São José do Rio Pardo, ,

23/Out/2021 - 19:23:55

Inflação proposital

Redação

LEANDRO RIBEIRO DEMARTINI




A constatação é imediata. Os preços têm subido tão vertiginosamente entre uma ida e outra ao mercado que os sustos são inevitáveis. Eles, que subiam em áreas específicas, agora parecem ter iniciado uma escalada conjunta em todas as áreas, afetando nosso poder de compra e tornando-nos mais pobres. Refletem a desvalorização de nossa moeda, o Real. Por que inflação proposital? ? devido à forte ligação com as políticas colocadas em prática há alguns anos, intensificadas no atual governo. Pretende-se expor aqui essa associação entre a inflação que sentimos e as políticas que a tornam possível.

Exportações que são nocivas: como isso é possível? A legislação permite que commodities como arroz, milho, soja, carne e outras sejam exportadas sem limites ao exterior. Na verdade, há incentivo de tal exportação através de isenções fiscais. O problema em um cenário tão favorável a quem exporta (com o real tão desvalorizado frente ao dólar) é que o mercado interno fica desabastecido. Com pouca oferta dessas commodities internamente, há aumento de preço. ? por isso, por exemplo, que a carne está tão cara. Ao percebermos o quão importante arroz, milho, soja são para cesta básica e para produtos que os utilizam, logo constatamos o quanto tais exportações sem controle tem responsabilidade frente ao aumento dos preços.

Infelizmente, muitos ruralistas que constituem a base do governo atual defendem apenas seus próprios interesses, seus lucros sobre o abastecimento do país. Normalmente, o aumento das exportações deve ser visto como bom indicador da economia. Entretanto, exportações que causam o desabastecimento interno tem seu bom efeito anulado. Embora a balança comercial esteja superavitária, a maioria dos cidadãos sente um saldo real negativo em seu bolso porque seu dinheiro está valendo cada vez menos.

A alta no preço dos combustíveis: esse assunto foi explorado aqui no Observatório XXI pelo colega Luciano Celso da Silva. Vale lembrar que a política de preços da Petrobrás tem buscado constantemente uma aderência aos preços do mercado internacional desde o governo Temer. Muitos críticos defendem que tal política não precisa e não tem que ser feita dessa maneira. Os combustíveis afetam toda a cadeia produtiva, toda a logística do país. Seu aumento eleva os patamares de todos os custos que geralmente são repassados ao consumidor final. A atual política de preços é muito sensível ao câmbio, que está totalmente desfavorável. O Brasil, como produtor autossuficiente, pode trabalhar com custos mais baixos em seu mercado interno. Não faz isso porque a política liberal dos preços pós impeachment não trata os combustíveis como insumo estratégico ao mercado interno do país, mas como um produto qualquer negociado livremente. Outras nações liberais não têm essa mesma prática. Essa falta de visão estratégica tem nos custado muito caro. Isso é perceptível não só ao reabastecer o carro, mas nos preços de todas as coisas.

A variação desfavorável do câmbio: mais intensamente de janeiro de 2020, quando 1 dólar era cotado a 4 reais, a maio do mesmo ano, quando 1 dólar passou a ser cotado em 5,88 reais. Em um levantamento com as 30 moedas mais utilizadas no mundo em 2020, elaborado pela agência Reuters, o real foi identificado como a moeda que mais se desvalorizou frente ao dólar. Em 2021, o patamar elevado se mantém. O principal motivo refere-se à saída de investimentos do país. Devido à desconfiança externa sobre o atual governo com relação à situação fiscal, à visão não muito clara quanto aos rumos reais da economia, ao desastre da política ambiental que facilita vistas grossas aos crimes ambientais, à grosseira diplomacia, com ataques aos países da União Europeia e à China. Recentemente, notícias referentes à saída de multinacionais como a Ford, Mercedes Benz, Audi, Sony, Roche e outras destacam que o país se tornou totalmente desinteressante. A variação negativa do real frente ao dólar tem impacto direto em nossa economia devido à grande dependência que temos de insumos cotados a dólar. Isso potencializa a inflação que retroalimenta essa desvalorização cambial.

Tudo citado acima é reversível. As consequências, talvez não. Por fim, gostaria de relembrar Vanderlei Cordeiro de Lima subindo as escadas com a tocha olímpica em mão, rumo ao caldeirão que se ergueu com o mundo em expectativa em 2016. Foi quando se encheu de luz a pira olímpica, carregada de muito simbolismo e esperança. Aquele era um Brasil que se mostrava ao mundo como país preocupado com o meio ambiente, colocando-se na liderança por um mundo mais inteligente. Sabemos que a festa ocorreu quando tal plano já estava em desmonte, dando lugar ao atual, retrógrado.

Que país deixamos de ser? Hoje, sofremos com uma crise hídrica e energética sem precedentes, que tem potencial de afetar toda a nossa produção, reduzindo a oferta de produtos, pressionando por mais inflação. Deixamos de colocar em pauta os assuntos mais relevantes para nos apequenarmos em pautas comportamentais radicais, fruto de memes pagos na internet por financiadores sem caráter.

Feito o maratonista Vanderlei, que não deixemos um golpe nos impedir de cruzar a linha de chegada. Não por uma medalha de ouro, mas por uma "Pierre de Coubertin", é preciso que nos ergamos como nação, unidos não por um pódio, mas para resgatarmos nosso espírito como povo defensor da vida. Que com conhecimento e esperança, possamos irradiar novamente essa luz para todo o mundo.


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