirurgias ou de tratamentos. Dessa forma, adequando-se aos padrões de beleza locais, acreditam conseguir autoestima, segurança, ter melhores oportunidades em suas vidas, além de serem mais bem respeitadas em suas comunidades. Triste, entretanto, é saber que o descarte desses corpos é feito facilmente, seja pelo descaso mesmo, ou por meio de assassinatos executados por namorados ou por gangues rivais; esses corpos eliminados trazem a marca do desprezo: as mutilações são feitas em partes do corpo que passaram por transformações estéticas.
Portanto, os arquétipos sobre os quais falamos não são opostos; na verdade, são os dois lados mesmo dessa moeda de pouco valor que é o corpo da mulher. A perpetuação do machismo, praticada por homens e, leiamos bem, por mulheres também, surge dessas construções distorcidas de verdade que, ainda que possam não ser propositais, submetem a mulher ao descartável. Falar sobre essas distorcidas visões dão espaço para que possamos criar novas, mais dignas à toda existência humana. Por isso, falar sobre o feminismo, sobre a equidade entre todos os seres humanos, é tão importante. Políticas públicas voltadas especificamente para mulheres, políticas que foquem em seu protagonismo, em sua educação, independência, proteção, são essenciais e fazem bem a todos. Palavras precisam sair de bocas, de textos escritos; precisam se tornar realidade em ações concretas. Espaços como esse, para a franca discussão, são os primeiros passos. Que venha a mudança!
Ana Paula Pereira, professora e ativista do Coletivo Feminista Todas Rio Pardo