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04/Set/2021 - 21:29:42
Pátria deseducadora
RedaçãoADRIANO DONIZETI DOMINGOS DO NASCIMENTO
"A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto"
De autoria do saudoso Darcy Ribeiro, a célebre frase, acima transcrita, ilustra a trágica realidade arquitetada pelo governo Bolsonaro a um dos direitos sociais mais importantes garantidos em nossa Constituição Federal. Contrariando toda e qualquer ingênua ideia de má gerência, as recentes declarações do ministro Milton Ribeiro deixam claro o quanto os retrocessos na Educação são frutos de um plano concebido pela sordidez bolsonarista a fim de institucionalizar a ignorância seletiva.
Os absurdos contra a Educação, no mandato de Jair Messias Bolsonaro, são escandalosos. Mais do que os criminosos "contingenciamentos" no orçamento da pasta ministerial e o desmonte de programas de apoio a pesquisas, a nefasta ideologia preconceituosa desse governo é um ultraje aos brasileiros. Nem mesmo em um cenário dantesco, poderíamos imaginar o mandatário maior da pasta da Educação afirmando que "a universidade deveria ser para poucos". O mais preocupante nessa declaração é que ela não é somente fruto de uma estúpida e descabida opinião pessoal, mas um mantra sistematicamente disseminado na cartilha bolsonarista. Tanto a universidade como a escola DEVEM ser para todos.
Partindo da preconceituosa premissa de que o ensino superior deva ser um direito reservado a um grupo socialmente privilegiado, o ministro da Educação ostenta o caráter elitista com que esse direito social, tem sido tratado pelo atual governo. Na lógica dos partidários de Bolsonaro, a Educação não pode ser usada como ferramenta de transformação social, uma vez que ela produz cidadãos críticos que representam um "risco" aos "donos do poder".
A inversão de valores é tão absurda que o deputado estadual bolsonarista André Moraes (PSL) elaborou um projeto de lei que propõe a extinção da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). O enorme desatino proposto pelo parlamentar, que prevê a venda do campus à iniciativa privada, foi publicado no Diário Oficial do Rio de Janeiro do último dia 20 de agosto deste ano. Ainda que o projeto apresentado não desperte a simpatia de outros integrantes daquela casa legislativa, o fato de ele existir denota o quanto esse delírio ideológico faz parte de um projeto de restrição ao ensino superior gratuito de qualidade.
? certo que o iníquo princípio de que "a universidade deveria ser para poucos" possa ser encarado com alguma normalidade por partidários desses ideais segregacionistas, mas, infelizmente, os desatinos não param por aí. Mesmo que se alegue o sectarismo irrefletido ou uma debilidade de caráter, nada justifica o apoio à ideia de que os alunos com deficiência "atrapalham" o aprendizado dos demais ou que existam crianças com "um grau de deficiência que é impossível a convivência" nas escolas. Isso é algo inaceitável: o ministro Milton Ribeiro é a representação perfeita do alto escalão do governo Bolsonaro que tem ojeriza às ações afirmativas.
Por essas e por outras, não é de se estranhar a cultura de ódio criada contra Paulo Freire, o patrono da Educação brasileira. A defesa de acesso a esse direito como prática de liberdade é combatida ferozmente pelos asseclas de Bolsonaro. Por trás dos inúmeros ataques endereçados aos educadores e à Educação, se esconde "A crise da educação no Brasil" como um projeto de deseducação do povo. Ao contrário do que muitos pensam, a pedagogia do esclarecimento não pretende implantar o "fantasma do comunismo", mas tão somente propor uma ampliação do direito à educação gratuita universal de qualidade alicerçada em bases democráticas sólidas.
Mesmo diante do triste cenário educacional no Brasil, precisamos continuar firmes na luta contra a deseducação arquitetada pelo atual governo. A convivência impossível não é com as crianças com "um grau de deficiência", mas sim com um ministro que tem muita ineficiência. O que atrapalha o aprendizado das demais crianças não são os alunos com deficiência, mas um governo deficiente. O espaço privilegiado para poucos não deveria ser a universidade, mas o Ministério da Educação.
Adriano Donizeti Domingos do Nascimento é professor da rede pública e particular, mestrando em Letras pela USP