São José do Rio Pardo, ,

23/Out/2021 - 18:41:13

O livro Os sertões (1902) de Euclides da Cunha

Redação

MARIA APARECIDA GRANADO RODRIGUES




Vencida a resistência dos canudenses, incendiadas as milhares de casas, derrubadas as igrejas a tiros de canhões, degolados os prisioneiros, distribuídas as mulheres e as crianças sobreviventes entre os fazendeiros e os soldados, os militares pensavam que Canudos estaria riscada do mapa para sempre e não haveria memória das barbaridades ocorridas, a não ser a visão oficial que apoiava tudo isso. Poucas vozes protestaram contra essa tragédia nos livros que foram sendo publicados então. Mas cinco anos depois, o livro "Os sertões", de Euclides da Cunha, revelaria uma visão grandiosa e chocante do que acontecera de fato.

Euclides da Cunha frequentara a Escola Militar da Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, mas fora expulso por ato de indisciplina. Era ardoroso abolicionista e republicano, tendo sido readmitido na Escola Militar após a proclamação da República em 1889, concluindo o curso de Engenharia Militar. Decepcionado com os governos de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, os quais ele apoiara, deixou o Exército. Como não conseguia emprego fixo como engenheiro, escrevia artigos nos jornais por ser escritor. A guerra de Canudos ofereceu-lhe a oportunidade de escrever reportagens para o jornal "O Estado de São Paulo", que posteriormente seriam a base do livro "Os sertões".

Seguiu do Rio de Janeiro para Salvador de navio. Nos dias em que passou em Salvador, Euclides se informara sobre a Bahia e conversara com feridos canudenses, fazendo uma ideia mais real do que acontecia em Canudos. Viajou de trem até Queimadas, observando a paisagem sertaneja, os lugarejos, a pobreza geral, anotando tudo o que podia. Chegou a Canudos a cavalo, ali permanecendo 17 dias, observando e escrevendo reportagens para o jornal "O Estado de São Paulo" que eram telegrafadas. Dois dias antes do final da guerra, doente e abatido com o que vira, Euclides voltou para Salvador e daí para o Rio e São Paulo, com a ideia de escrever um livro.

Grande parte do livro "Os sertões" foi escrito em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo, entre 1898 e 1901, enquanto Euclides reconstruía a ponte metálica que havia tombado algumas semanas após a sua inauguração. Nas três partes que compõem o livro "Os sertões", A Terra, O Homem e A Luta, tentou fundamentar a guerra de Canudos numa perspectiva científica, objetiva, crítica, racional, para tentar entendê-la num contexto nacional amplo, como resultado das estruturas de nossa formação histórica, especialmente nos aspectos físicos, étnicos e sociais, e não apenas circunstancial, utilizando muitos argumentos de autores europeus de sua época, mas também com suas próprias opiniões pessoais.

Segundo o professor Nicola Souza Costa, "Chocado com a brutalidade dos vencedores, Euclides considerou a campanha de Canudos como "um crime contra a nacionalidade" e procurou entender suas razões profundas. Euclides fez uma análise dos aspectos históricos, sociais, geográficos, políticos, militares, climáticos, geológicos, culturais, religiosos, etc., como nunca ninguém fizera antes em nossa literatura em relação a nenhum acontecimento. Sua interpretação baseou-se em conceitos de pensadores europeus, principalmente, mas que viviam em outra realidade histórica, a da Europa industrial que justificava sua expansão imperialista na África e na Ásia com ideias racistas, que faziam a apologia da civilização branca europeia e do progresso material, contra as "raças negra e amarela", que representariam o atraso e a barbárie. Euclides da Cunha assimilou muitas dessas ideias para explicar a guerra contra Canudos usando tais conceitos estranhos à nossa realidade, que era a de um país que não superara suas estruturas coloniais, mas ultrapassando-os com suas próprias intuições, elaborando opiniões inéditas sobre o país, denunciando a guerra e suas barbaridades e retratando seus principais participantes."

Euclides da Cunha pensava que "a guerra é uma coisa monstruosa e ilógica em tudo", considerando a guerra de Canudos como "a luta mais brutal dos nossos tempos". Na parte A Terra, descreveu a geografia do Brasil, detendo-se na região da guerra, com sua paisagem, sua seca, seus rios, sua flora e seus acidentes naturais, bem como a influência sobre a população sertaneja; na parte O Homem, descreveu a formação dos tipos humanos brasileiros, seus antecedentes históricos, sua composição étnica, sua miscigenação resultante do branco, do índio e do negro, destacando especialmente os sertanejos e seus costumes, religiosidade, hábitos, mentalidade, tentando com tudo isso entender e explicar Antônio Conselheiro e o fenômeno de Canudos; na parte A Luta, descreveu a guerra de Canudos, os soldados, os sofrimentos por que passaram, a desorganização, as mortes, a coragem e a bravura dos canudenses, que lutaram casa por casa, palmo a palmo sem se render, até a derrota final, quando foram liquidados pela infame degola praticada pelos soldados.

Publicado em 1902, o livro "Os sertões" foi um enorme sucesso de vendas e se tornou uma obra obrigatória para se entender o Brasil como país cheio de contradições estruturais. Já foi traduzido em 25 línguas diferentes; inspirou e inspira artistas, como romancistas, músicos, pintores, dramaturgos, poetas, escultores, etc.; revelando a tragédia sertaneja. Abriu caminho para o estudo do Brasil real e seus problemas e inspirou cientistas sociais a revelarem aspectos até então ignorados. Euclides da Cunha tornou-se um ponto de referência obrigatório para a intelectualidade nacional com "Os sertões" e um defensor do povo brasileiro, já que denunciou "um crime contra a nacionalidade" e impedindo que jamais se repita qualquer tragédia semelhante.

A Euclides da Cunha e sua obra a cidade de São José do Rio Pardo dedica, desde 1912, no dia de sua morte, 15 de agosto, Romarias à Cabana onde ele escreveu "Os sertões" e organiza, desde 1938, as Semanas Euclidianas que reúnem intelectuais e estudantes para manter viva essas tradições culturais.


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