São José do Rio Pardo, ,

25/Set/2021 - 14:42:44

Os eventos extremos e algumas perspectivas climáticas para o final de 2021

Redação

PEDRO AUGUSTO BREDA FONTÃO




Nas últimas semanas, o calor retornou à cidade livre de São José do Rio Pardo, com direito a temperaturas acima da casa dos 35°C e dias com bastante sol e tempo seco. Ao mesmo tempo, vieram as queimadas, fato que todos os munícipes puderam notar, pois os incêndios provocaram impactos na agricultura e na saúde da população. Nesse aspecto, não é segredo nenhum que os agricultores gostam de previsibilidade - afinal, os eventos climáticos extremos podem dificultar o trabalho na terra e causar prejuízos ao provocar, por exemplo, chuvas com volumes acima ou abaixo do esperado e/ou fora do período ideal para o plantio e colheita. Em vista disso, fica uma questão: o calor e as queimadas dos últimos dias são ocorrências excepcionais para a região nessa época?

Para responder tal questão, é preciso avaliar os registros históricos de dados meteorológicos, e verificar se os meses de agosto e setembro apresentam essa característica. E, com base nos dados, infelizmente pode-se afirmar que a estiagem que estamos passando não é algo tão incomum assim. Tal período sem chuvas (ou com poucos volumes) ocorre normalmente nessa época do ano e tende a perdurar até meados de setembro, muitas vezes estendendo-se até o mês de outubro em São José. Porém, embora isso ocorra com frequência no nosso clima tropical, nem sempre é tão intensa como a registrada nestes últimos dois anos (2019 e 2020). Pouco se viu de precipitação pluvial no outono e inverno deste biênio, o que culminou em um ínterim bastante extenso sem a entrada de água por meio da precipitação na atmosfera, dentro do chamado ciclo hidrológico.

Ademais, tivemos um outono-inverno bastante atípico em termos de temperatura: foram três ondas de frio intensas e quase sucessivas no mês de julho - com destaque para a temperatura mínima de -0,4°C registrada no dia 20 de julho de 2021, pois a muito tempo não se via o termômetro abaixo de zero em São José; isso sem falar das temperaturas de 1,5°C e 1,4°C registradas, respectivamente, nos dias 1° e 30 do mesmo mês. Nos municípios próximos, para fins de comparação, Caconde chegou a -1,1°C e Guaxupé a -2,2°C na manhã do dia 20 de julho. Todos os dados citados foram coletados em Estações Meteorológicas do Sismet-Cooxupé (2021)¹. E diante de tanto frio, o agricultor sofreu mais uma vez com o fator da imprevisibilidade: a Geada veio forte na nossa região, como a muito tempo não se observava, afetando diversos tipos de cultivos.

No momento, estamos finalizando o inverno e adentrando na primavera, popularmente conhecida como estação das flores, e habitualmente mais chuvosa. Entretanto, tudo indica que nesse ano teremos chuvas irregulares, o que nos leva a atentar para a condição de seca no centro-sul brasileiro. Nessa mesma coluna, no dia 11 de setembro de 2021, o colega Saulo O. Folharini já havia alertado para a escassez hídrica e as águas superficiais no Brasil, sendo que a gestão de riscos é algo fundamental nessa área. E, ao que tudo indica, a crise hídrica nos setores energético e de abastecimento urbano é um assunto que está em pauta no momento, com potencial para se desdobrar e afetar a economia até o final do ano (e quiçá, início de 2022).

Mas afinal, o que tem causado toda essa imprevisibilidade nesse ano, que vem dificultando o planejamento e a gestão para esses eventos extremos? Parte da resposta está no fenômeno climático da La Niña, que atuou desde setembro de 2020 até o início de 2021, e que está retornando neste ano a partir de outubro. Apenas para refrescar a memória, a La Niña é caracterizada pelo resfriamento das águas do Oceano Pacífico na região equatorial (anomalia negativa de temperatura) e influencia a circulação atmosférica de todo o Planeta. Como o clima é algo dinâmico, uma alteração dessa magnitude provoca distorções no padrão habitual que estamos acostumados, a exemplo de chuvas irregulares (concentradas em poucos dias), alguns extremos de temperatura e possibilidade de uma frente fria um pouco mais forte durante a primavera. Por fim, um outro fator que não podemos negar são as mudanças climáticas globais, fenômenos a longo prazo que tem o potencial de provocar alterações no padrão climático da região, acentuando assim a temida imprevisibilidade do tempo atmosférico.

¹ Fonte: Sismet-Cooxupé. Sistema de Monitoramento Meteorológico Cooxupé. Disponível em: . Acesso: 13 set. 2021.

 

Pedro Augusto Breda Fontão, geógrafo, doutor em Organização do Espaço na área de Climatologia e professor-adjunto no Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná (UFPR). ? coordenador do Laboratório de Climatologia (LaboClima/UFPR).