São José do Rio Pardo, ,

28/Ago/2021 - 17:29:58

Um Parque que mudou a minha vida

Redação

JOÃO GABRIEL RIBEIRO GIOVANELLI




"Fui para os bosques viver de livre vontade. Para sugar todo o tutano da vida. Para aniquilar tudo o que não era vida e para quando morrer, não descobrir que não vivi" - Henry Thoreau

 

O ano era 1998. Lembro muito bem até hoje do momento que meu amigo de infância, Eduardo Tangerina, me disse: "Vamos para o Itatiaia! Não acredito que você vai perder isso". Ele estava se referindo a uma excursão que o saudoso Colégio Objetivo estava organizando, na qual tinha uma meta bem arrojada: levar alunos do ensino médio para escalar a quinta montanha mais alta do Brasil, o Pico das Agulhas Negras, localizado no interior do Parque Nacional do Itatiaia, com 2.791 metros de altitude. Como na época eu já era vislumbrado pelo relevo montanhoso de São José do Rio Pardo e suas belezas naturais, topei participar desta aventura.

No Parque Nacional do Itatiaia foram mais de 4 horas de subidas íngremes, com auxílio de cordas em alguns momentos, até o pico culminante. Imagino hoje a preocupação dos professores rio-pardenses, Marcos de Martini e Agenor Ribeiro Netto, convocados para encarar este desafio. Não sei se agradeci o suficiente estes educadores corajosos que conseguiram propiciar esta experiência inovadora para seus alunos. Para mim, com certeza, esta experiência foi um divisor de águas. Ao constatar a exuberância da localidade, com aqueles paredões de granitos pontiagudos, o aspecto "lunar" da paisagem resultante da alta altitude, espécies da fauna e flora que só existem ali, a forma de como aquele lugar era protegido pelo governo federal e sua importância para história brasileira foi crucial na minha decisão em cursar Ecologia na UNESP no campus de Rio Claro.

Criado no governo Getúlio Vargas no ano de 1937, o Itatiaia foi o primeiro parque do Brasil. Isso motivou diversos movimentos ambientalistas em nosso país a reivindicar a proteção de outras áreas naturais. Sendo que no ano de 2000, as áreas protegidas brasileiras passaram legalmente a se chamar Unidades de Conservação, sendo os parques pertencentes a uma das 12 categorias de unidades existentes. Atualmente, considerando todas as esferas administrativas, o Brasil possui 2.500 Unidades de Conservação, conservando aproximadamente 1.543.447,43 km2 do continente (18%) e 960.617,97 km2 do bioma marinho (26%).

A minha decisão em se tornar um ecólogo propiciou para que eu atuasse profissionalmente neste imenso patrimônio natural brasileiro. Ao longo dos anos já auxiliei diversos projetos de criação e planejamento destas áreas protegidas que são responsáveis por resguardar as porções mais íntegras de nossos biomas e diversas populações tradicionais brasileiras. ? importante salientar que as Unidades de Conservação geram diversos benefícios para sociedade, principalmente pelos serviços ambientais que elas prestam. A regulação do clima nas cidades, a conservação dos polinizadores dos cultivos agrícolas e a proteção de importantes nascentes de rios brasileiros são um exemplo disso. Em termos econômicos, as unidades federais, por exemplo, recebem hoje mais de 10 milhões de visitantes anuais, gerando mais de 40 mil empregos e R$ 1,5 bilhão em renda para a população do entorno. A cada 1 real que o governo investe nas Unidades de Conservação, são produzidos 7 reais de benefícios econômicos nessas regiões.

Neste momento de pandemia em que vivemos, além de serem importantes para regular diversos processos ecológicos, as Unidades de Conservação são opções saudáveis e seguras para atividades de lazer e contemplação ao ar livre. Neste sentido, recomendo aos municípios que carecem de destas unidades que criem projetos que transformem áreas naturais relevantes em parques e reservas. Em São José do Rio Pardo, por exemplo, as famosas localidades já bem conhecidas da população como a Mata da Paixão e a Mata da Tubaca possuem potencial para serem transformadas em Unidades de Conservação. Ações como estas podem incrementar a qualidade de vida e a proteção dos recursos naturais da região. Além disso, semelhante como aconteceu comigo, as Unidades de Conservação têm um potencial enorme também de mudar a vida das pessoas.

 

 

João Gabriel Ribeiro Giovanelli  é Ecólogo e Doutor em Zoologia


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