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21/Ago/2021 - 21:13:02
??O poder sou eu?
Maria Olívia Garcia
Em pleno século XXI, a falta de ética que resulta em fundamentalismo ainda causa estragos. Além disso, muitos que se apregoam ??justos? não passam de adormecidos ditadores, ansiosos por se manter até a morte no poder e, se possível, ainda repassá-lo aos descendentes!
O poder personalizado não tem legitimidade, pois não é resultado do consentimento da maioria. Esta é a tese, porém a prática é mais terrível ainda, em países subdesenvolvidos como o nosso, por exemplo.
A realidade é que a maioria dos eleitores não tem consciência da manipulação feita pela mídia e pela publicidade eleitoral, e acaba, assim, elegendo inconscientemente um totalitarista para governar os destinos da nação, ou do estado, ou do município.
? preciso ficarmos atentos àqueles que são fascinados pelo poder que estimula o ??culto da personalidade?, mantendo-se em evidência de qualquer forma: ou por medidas extravagantes, provocando assim repercussão na mídia, ou mesmo por abuso de poder, sobrepondo o executivo ao legislativo e judiciário, confundindo as esferas do público e do privado. Infelizmente, no Brasil, esta é uma prática generalizada, que provoca a degeneração do poder em arbítrio.
Fredy Perlman (2009) tem um interessante estudo sobre a proliferação do ??egocrata?, aquele ser que se julga todo-poderoso e acha que ele próprio é o Estado; todo o resto está abaixo de seus poderes. Ele é quem decide tudo, quem comanda tudo, uma espécie de ??salvador da pátria?.
Para Perlman, o egocrata não exprime seu desejo pela comunidade nem pela comunicação na prática, mas transforma essa vontade em um modo de pensar, continuando silenciado e impotente. No entanto, sente-se diferenciado dos demais, uma vez que possui a ideia, julga-se um ser consciente.
Para ter certeza de que não está apenas iludido, tem a necessidade de ser visto como ??diferente? pelos outros, só assim se confirmará que ele é realmente dono de um ??pensar?.
Mas aí o egocrata encontra um grupo capaz de se identificar com ele e acolher o pensamento alimentado por ele. Então começa a ser rodeado de outros Egos que refletem entre si o ??pensamento dourado?, confirmando cada vez mais a sua posse. Tornam-se, em um processo muito semelhante ao religioso, ??os escolhidos?.
O grande perigo é que, se o pensar quiser permanecer dourado, precisa conservar-se puro e inflexível, portanto a crítica e a revisão desse pensar tornam-se sinônimos de ??traição?, sendo sumariamente rejeitadas.
Esse ??pensamento dourado? sobrevive apenas cristalizando-se, tornando-se totalitário. Logo, para continuar a refletir e a confirmar esse pensamento, o indivíduo deve parar de pensar. Eis o perigo.
Perde-se o objetivo inicial. O ??ser humano liberado? fica esquecido para a prática, quando relegado à consciência do egocrata, pois ??a consciência torna-se por si própria o objetivo e reifica-se numa organização que encarnará o objetivo?, conforme Camatte, citado por Perlman.
A organização toma a forma de uma célula e fornece um terreno que favorece a dominação informal através de propagandistas dessa ideologia; especialistas muitas vezes mais medíocres quanto maior a sua atividade intelectual consistir na repetição de certas verdades ??definitivas?.
A atitude de respeito ideológico pela unanimidade de decisão favorece a autoridade incontrolável dentro da própria organização dos especialistas da liberdade, daí a importância do debate, da aceitação do outro e da diversidade de pensamentos.
O grupo se torna militante de um pensamento radical e cristalizado. O pensamento que o conduz é semelhante a este: ??Dentro do partido, ninguém deve ficar para trás quando uma ordem para avançar for dada pela liderança; ninguém deve ir para a direita, quando a ordem é ir para a esquerda.? Surgem argumentos como este: ??O mínimo desvio da ideologia X significa o fortalecimento da ideologia burguesa? (mais ou menos o que disse Lênin, citado por M. Velli).
Quando se usa o artifício da calúnia para deitar abaixo a reputação de outros, deve-se desconfiar da lisura e da ideologia de quem arquiteta esse tipo de plano. Muito mais ainda desconfiar do caráter de quem faz isso, seja em nome de um grupo ou de um partido. O tempo de Maquiavel já ficou para trás e hoje sabemos que os fins não podem justificar meios escusos!
A organização militante se resguarda através de métodos de conversão e manipulação. Mas a conversão também não é gratuita: os adeptos devem pagar tributos à organização e obedecer às chamadas à ação que ela organiza, tais como greves ou manifestações.
Fica bem claro que o objetivo maior do Egocrata (que nesta altura já se promoveu a um título em maiúscula) é estabelecer a sua hegemonia sobre um grande número de indivíduos, para que ele e a sua organização se tornem os líderes de uma massa manipulável de seguidores. De convertidos, esses indivíduos adeptos passam a manipulados. E o que antes era condenado por eles, passa a ser prática completamente normal. A massa humana apenas muda de mãos, porém a manipulação continua...
O recrutamento de mais e mais seguidores é objetivo explícito e a ideia deixa de ser a guia, perfeita e imutável, tornando-se um simples meio para o fim explícito. Qualquer artimanha que se mostre útil no engrossamento das fileiras passa a ser uma ??ideia dourada.? Torna-se, então, uma colagem construída cinicamente, baseada nos medos e ódios dos potenciais seguidores. A sua maior promessa é o aniquilamento de bodes expiatórios: ??agentes da CIA?, ??contrarrevolucionários?, ??judeus?, etc.
Muito frágil é o fio que separa os manipuladores dos missionários, e apenas teórica, pois na prática são ??contemporâneos que competem no mesmo campo social e emprestam suas técnicas uns aos outros? (Perlman)
Para disseminar as ideias e converter ou manipular, o Egocrata precisa de instrumentos, como as mídias proliferadas na sociedade do espetáculo. Aliás, ele as incentiva e as mantém.
Não me refiro a nenhum partido ou político em especial, mas a todos que mostram possuir esse perfil. Estamos, creio eu, todos nós, fartos desses lobos em pele de cordeiro! Vemos hoje que eles têm uma capacidade mórbida de arquitetar planos em benefício próprio e em prejuízo da população e que assumem atitudes opostas aos belos discursos que propagam!
Pobre povo! Os meios de produção e de comunicação capitalistas há muito já reduziram os seres humanos a espectadores silenciados e impotentes; enfraquecidas vítimas passivas, sujeitas ao monólogo laudatório da ordem existente e superfluamente questionada. A verdadeira revolução requer a extinção da estrutura presente, para a construção de uma estrutura mais justa e equilibrada.
O futuro que se apresenta para nós é de um mundo dominado pelo ??Grande Irmão?, egocrata que personaliza um Estado totalitário, cujo poder absoluto determina os destinos de uma sociedade totalmente vigiada e manipulada pela máquina de domínio estatal que ele comanda. Isto, sim, é aterrorizador!
O ??Ministério da Verdade? (conforme Perlman) cuidará para que se apague a história dos vencidos, restando assim apenas a história oficial, manipulável conforme o desejo do Egocrata, senhor absoluto do passado, do presente e do futuro.
Tanto caminhou a humanidade para se deixar, agora, tornar-se massa moldada à feitura de qualquer megalomaníaco a quem não importa a nossa felicidade ou o nosso infortúnio? ? momento de pensar e escolher!