São José do Rio Pardo, ,

11/Set/2021 - 21:29:22

Escassez hídrica e as águas superficiais no Brasil

Redação

SAULO DE OLIVEIRA FOLHARINI




O Brasil há muito tempo é conhecido por suas grandes reservas de água doce, seja na superfície ou no subterrâneo. No relevo montanhoso de sua costa atlântica, onde se localizam os estados mais populosos, o potencial hidroelétrico foi explorado durante anos, com a construção de usinas e reservatórios de elevados volumes que trouxeram importantes modificações ao ambiente natural.

A construção de barragens pode trazer para os rios modificações na sua vazão além de alterar os processos de assoreamento e erosão. Um exemplo de modificação causada em rios pela construção de hidrelétricas ocorre no baixo curso da bacia hidrográfica do Rio Jequitinhonha/BA. A jusante da barragem a vazão diminui, desencadeando o processo de alteração da forma de sua foz em delta para canal único. Neste processo o mar também acaba avançando continente adentro devido a menor vazão de água e deposição de sedimentos.

As barragens também servem como armazenamento de água para abastecimento público. Em períodos de escassez hídrica, como o que vivemos agora, esses reservatórios acabam sendo fortemente atingidos, perdendo boa parte da água represada.

Recentemente o Mapbiomas, plataforma colaborativa formada por diferentes instituições, publicou um documento intitulado A dinâmica da superfície de água do território brasileiro, fazendo uma análise da variação da superfície de água do Brasil entre 1985 e 2020, concluindo que em 30 anos foram perdidos 3,1 milhões de ha de superfície de água, ou seja, uma redução de 15,7%.

Um segundo ponto importante a ser considerado é que essa água não está distribuída igualmente pelo país. A maior disponibilidade hídrica está no norte, enquanto a maior demanda está no centro sul nos estados mais populosos. Logo, em momento de escassez como agora os reservatórios do centro sul tendem a baixar rapidamente porque o consumo pouco se altera e não há rápida reposição.

Medidas paliativas e em momentos onde a crise já está instalada, cito o aumento da conta de luz, resultando em pequena melhora dos níveis nos reservatórios em um período de incertezas climáticas cada vez maior. Ondas de calor devem ser mais frequentes e duradouras, assim como tempestades que não ajudam a repor a água nos reservatórios.

Solução? Sim. Alguns fatores importantes são a gestão eficiente dos recursos hídricos e a diversificação da matriz energética com uso de outras fontes renováveis, como solar e eólica.

A gestão dos recursos hídricos depende de articulação nos níveis federal, estadual e municipal, com as agências de bacias tendo um papel fundamental. O nível federal tem papel importante na gerência da crise hídrica, entretanto com a dificuldade de gerenciar o próprio governo fica difícil gerenciar uma crise hídrica, com isso a iminência de um novo apagão paira o país. Até Edir Macedo já entendeu a dificuldade de gerência!

Outras fontes renováveis dependem de características de cada região, por exemplo, o aproveitamento das correntes de vento no nordeste brasileiro fez ali se instalar um importante parque eólico. A localização do Brasil na zona tropical faz dele uma "usina solar a céu aberto" com capacidade para instalação de usinas fotovoltaicas nas casas aproveitando as longas horas de sol disponíveis na região tropical.

Adaptações são essenciais para passar por esse período de mudanças climáticas e a adequação da matriz energética é um dos pontos principais.

 

Prof. Dr. Saulo de Oliveira Folharini, docente da Universidade Federal de Mato Grosso


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