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25/Set/2021 - 14:00:20
Para entender "Os Sertões" VI ?? A Guerra de Canudos IV
RedaçãoMARIA APARECIDA GRANADO RODRIGUES
AS EXPEDI??ES CONTRA CANUDOS (cont.)
A terceira expedição (1897)
A República Brasileira passava por um momento complicado,
justamente na época em que Canudos se tornara "um assunto nacional".
Em Canudos: ordem e progresso no sertão, o professor Nicola Costa afirma:
"canalizaram-se contra Canudos todas as contradições e interesses em
conflito naquele instante, transformando-a em bode expiatório para onde
convergiam todos os descontentes".
Desde que a República fora proclamada em 1889, o Brasil vinha sofrendo uma instabilidade política e militar. A crise ficou mais grave quando Marechal Deodoro da Fonseca ordenou que se fechasse o Congresso Nacional, em represália às críticas que recebia dos políticos contra as suas decisões no governo. Não demorou muito, "na Bahia da Guanabara, a Marinha se revoltou contra Deodoro", que renunciou para evitar uma guerra civil. Assumiu o vice-presidente Floriano Peixoto, embora a Constituição rezasse que deveria haver nova eleição, em virtude de não ter completado ainda dois anos de mandato de Deodoro quando optou pela renúncia. Floriano não fez novas eleições, assumiu o poder, reabriu o Congresso, e tomou várias providências como a deposição dos governadores que haviam apoiado o golpe de Deodoro, prisão de adversários e aposentadoria de funcionários que faziam oposição a ele.
Era o ano de 1893, e na região Sul do Brasil emergiu um conflito, que foi chamado de Revolução Federalista, que durou até 1895. No Rio Grande do Sul, a Constituição estadual, inspirada nas ideias positivistas, permitia a eleição indefinida do governador do estado, enquanto a oposição queria mudá-la para impedir esse tipo de continuidade indefinida. Os favoráveis à reeleição, chamados de "pica-paus", eram liderados por Júlio de Castilhos, enquanto que os adversários, chamados de "maragatos", eram liderados por Silveira Martins. Mas a revolução deixou de ser um problema limitado apenas ao Rio Grande do Sul quando a Marinha, revoltada com Floriano Peixoto, passou a apoiar os "maragatos". Os conflitos se estenderam a Santa Catarina e ao Paraná. Em contrapartida, "os castilhistas passaram a apoiar o governo de Floriano". Nesse conflito saíram vencedores os castilhistas que, após a morte de Castilhos, elegeram Borges de Medeiros governador gaúcho quatro vezes seguidas.
O sucessor de Floriano Peixoto foi Prudente de Moraes que, ao assumir o governo, encontrou vários problemas para solucionar como: difícil situação financeira do país e o assunto da anistia a ser conferida aos envolvidos nas revoltas da Marinha e Federalista. Após nomear o marechal Bittencourt como ministro da Guerra, instalou-se uma crise por parte dos simpatizantes de Floriano que se irritaram em relação à postura de Bittencourt. Irritaram-se também com "o fato de antiflorianistas declarados substituírem muitas pessoas nomeadas por Floriano e com a anistia concedida por Prudente aos envolvidos na Revolução Federalista do Rio Grande do Sul".
Prudente sofria oposição não só dos florianistas, mas também de muitos homens influentes da política, que eram seus apoiadores antes, mas se tornaram seus opositores. Prudente estava, nessa época, com problemas de saúde, enfrentava essas situações delicadas no governo e estava prestes a tirar licença do cargo por quatro meses. Foi então que recebeu o telegrama do governador da Bahia, Luís Viana, pedindo auxílio para combater Antônio Conselheiro e Canudos. Assumiu então a presidência o vice Manoel Vitorino, que acreditava que Prudente não voltaria mais ao cargo. Tomou algumas decisões importantes: trocou os ministros adeptos do presidente doente e se aproximou dos florianistas. Uma vitória contra Canudos seria o ideal para que Vitorino se firmasse politicamente na presidência e afastasse definitivamente Prudente de Moraes.
