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18/Set/2021 - 21:05:33
História, Memória e nossa sociedade
RedaçãoSUELEN GIROTTE DO PRADO
Outro dia lembrei de uma passagem interessante durante meu período de graduação. Quando iniciei a escolha do tema do meu Trabalho de Conclusão de Curso, que foi uma monografia, em uma das disciplinas tive o desafio de explicar a primeira razão da escolha do objeto de pesquisa. Trabalhei com o viés do período da Ditadura Civil Militar no Brasil, tendo como análise a produção musical brasileira e o cinema de Glauber Rocha. Antes de chegar no tema propriamente dito, tinha certeza de que queria pesquisar algo sobre esse período violento da História do Brasil.
Minha resposta para justificar a escolha do tema foi: "Ah, quero me aprofundar um pouco, para entender como ainda existem pessoas que desejam a volta da Ditadura". Bem, terminei minha graduação em 2008, entreguei minha monografia, porém nem argumentei sobre minha inquietação inicial, uma vez que fui tomada pela arte e por todo material que chegou até mim, ressalva para agradecer novamente ao professor Nicola, que enviou muito material para que eu pudesse trabalhar.
Agora saltemos para 2021, ano em que refaço minha pergunta, pois não só temos a defesa do regime que foi responsável pela instituição do AI-5, o temido Ato Institucional de 1964, que segundo Zuenir Ventura, foi "o ano que não terminou", como tivemos atos específicos pedindo o retorno da Ditadura.
Como professora e Historiadora, hoje um pouco mais experiente na pesquisa e na sala de aula, penso na responsabilidade que temos com a produção científica e com as aulas de História, e me preocupo com a distância enorme entre a História, com sua potência científica, e o diálogo com a sociedade.
Quem viveu um período de busca pela liberdade básica, inacessível durante os "Anos de Chumbo", conhece a História, mantém a memória e recusa qualquer risco que aproxime um retorno daquele cenário. Maria Amélia de Almeida Telles, diretora da União de Mulheres de São Paulo, é umas dessas testemunhas e vítimas de um regime político que torturou, restringiu direitos básicos, além de ter trazido prejuízos econômicos significativos para o Brasil. Amelinha, como é conhecida internacionalmente, além de autora de livros importantíssimos para a constituição da memória brasileira, tem vários depoimentos, disponíveis na internet, inclusive, em que conta sobre toda a tortura sofrida, indico conhece-la.
Acho um perigo essa recusa que assistimos hoje em relação as Ciências de uma forma geral e, quando se trata das humanidades, me parece que a aceitação de que existem métodos e muito trabalho para garantir que tenhamos uma memória, oralizada, escrita e que não nos deixe esquecer daquilo que não podemos permitir repetir.
? a História quem nos garante a vivacidade da memória. Segundo a historiadora Emília Viotti da Costa: "Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado."