São José do Rio Pardo, ,

18/Set/2021 - 20:18:01

Latino-americanos ou cidadãos do mundo?

Maria Olívia Garcia




O brasileiro comum tem características interessantes. Uma delas é imaginar-se brasileiro e mais nada, sem a identidade sul-americana. Talvez isso contribua também para a facilidade com que as pessoas deste país vão para o exterior em busca de uma vida melhor. E é esse problema da emigração e do exílio que hoje mais se relaciona com a definição de latino-americano. Uma obra interessante a respeito é a de Nestor García Canclini, "Latino-americanos à procura de um lugar neste século", com tradução de Sérgio Molina, editado pela Iluminuras.

Difícil chegar a conclusões definitivas a respeito do assunto, pois ser latino-americano na atualidade é navegar entre opções não muito atraentes de empregos, salários, serviços sem vícios... Na América do Sul ou se é muito rico ou não se é nada para a sociedade que, com raras exceções, não dá voz aos mais humildes. Quem tem dinheiro e posição social tudo pode, enquanto o povo, coitado, sofre com as migalhas que caem da mesa do banquete farto dos poderosos. Esta visão é apartidária, pois defendo apenas a dignidade do ser humano, a igualdade entre os cidadãos, uma vez que possuem, pela Constituição, os mesmos direitos de acesso à educação e saúde de boa qualidade, assim como um salário digno por seu trabalho. Infelizmente, neste continente latino, não é difícil encontrar trabalho escravo ainda nos dias atuais!

Não me importa tanto ter uma identidade sul-americana, muito mais relevante é ser alguém que ajuda na construção de uma sociedade melhor, não educar as crianças e jovens na contramão da vida, ou seja, a infância e a juventude precisam ser sonhadoras e altruístas, caso contrário não haverá renovação nem evolução para a humanidade!

Sei, por dor sofrida, que a maioria dos jovens, ao se formar, não encontra aqui colocação no mercado de trabalho, então se sujeita a arriscar o futuro em outros países, não para trabalhar na profissão que desejam, mas para ocupar vagas que lá ninguém procura e que são aqui consideradas "inferiores", motivo da péssima remuneração de algumas profissões neste país, e a de professor tornou-se uma delas! 

Restam, assim, famílias desmanteladas, corações partidos, lágrimas maternas pela ausência prolongada dos filhos e pela distância cara demais para se vencer. Amores transformados em dores de separação, enquanto a alma grita: não!

Rodoviária de Campinas... A mulher traz no carrinho uma grande mala, uma sacola e uma mochila. Empurra, decidida, a bagagem lavada de lágrimas que ela deixa escapar sem pejo. Chora porque ama. Ama e deixou o segundo marido - com somente 4 anos de casada - na Itália e voltou. Voltou porque ama. Ama os dois filhos de 20 e poucos anos, que aqui ficaram,  em uma cidade mineira.

Sofre tanto, a pobrezinha!  Tinha emprego, bom salário, juntava umas reservas todo mês, para abrir um negócio próprio quando voltasse... Mas não suportou a distância dos filhos. Nem ela sabe explicar do que exatamente não gostou. Sabe que vivia triste, em depressão. Não foi pela língua, já aprendera muito. Não foi pelas pessoas, nem pelo estranhamento. Não sabe explicar ao certo, mas bateu um desespero e teve que vir embora. Não suportava mais ficar fora do Brasil, simplesmente! Deixou o marido que tanto ama e que lhe pedia para ficar... No desespero, juntou tudo e veio. E ali estava, esperando o ônibus que a levasse à cidade natal, em Minas.

Abre a mala, mostra as fotos com o marido, com ar de romance nas praças de Roma. Mas o amor não bastou para segurá-la com ele, a sensação de exílio foi maior.

América, América, que fazes de teus filhos? Miséria, violência, desigualdade, corrupção, poluição, instituições públicas e particulares falidas... Liberdade condicionada, monitorada, alienada...  Ilusão de cultura e de progresso... morte irreparável de culturas ancestrais... Aquisição impiedosa de culturas de modernos canibais... América Latina. América Ladina. América latrina dos dejetos e restos do "american way of life". Sem exagero. Pura realidade.  Pasto e curral desse primeiro mundo fenomenal...  Colocaram-nos em um imenso tabuleiro de xadrez, mas só eles têm direito a xeque-mate! E matam. No silêncio, na surdina, em conchavos, na esquina do mundo, no Irã, no Iraque, no Afeganistão. Assim como foi no Chile de Allende. E a gente não aprende!

Desperta, América Latina!  Tuas crianças merecem dignamente crescer, sem brigar como cães ferozes por uma moeda jogada ao acaso, sem remexerem como urubus os monturos da civilização que lhes vira as costas!

Levanta, América Latina! Busca a união de todo o continente e dos que levaram teus limites mais além... Invertendo um pouco a expressão cristalizada: um esclarecido povo unido jamais será iludido!

Latino-americanos ou cidadãos do mundo?


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