Segundo o professor Antonio Carlos Olivieri, em Guerras e revoluções brasileiras: Canudos "A derrota da segunda expedição foi um choque. Era evidente que Canudos representava um foco de resistência muito poderoso". Em No calor da hora, Walnice Galvão acentua que "a imprensa brasileira da época" colaborou para difundir "a boataria sobre Canudos". Como afirma a pesquisadora, "eram escassas e difíceis de obter" notícias exatas sobre o que acontecia no sertão, então "qualquer boato" adquiria dimensões "inteiramente descabidas". Segundo Walnice, comumente, "as informações transmitidas pelos jornais eram de que em Canudos estava em andamento uma revolução pela restauração da monarquia". Portanto, as circunstâncias requeriam a organização de nova expedição, melhor preparada, com a finalidade de extinguir, de vez, o foco agitador de Canudos. Organizada pelo governo federal, a terceira expedição contava com 1200 soldados. O presidente interino da República, Manoel Vitorino, nomeou, para comandar a expedição, o famoso coronel Antônio Moreira César - oficial florianista conhecido como Corta-Cabeças. Ele era um militar austero, famoso pela selvageria contra seus oponentes, pela sua atuação sanguinária quando foi governador militar de Santa Catarina, nomeado por Floriano Peixoto, durante a Revolta Federalista de 1894. Confiante na empreitada, Moreira César foi para Bahia, reunindo seus homens em Queimadas e depois em Monte Santo. Tinham 15 milhões de cartuchos e 73 canhões. Foi elaborada uma estratégia, mas se descuidaram quanto aos imprevistos que a região oferecia. Duas expedições anteriores fracassaram e isso aumentou o prestígio de Conselheiro junto aos sertanejos, provocando um afluxo na direção de Canudos, constituído dos mais diversos tipos humanos. Alguns eram atraídos pelo misticismo, outros buscavam um abrigo seguro contra a lei. Assim, novos simpatizantes se mudaram para a região, o que foi de grande valia para reforçar a defesa com a construção de trincheiras. Eles fabricavam foices, pólvora, balas. Restauravam espingardas e garruchas e aprendiam a usar os armamentos. No entanto, essa expedição repete os erros das anteriores. Os soldados usavam as tradicionais fardas azul-vermelhas, destacando-se como alvo fácil na caatinga. O pano do uniforme prende-se aos espinhos do mandacaru, dificultando os movimentos, enquanto os sertanejos protegiam-se com suas roupas de couro de cabra. Além de tudo, obcecado por um ataque global, Moreira César subestima os sertanejos, não leva em conta a extrema mobilidade deles, que aparecem e desaparecem entre o mato, somem em meio às pedras. A travessia até Canudos foi árdua em virtude do calor intenso, dos caminhos difíceis e do estado de ansiedade dos soldados. Eles se aproximaram de Canudos no fim de fevereiro de 1897. O coronel Moreira teve uma crise epiléptica e recusou os conselhos médicos para repousar e não seguir. Moreira César não percebeu que os sertanejos estavam preparando uma armadilha para eles. O coronel considerou que a campanha seria fácil, chegou perto de Canudos e ordenou o ataque àquela cidadela. Euclides da Cunha, registrou em seu livro "Os sertões" que Moreira César iniciou dizendo aos soldados: "Meus camaradas! Como sabem, estou visivelmente enfermo. Há muitos dias não me alimento; mas Canudos está muito perto...vamos tomá-lo! Vamos almoçar em Canudos!" Empolgado com os resultados do bombardeio, Moreira César, já contando com a vitória, deu uma ordem aos soldados: "Vamos tomar o arraial sem disparar mais um tiro! ...à baioneta!", conforme registrou Euclides da Cunha. Ao contrário do que pensava o coronel, os soldados foram recebidos por forte tiroteio. Ao notar que os soldados estavam indecisos, Moreira César decidiu mostrar a sua coragem e foi em frente, mas quando cruzava o rio Vaza-Barris, foi atingido por dois tiros. Moreira César, com ferimentos graves e desconhecendo a extensão do desastre, insistira para que se fizesse ainda novo ataque
Moreira César, indignado com a decisão de seus auxiliares de bater em retirada, já quase morto, bradou impetuosamente que não se afastassem, pois seria uma vergonha. Ordenou que atacassem novamente na manhã seguinte. Passadas algumas horas, o coronel morreu. Em seu lugar ficou o coronel Tamarindo que, em comum acordo com os soldados, resolveu pela retirada, pois estavam enganados quanto às dificuldades e à resistência dessa empreitada. Era o dia 2 de março de 1897. A tropa fugiu em debandada, não havia ordem nessa retirada. Coronel Tamarindo foi atingido também e morreu. Assumiu a chefia o Major Cunha Matos, que conseguiu, a duras penas, chegar a Queimadas. Muitos soldados adentraram as caatingas, não conseguiram achar saída e tiveram morte trágica. Os combatentes de Canudos ainda aproveitaram as artilharias deixadas pelas tropas, reforçando ainda mais as forças conselheiristas. O corpo do coronel Tamarindo foi pendurado numa árvore e exposto ao ar livre até ser resgatado pelo Exército. Depois de alguns anos, Euclides da Cunha escreveria angustiado em seu livro "Os sertões" que "a expedição Moreira César parecia ter tido um objetivo único: entregar-lhes tudo aquilo, dar-lhes de graça todo aquele armamento moderno e municiá-los largamente".