São José do Rio Pardo, ,

25/Set/2021 - 14:16:46

Um conto de Cortázar

Maria Olívia Garcia




Bestiário foi o primeiro livro de contos de Cortázar, publicado originalmente na Argentina, em 1951. Desses contos, um particularmente me encanta pelo trabalho de construção textual: Cefaléia. E é sobre ele que vou tecer alguns comentários aqui, fazendo apenas uma das muitas leituras possíveis para um texto tão rico e tão aberto.

  O conto tem um sujeito plural e, nesse "nós", estão os diferentes "eus" do narrador. Nessa "cefaléia", há o delírio, a imaginação que cria os "animais enfermos" que lhe atormentam a mente; está a criação de "mancúspias" a que ele se dedica, animal que concebe como pequeno mamífero, cujas fêmeas adultas ficam girando em círculo em volta dele, "do lado de fora".

O narrador-personagem começa, então, uma tentativa de explicar esse "nós" que existe nele, porém o faz através de uma nomenclatura científica, começando pelo "Aconitum", fórmula utilizada para asma ou bronquite, e serve ao personagem no tratamento da vertigem causada pelo medo. Dá a entender, nesse trecho, através do exemplo do enjôo de uma mulher, que algo o abalava a ponto de ter náuseas... Pânico, talvez? 

Depois, "Bryonia", que o faz afundar-se com a cama.  O paciente de Bryonia apresenta irritação, sede excessiva, prisão de ventre, tosse seca e dores reumáticas. Tem vertigens constantes."  A "Nux vomica", que é a próxima citada no texto, serve para a vertigem que sente ao abaixar. Considera a hipótese de ser também "Phosphorus", pois o perfume das flores o apavora - e aqui parece haver mais uma metáfora que indica o feminino,  reforçado pelas "mancúspias pequenas, que cheiram levemente a lilás."

Então ele se descreve: é alto, magro, "sonha com bebidas geladas, sorvetes e sal." Por que o sal?  Parece que a resposta virá logo a seguir.

Ele sofre de insônia, mas às vezes consegue dormir até amanhecer, o que lhe dá sensação de alívio. Ao se despertar, há nele confusão mental, marcada pela "Camphora  monobramata", cuja utilidade é equilibrar o sentido de direção. Nele, um é o que está fora, outro é o que está "dentro do espelho" e para se normalizar segue a receita do De. Harburn. Reconhece-se um bipolar, ou seja, um "Natrium muriaticum", com crises de choro, mas escondido de todos.

A tarde é "penosa e inadiável", o medo de olhar para o "chão do curral", evidente quadro de "Onosmodium", ou seja, de depressão e esporádica perda dos desejos  ou então esgotamento por excessos sexuais, conforme a finalidade desse medicamento. O dia o salva da cefaléia, essa dor que o impede de viver a realidade.

?s 20 horas é hora do banho, quando nele se revela "a outra". "As mancúspias se desesperam e ficam eriçadas, e esse é o desejo deles, para que os sais penetrem até a pele tão delicada." "Somos aquela estaca dura e difícil, pela qual trepam, brincando, as mancúspias." Ele deseja se realizar no sonho, mas é pior quando fecha os olhos, "aí é que o sono vai embora."

Um deles tem fase "Pulsatila" - medicamento para cólicas - em que "tende a se mostrar volúvel, chorona, exigente, irritável." E essa fase coincide com "Petroleum", que é utilizado em corrimentos vaginais. Tudo passa por cima dele, "intumescendo-o e o entorpecendo." ? apenas um sofrer "paralelo e tolerável." "Depois, às vezes, vem o sono."  Fala ainda do "crescer articulado até o estouro patético da grande orquestra, depois do qual decrescem as vozes e se reingressa em uma calma de saciedade."

Quando vem a  "grande cefaléia", usa "Glonoinium", que cura angina peitoral. E tudo começa com o "roçar na janela do banheiro", então utiliza "Cannabis", para alucinações. Vem a seguir o quadro "Cyclamen", que é a planta que morre e renasce. "O sol alto seria a cefaléia", diz ele, recorrendo à "Belladona", que é um alcalóide alucinógeno. Sente, então, "desejo de correr e sacudir a cabeça"; sente a "cara vermelha e quente. Pulsação violenta... Violentas pontadas e ferroadas. Cefaléia com tremores", "dor com ruído, como se empurrasse o cérebro", que fica "pior se agachando", como se "o cérebro caísse para fora". Mas tudo isso "de repente pára, a sombra e o frescor levam-na em um instante." Refere-se à cefaléia.

"Fechar as portas da casa é  deixar abandonado um mundo sem leis." E lá dentro, sem testemunhas, agem "cuidadosos", "retardando", mas "incapazes de adiá-lo", "furtivos e (nos) esquivando"; "o fio cinzento que puxa a janela mal se moveu até a cama" e o "Aconitum" é "repentino, selvagem." E nesse momento "há um macho morto à entrada de sua gaiola"; "no primeiro degrau" existe um "filhote de mancúspia morrendo", um "macho caído sobre as mãos".  Sentem picadas de abelhas, "afundam a cabeça no travesseiro" e descreve as sensações: "suando, pouca urina, gritos alucinantes". Outra sensação descrita é estar "como machucados, sensíveis ao tato." Em certos momentos eles se dão as mãos, então "foi horrível"- confessa. "Até que cessa", restando apenas o "temor de uma repetição com variante animal"... "Depois da abelha, o quadro da serpente". Ficam eles ali, sem poderem se medicar. Finalmente, "cai um pó de aveia" e elas o cheiram.

 

Estranho, enigmático? Pode ser, mas genial ousadia ao deixar implícita a descrição do desejo e do relacionamento homossexual, além da presença de drogas, que é exatamente o que parece dizer o discurso entremeado nesse texto!

Júlio Cortazar nasceu em  Bruxelas, a 26 de agosto de 1914, e faleceu em 14 de fevereiro de 1984, em Paris. Seus pais voltam ao país de origem, a Argentina, em 1918 e depois se separam, então Júlio é criado pela mãe, por uma tia e pela avó. Partiu para Paris em 1951, por não concordar com  o governo de Perón, e lá ficou até ser vencido pela leucemia. Escreveu várias obras em prosa, mas também era poeta. ? considerada sua maior obra "O jogo da amarelinha".

 

Fica aqui uma sugestão de leitura para vocês!


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