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11/Set/2021 - 19:43:49
Para e Para entender Os Sertões V ?? A Guerra de Canudos IIIntender
RedaçãoMARIA APARECIDA GRANADO RODRIGUES
AS EXPEDI??ES CONTRA CANUDOS
Foram quatro expedições militares. As três primeiras bateram em debandada, e só a quarta, mais forte e mais bem organizada, com mais soldados, seguiu com o objetivo de destruir Canudos.
A primeira expedição (1896)
Após a insistência do juiz de direito de Juazeiro, Dr.
Arlindo Leôni, para que o governador Luís Viana tomasse rigorosas providências
contra o possível ataque dos conselheiristas, o governador solicitou, junto aos
militares da Bahia, um grupo de 100 soldados, sob a chefia do tenente Pires
Ferreira, para evitar que a invasão a Juazeiro acontecesse. No entanto, fora um
alarme falso do juiz Dr. Leôni, pois os homens do Conselheiro não atacaram
Juazeiro. O juiz então ordenou que o tenente Pires Ferreira fosse ao encontro
dos conselheiristas, porque assim não teria que se explicar para o governador
por uma possível intervenção desnecessária e imponderada. O tenente Ferreira começou
então a passagem de um dos lugares mais ingratos do sertão baiano, desabitado,
irregular, cheio de caatingas e sob um sol muito quente. Eles não dispunham de
recursos suficientes para aquela empreitada.
Aproximaram-se e acamparam num povoado de nome Uauá, mas os moradores do lugar, temendo o que poderia acontecer, fugiram durante a noite. Quando o dia amanheceu, os soldados avistaram uma grande comitiva de "conselheiristas", que vinha em forma de procissão, entoando rezas, carregando uma grande cruz e a bandeira do Divino. Parecia mais um cortejo religioso. Mas os sentinelas, julgando ser uma armadilha, começaram a atirar contra os peregrinos, deixando muitos mortos e feridos. Os canudenses revidaram e investiram contra os soldados usando velhas espingardas, lanças de vaqueiros, foices, facões e garruchas. Diante do ataque inesperado, as tropas governamentais fogem, mas antes de voltarem para Juazeiro, os sentinelas efetuaram saques em Uauá como forma de vingança porque a população local se afeiçoara aos canudenses. Essa primeira tentativa de "conquistar" Canudos, terminada em rápida derrota, incomodou as autoridades. As expedições seguintes seriam definitivas e bem armadas. Em todo país, a notícia de que um bando de fanáticos vencera a tropa do governo causava censura e agitação. Dentro do Exército nascia um sentimento de desagravo: era inaceitável ser vencido por uns poucos jagunços. Esse episódio marca o início do conflito armado entre os conselheiristas e os soldados do governo que se estenderá ao longo de outras três expedições militares contra Canudos.
A segunda expedição (1897)
A segunda expedição, sob o comando do major Febrônio Pereira de Brito, contou com mais de seiscentos homens. Além das armas tradicionais, a expedição levou quatro metralhadoras e dois canhões. Era uma verdadeira operação de guerra. Estrategicamente, o governador Viana interferiu e persuadiu as autoridades militares superiores do Rio de Janeiro a depor o general Solon da chefia do distrito militar da Bahia, e a expedição ficou sob seu comando. Considerando ser uma operação sem maiores implicações e portanto rápida, o major Febrônio não fez uma avaliação correta do que seria a luta que enfrentaria e tampouco as dificuldades que encontraria no sertão. Permaneceu 15 dias em Monte Santo se preparando. Ao passar por Queimadas, largou uma parte das munições fornecidas pelo governo por considerar que não precisaria delas. Após dois dias de caminhada, sob aquele sol escaldante, andando por caminhos difíceis, cheios de pedras, repletos de veredas, montanhas, declives e grotões, eles começaram a sentir o quão complicada seria aquela empreitada. Os dois pesados canhões dificultavam a marcha.
Os canudenses, sob o comando de Pajeú e João Grande, organizavam-se e se preparavam para o combate com facões, foices, espingardas, enxadas, velhas garruchas e outras armas.
Em virtude da situação atípica por que estavam enfrentando, os soldados já estavam muito cansados. A expedição se instalou na Serra do Cambaio, a 13 quilômetros de Canudos, onde começaram os lutas armadas. Os conselheiristas gritavam para os soldados: "Avança, fraqueza do governo!", "Viva o Bom Jesus!", "Viva o nosso Conselheiro!".
Com a tropa já esgotada, sem ter o que comer, com quase uma centena de feridos e já com a munição escassa, o Major Febrônio resolveu voltar para Monte Santo. Os homens, sob o comando de Pajeú, perseguiram os soldados, dia e noite, durante dois, por uma distância de 100 quilômetros. Era final de janeiro de 1897.
Surpreendentemente, os sertanejos foram vitoriosos frente às forças militares estaduais e federais. Foi uma situação constrangedora para Major Febrônio e seus homens. Desconfiava-se que havia alguma motivo por trás daquela força e daquela determinação. O governo baiano, sem meios para preparar outra campanha contra Canudos, comunicou ao presidente da República requerendo ajuda federal para combater os canudenses.
Segundo o professor Nicola S. Costa, em seu livro "Canudos, Ordem e progresso no sertão", "Como sempre acontecera com todos os movimentos verdadeiramente populares ocorridos no Brasil, as forças que representavam as classes dominantes ameaçadas uniram-se. Uma autêntica guerra de extermínio teve início então, embasada nas mais absurdas calúnias."