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23/Out/2021 - 19:18:03
A primeira escritora abolicionista negra
Maria Olívia Garcia
Maria Firmina dos Reis nasceu em 11 de março de 1822, na
Ilha de São Luís, no Maranhão, porém foi acometida por uma enfermidade, por
isso só foi batizada em 21 de dezembro de 1825 e, como tantos outros
descendentes de escravos, não teve informada na certidão nem a data do
nascimento nem o nome do pai. Seus padrinhos foram: o capitão João Nogueira de
Souza e Nossa Senhora dos Remédios.
Em 1847, com vistas na inscrição para o concurso público da cadeira de primeiras letras da vila de São José de Guimarães, Firmina solicitou nova certidão de batismo, na qual informou a data de nascimento e o nome da mãe, Leonor Felipa, mulata alforriada, que fora escrava do comendador Caetano José Teixeira, falecido em 1819. Não informou, porém, o nome do pai.
Maria Firmina foi redescoberta pelos críticos literários na década de 1970, mas ainda pouco se ouve falar dela no meio acadêmico, embora seja considerada a primeira escritora negra brasileira.
Essa escritora viveu em uma época marcada sobretudo pela escravidão e pelo patriarcalismo, em uma sociedade machista e elitista, em que o acesso ao ensino institucionalizado era privilégio de poucos, por isso aqueles que escreviam e publicavam livros faziam parte de um círculo seleto, predominantemente composto por homens brancos.
As poucas mulheres que se atreviam a enfrentar o poder patriarcal e a se expressar nas artes e na literatura eram discriminadas e esquecidas pela história oficial, como Francisca Júlia, que mesmo tendo participado da criação da Academia Brasileira de Letras, teve o acesso a ela negado.
No entanto, Firmina desafiou o machismo do interior maranhense, fundando uma turma escolar mista e escrevendo seu primeiro romance em 1859, com o pseudônimo de "Uma Maranhense". Esse processo de silenciamento da mulher pode ser visto no prefácio desse livro, ?rsula:
"Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor. Sei que passará entre o indiferentismo glacial de uns e o risco mofador de outros, e ainda assim o dou a lume. Não é a vaidade de adquirir nome que me cega, nem o amor-próprio de autor. Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados, que aconselham, que discutem e que corrigem, com uma instrução misérrima, apenas conhecendo a língua de seus pais, e pouco lida, o seu cabedal intelectual é quase nulo".
Firmina teve a coragem de inovar nesse romance, dando protagonismo a alguns personagens escravos, que refletiam sobre as injustiças da sociedade escravocrata. Esse teor abolicionista também aparece em outras obras da autora, como no conto A escrava, de 1887.
Em 1861 publicou o romance Gupeva e, em 1871, o livro de poemas Cantos à beira-mar, cujo teor revela forte inquietação diante do autoritarismo do patriarcado escravocrata da época, com versos que expressam angústia e melancolia, também características do Romantismo da época. Firmina ainda participou na imprensa de sua cidade, foi musicista e compositora.
Há um trecho de ?rsula que expressa a dor daqueles que tiveram o curso de suas vidas libertas na África desviado à força pelos escravocratas:
"Meteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infortúnio e de cativeiro no estreito e infecto porão de um navio. Trinta dias de cruéis tormentos e de falta absoluta de tudo quanto é mais necessário à vida passamos nessa sepultura até que abordamos as praias. Brasileiras. Para caber a mercadoria humana no porão, fomos amarrados em pé e, para que não houvesse receio de revolta, acorrentados como animais ferozes das nossas matas, que se levam para recreio dos potentados da Europa".
Sempre foi difícil uma escritora enriquecer com o seu trabalho e naquela época, então, era impensável a projeção de uma mulher no campo literário, portanto Maria Firmina dos Reis morreu pobre e cega, aos 95 anos, na casa de Mariazinha, ex-escrava e mãe de um dos filhos que a escritora criou.
Firmina é a única mulher entre os bustos da Praça do Pantheon, em São Luís, que homenageia escritores maranhenses. Isto me traz à lembrança um maranhense, colega de doutorado na Unicamp, hoje professor Ricardo, cuja tese foi sobre Sâo Luís do Maranhão, a "Atenas Brasileira". Realmente, esse estado teve uma vida cultural intensa.
Enfim, é momento de resgatar e homenagear mulheres que se dedicaram às artes e à literatura, esquecidas pela história oficial, inclusive as rio-pardenses!