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30/Out/2021 - 21:01:47
Um Novembro de muitas histórias
Marcos De Martini
"Nas camadas inferiores, quase no fundo do mar de histórias, aí encontramos a ação criativa da gente brasileira". Mary Del Priore
Em nosso calendário civil o mês de novembro trouxe o Dia de Finados, o da Proclamação da República e o da Consciência Negra. Com tantos elementos se entrelaçando, poderíamos estabelecer uma relação entre esses acontecimentos sociais-político-culturais de destaque no Brasil do século XIX?
A historiadora Mary Del Priore, autora de Histórias da Gente Brasileira, obra que passa pelo cotidiano da vida no Brasil Colonial, Monárquico e Republicano, reuniu nos quatro volumes muitas passagens da vida corriqueira que, em grande parte, não estão presentes nos grandes manuais de história do Brasil, normalmente dominados por interpretações político-econômicas. Estes livros fornecem o conhecimento de um Brasil de grande multiplicidade/diversidade, nada parecido com algo hegemônico e acomodado, como muitos idealizam nossa sociedade histórica.
Uma das possibilidades, em resposta à pergunta introdutória, é conhecer um pouco da dinâmica dos sepultamentos e o uso dos cemitérios no final do século XIX.
Sabemos que o Brasil sempre foi um território de maioria cristã católica, com grande preocupação com o destino dos mortos. Também é fato consagrado que, até o final do século XIX, ainda havia uma grande quantidade de escravos no cotidiano do país, bem como de forros e de mestiços, mantendo viva uma herança cultural africana que se enraizara ao lado de outros elementos de nossa identidade cultural.
Com uma rica diversidade de origens africanas, os cortejos fúnebres eram marcados por todo um cerimonial e vestimentas que demostravam a importância do momento, evidenciando um sincretismo de religiões. "Entre os negros, os que faziam enterros com mais aparato eram os moçambiques. O transporte dos corpos era feito em rendas alvíssimas, cobertas de cortina preta com grande cruz branca ao centro." A diversidade brasileira, aliada aos diferentes cultos ou doutrinas, ainda não apagou esta mistura religiosa, muito presente em membros do candomblé, "com sacrifício da missa e de animais".
Em um país de colonização portuguesa, com predominantes traços de cristianismo, com fieis extremamente preocupados com a busca da salvação eterna, era hábito enterrar os falecidos dentro dos espaços das igrejas, fato este que pode ser comprovado em templos religiosos antigos, que ainda guardam sinais desse método (igrejas de Ouro Preto).
Uma prática que para nós parece infundada, para o homem do século XVIII -XIX era quase que uma consagração, uma garantia de aceitação no Reino dos Céus. Evidentemente, não se imaginava à época, que tal prática trazia consigo um risco elevado à saúde. Os corpos em putrefação liberavam gases que tornavam as igrejas um espaço de difícil convivência em meios às celebrações.
Com o desenvolvimento da teoria de que os gases miasmáticos seriam responsáveis pela transmissão de doenças, lideranças civis começaram a pressionar por uma mudança nesses hábitos seculares. Para alguns religiosos, reticentes em relação à mudança, "o incômodo passageiro do mau cheiro dos defuntos era um ato de fé", que em nada poderia alterar a vida das pessoas.
A contragosto de fervorosos cristãos, autoridades ligadas à saúde pública, no decorrer do século XIX, não contando com a anuência dos religiosos, em especial das irmandades mais antigas, conseguiram reverter um pouco dessa prática, levando os sepultamentos para a parte externa das igrejas.
O crescimento dos centros urbanos, o aumento do número de mortos em decorrência de epidemias do século XIX e um conhecimento maior sobre questões sanitárias, forçaram os municípios a levarem os "campos sagrados" para espaços mais distantes das igrejas e dos centros das vilas e povoados. Aos poucos, "os mortos, dos vivos começaram a se afastar", pois a saúde física deveria prevalecer sobre a saúde espiritual.
Em decorrência do afastamento dos cemitérios, os cortejos fúnebres também começaram a perder o rigor das mortalhas lembrando santos de devoção, agora substituídas por roupas mais simples, de uso comum. Mas, apesar da simplificação do desenlace final dos corpos, a presença de estrangeiros derivados da crescente imigração, que atendiam às necessidades da lavoura cafeeira, trouxe um outro problema. Seguidores de outras crenças, abriram divergências sobre o uso da moradia eterna nos cemitérios católicos, o que para a maioria era uma blasfêmia. A divergência só foi sanada com a intervenção legal do imperador Pedro II, em 1870, garantindo lugar igual para todos, já que os cemitérios eram espaços públicos e não de propriedade de igrejas.
Apesar de algumas resistências, com a chegada da República em 1889 e a separação entre Estado e Igreja, "os muros da segregação caíram definitivamente, pelo menos para os mortos".