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09/Out/2021 - 21:25:09
Para entender Os Sertões VII ?? A Guerra de Canudos V
RedaçãoMARIA APARECIDA GRANADO RODRIGUES
AS EXPEDI??ES CONTRA CANUDOS (cont.)
A quarta expedição (1897)
Com a derrota da terceira expedição e principalmente com a morte a morte do Coronel Moreira César, uma série de consequências políticas e militares se instalou. Houve, em Salvador, uma trama para derrubar o governador Luís Viana. Os indiciados foram presos. Em maio de 1897, um dos principais redutos florianistas, a Escola Militar do Rio de Janeiro, rebelou-se contra o governo, mas a situação foi resolvida com facilidade pelas forças devotadas ao presidente Prudente de Moraes.
Aos poucos, o presidente foi ganhando forças contra seus opositores militares e civis. Outra vitória de Prudente de Moraes foi a eleição de seu candidato, Francisco Sá, para presidente da Câmara dos Deputados, derrotando o candidato dos florianistas, Francisco Glicério, chefe do Partido Republicano Federal, de oposição. Prudente sabia que a vitória de uma nova expedição contra Canudos era fundamental para a sua permanência no governo. O governo federal viu-se na contingência de organizar nova expedição e de fazê-lo com a máxima urgência. Para comandá-la foi consultado o General Artur Oscar de Andrade Guimarães, então comandante do 2° Distrito Militar, com sede em Recife. O general aceitou o convite, respondendo laconicamente com "Sim. Viva a República!"
Vinte batalhões de vários estados reuniram-se na Bahia, totalizando 4.500 homens. O general Savaget ficou responsável por uma coluna de soldados. Eles partiram de Aracaju em direção de Jeremoabo, na Bahia, de lá atacariam Canudos. O outro grupo ficou sob a chefia do general Silva Barbosa e de Salvador se encaminharam para Queimadas. De lá partiram para Monte Santo, a base do quartel general do exército.
A quarta expedição militar levou 750 mil quilos de munições e mantimentos. Levava um canhão: o Whitworth 32, apelidado de "a matadeira" pelos canudenses e mais doze canhões menores. Muitos problemas prejudicaram a quarta expedição: falta de gêneros alimentícios e de munições e dificuldades de transporte, quase provocando um fracasso como os das expedições anteriores. Houve necessidade de um tempo para instruir os soldados porque a maioria deles era inexperiente. Foram três meses de instrução em Queimadas, tempo suficiente para os canudenses revigorarem suas posições. Por outro lado, essa demora fez com que os soldados ficassem desanimados para a batalha. Com todas as providências tomadas, os militares caminham para Canudos. As dificuldades foram muitas, principalmente pela forte resistência dos conselheiristas. Próximos de Canudos, o general Artur Oscar determinou que se bombardeasse a cidade, que combatia sem se abater, resistindo.
O general Artur Oscar se viu obrigado a pedir ajuda ao grupo do general Savaget porque faltavam munições e mantimentos, muitos soldados tinham sido mortos e o desânimo começou a tomar conta da sua coluna. Savaget comandava o ataque a Canudos com seus 2.500 soldados. Mesmo com muitas dificuldades, sua tropa estava obtendo posições significativas, a ponto de já planejar uma investida definitiva. No entanto, quando estava tudo preparado para o ataque definitivo, o pedido de ajuda do general Artur Oscar chegou por meio de um emissário. Savaget estava ferido. Desistiram então de tudo o que já haviam conquistado e também do plano de ataque geral.
Devido às dificuldades enfrentadas pela Quarta Expedição, o Presidente da República delegou ao Ministro da Guerra plenos poderes para dar um desfecho final ao conflito. O Marechal Bittencourt embarcou para a Bahia em agosto de 1897, onde logo percebeu qual era a grande vulnerabilidade da expedição: uma estrutura de suprimentos inadequada. Chegando a Monte Santo, o marechal Bittencourt reestruturou tudo o que estava parado. Reorganizou o provimento de víveres e munições. Chegaram, vindos com urgência de outros, mais de 4.000 soldados. Todos os planos militares estavam organizados para atacar e arrasar Canudos.
Segundo o professor Nicola Costa, "a resistência dos canudenses era espantosa e a luta prosseguia casa por casa, corpo a corpo, selvagemente. As torres das igrejas foram derrubadas a tiros de canhões, as casas de barro vermelho eram destruídas a dinamite, os incêndios e a fumaça eram infernais." Euclides chegou a afirmar alguns dias antes de arrefecer aquele vigor extraordinário: "Ainda não consegui lobrigar a mais breve sombra de desânimo em seus rostos, onde se desenham privações de toda sorte, a miséria mais funda: não tremem, não se acovardam e não negam as crenças mantidas pelo evangelizador fatal e sinistro que os arrastou a uma desgraça incalculável."
Houve uma tentativa de negociar a rendição dos remanescentes de Canudos. Uma bandeira branca apareceu nas ruínas, e de lá saiu Antônio Beatinho, pedindo permissão para que saíssem de Canudos perto de trezentas pessoas: mulheres, velhos e crianças. O general Artur Oscar garantiu ao Beatinho que quem se rendesse teria a vida respeitada, mas ninguém se rendeu no prazo dado. A luta teve prosseguimento e quando os soldados chegaram ao ponto onde estavam os combatentes encontraram só quatro pessoas: um velho, dois homens feitos e uma criança. Após 11 meses de intenso combate no sertão baiano, a guerra chegou ao fim, levando à morte cerca de 20 mil conselheiristas e cinco mil soldados, além da destruição completa do arraial de Canudos. Os canhões não deixaram pedra sobre pedra: das igrejas restaram os escombros. As milhares de casas foram incendiadas. Era 5 de outubro de 1897, tudo estava terminado.
Antônio Conselheiro morrera dias antes, doente ou ferido. No dia 6 de outubro de 1897, a sepultura de Conselheiro foi aberta e seu corpo desenterrado e fotografado. Cortaram-lhe a cabeça e mandaram-na aos médicos de Salvador, para que desvendassem o que haveria de anormal no seu crânio, pois se acreditava que ele era um doido. O crânio foi examinado pelo antropólogo Nina Rodrigues, que afirmou que o crânio de Antônio Conselheiro não apresentava nenhuma anormalidade, sendo de uma pessoa normal.
Prisioneiras e prisioneiros eram interrogados pelos soldados e depois degolados. As crianças sobreviventes ao massacre foram distribuídas entre os soldados ou oferecidas aos civis que se encontravam em Canudos. Algumas crianças morreram de fome ou ferimentos.
Que argumentos poderiam explicar aquela investida contra o arraial de Canudos? Que motivos justificariam aquelas mortes patrocinadas pela República? Teria sido necessário o uso de tamanha violência contra os habitantes de Canudos?