Seções
Colunas
04/Set/2021 - 21:21:02
A mediocridade reinante
Maria Olívia Garcia
Sílvio Júlio, em ??Síntese subjetiva do ibero-americanismo no Brasil?, publicado na Revista das Academias de Letras n° 79, no Rio de Janeiro, faz uma interessante observação da época de Euclides da Cunha, dizendo que os críticos que vieram após 1922 não a pesquisaram, pois toda aquela ??horda de coronéis que dominava os poderes executivo e legislativo, por viver cavernária, trogloditicamente, detestava sábios, poetas, pensadores?. E acrescenta que se devem estudar bem as biografias de Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Basílio de Magalhães, Alberto Torres, Raimundo Correia, Alcides Maia e a de Hermes Fontes, mas comparadas com as ??turvas, subterrâneas baralhadas de Pinheiro Machado, Urbano Santos e Artur Bernardes?.
Sílvio afirma que estes últimos foram seres medíocres, ??cuja astúcia ou mimetismo nunca transpôs o invertebralismo do polvo.? Então o acadêmico aconselha que se leiam as obras de José Ingenieros (foto): ??A simulação na luta pela vida? e ??O homem medíocre?, para entender por que aqueles escritores foram vítimas destes três políticos.
O HOMEM MEDÍOCRE
O meio modela muitos homens sem personalidade que, conforme Ingenieros, têm a ??moralidade de catecismo? e uma ??inteligência quadriculada?, que os restringem a uma perpétua disciplina do pensamento e da conduta. Mas a variação é que determina a originalidade; variar é ser alguém.
O medíocre, porém, deseja confundir-se com aqueles que o rodeiam, enquanto o original tende a ser diferente. Um pensa com a ??cabeça da sociedade?, o outro raciocina com a própria cabeça. O homem inferior é um animal ??humano?; em sua mente estão condensadas as tendências dos instintos condensadas pela hereditariedade e que constituem a ??alma da espécie?.
O homem medíocre é uma sombra projetada pela sociedade e está perfeitamente adaptado para viver em rebanho; ele adquire a ??alma da sociedade? e sua característica é imitar todos os que o rodeiam, incapaz de criar ideais próprios.
Interessante é que Ingenieros considera os medíocres rotineiros, honestos e mansos; pensam com a cabeça dos outros e compartilham a hipocrisia moral alheia, ajustando seu caráter às domesticidades convencionais. Por este motivo é que está fora da órbita do engenho, da virtude, da dignidade; são cegos para as auroras, ignoram a quimera do artista, o sonho do sábio e a paixão do apóstolo. Condenados a uma vida vegetativa, não suspeitam que há um infinito além de seus horizontes.
Têm horror ao desconhecido, e isto os amarra a mil prejuízos, tornando-os temerosos e indecisos. Nada aguça a sua curiosidade, carecem de iniciativa e olham sempre para o passado, ??como se tivessem dois olhos na nuca.?
São frios ou indiferentes, não sentem as vibrações mais altas da energia. São apáticos, acomodados, nunca equilibrados. Incapazes de virtude, não conseguem concebê-la, ou ela lhes exige imenso esforço. Não poucas vezes deixam de cair na delinquência por covardia ou remorso. Os medíocres não vivem para si mesmos, mas para o fantasma que projetam na opinião de seus semelhantes, por isso, quando se agrupam, são perigosos, a força do número supera as falhas individuais. Agrupam-se em milhares, para oprimir a todos que se recusam a prender a mente com a escravidão da rotina. Odeiam quem pode pensar e agir por si mesmo.
Como não possuem a curiosidade do sábio, fortificam-se na coesão do total, e o perigo é fazer reinar um clima geral de mediocridade. Na luta pelas conveniências do presente contra os ideais futuros, sua arma é o elogio do subalterno com a difamação do conspícuo; é falsear os valores na consciência social, usando silogismos. Vivem na mentira, alimentam-se dela, regam-na e a multiplicam, criando, assim, um mundo de valores fictícios, favorável à culminação dos obtusos, tecendo, assim, sua teia sórdida em torno dos gênios, dos santos e dos heróis, obstruindo nos povos a admiração da glória, que é diferente da fama; esta, efêmera e ilusória.
Os medíocres fecham o cerco cada vez que pressentem na redondeza o voo inequívoco de uma águia. Nenhum idealismo é respeitado. Se um filósofo busca a verdade, tem que lutar contra os dogmatistas mumificados; se um santo persegue a virtude, instigam-no com os prejuízos morais do homem acomodado; se o artista sonha novas formas, ritmos ou harmonias, impedem-lhe o passo com rígidas regras oficiais a seguir; se um enamorado deseja amar conforme seu coração lhe pede, proíbem-no com as hipocrisias do convencionalismo; se um juvenil impulso de energia leva a inventar, a criar, a regenerar, a velhice conservadora amarra-lhe o passo; se alguém, com gesto decisivo, ensina a dignidade, a turba dos servis (vulgo puxa-sacos) late; ao que toma o caminho dos picos das montanhas, os invejosos o difamam com sua maldade voraz.
Se o destino chama um gênio, um santo ou um herói para reconstituir uma raça ou um povo, as mediocridades tacitamente regimentadas, opõem-lhes resistência, para eternizar seus próprios arquétipos. Todo idealismo encontra, em seus caminhos, um Tribunal do Santo Ofício. Aconteceu na época de Euclides, ocorre ainda hoje... Basta ver com que garra alguns políticos se recusam a largar o poder!
Infelizmente, de homens medíocres o Brasil está repleto, inclusive utilizando-se impropriamente de falsas ideologias ou até mesmo do nome de Deus e provocando retrocessos imperdoáveis a esta Nação que, por suas riquezas, poderia estar entre as maiores potências mundiais, não fossem esses medíocres surrupiando, ludibriando o povo e negando-lhe ensino e cultura de qualidade!