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30/Out/2021 - 21:07:53
Ibrantina Cardona
Maria Olívia Garcia
Várias vezes realizei pesquisas nos jornais antigos desta
cidade e sempre me deparei com poemas de Ibrantina Cardona, o que me dava um
pressentimento de que ela deveria ter alguma ligação com esta cidade, porém
nunca me aprofundei na busca de informações que confirmassem isso.
Nos últimos dias encontrei, em acervo da Hemeroteca da Biblioteca Nacional, informações interessantes a respeito dessa poetisa, então decidi procurar a biografia dela e me deparei com dados curiosos: nesse site mesmo consta que ela nasceu em Nova Friburgo e morreu em Rio Pardo, no Rio Grande do Sul. Isto me intrigou: não seria São José do Rio Pardo? Prossegui na "escavação".
Outros biógrafos afirmam que ela faleceu em Moji-Mirim; alguns dizem que a escritora nasceu no Rio Grande do Sul, outros ainda que morreu na cidade de São Paulo. ? impressionante como os críticos do início do século XX publicavam biografias sem a preocupação de verificar os dados! Bem, a esta altura, a minha curiosidade se aguçou!
O Correio Paulistano de 8 de janeiro de 1956 chegou a publicar que Ibrantina havia falecido em São José do Rio Preto, o que me deu a certeza de que meus instintos estavam certos! Finalmente, na Gazeta de Paraopeba de 24 de outubro de 1954 encontrei a notícia:
"D. Ibrantina Cardona - Mais um ano festejou a 11 do corrente a conhecida poetisa brasileira, d. Ibrantina Cardona, residente em S. José do Rio Pardo, S. Paulo".
No mesmo jornal, em 10 de janeiro de 1954, está mais uma prova de que essa poetisa - bastante famosa na época, sempre comparada aos grandes parnasianos e a Francisca Júlia - residira ao menos dois anos nesta cidade:
"IBRANTINA CARDONA - Na edição transacta, iniciou colaboração nesta a folha a conhecida poetisa brasileira, Ibrantina Cardona, da Academia Fluminense de Letras, de Niterói, e da Associação Paulista de Imprensa.
D. Ibrantina, que reside em S. José do Rio Pardo, S. Paulo, em delicado cartão agradeceu-nos o registro de seu natalício, tendo tido para com a Gazeta referências que muito nos sensibilizaram".
Ainda nessa Gazeta, em 16 de outubro de 1955, encontro a comprovação de que ela continuava residindo em São José do Rio Pardo:
"D. IBRANTINA CARDONA - A apreciada poetisa brasileira Ibrantina Cardona, residente em São José do Rio Pardo, São Paulo, festejou e 11 do corrente seu aniversário natalício. A Gazeta registra com prazer o acontecimento, felicitando, cordialmente, a distinta autora de "Plectros".
Finalmente, em Letras da Província, publicação de Limeira, exemplar de março/abril de 1957, Mário Pires relata: "Em 1953, quando deixamos Moji-Mirim, Ibrantina Cardona também se mudou. Foi para a bela São José do Rio Pardo" - portanto aqui ela viveu de 1953 até 1956, ano em que faleceu.
Mas como veio parar aqui? ? a pergunta que me fiz e que o leitor também deve ter no pensamento. O marido de Ibrantina, o jornalista Francisco Cardona, era tio de Da. Enorédia Santos Oliveira Padilha, na época diretora do Grupo Escolar Tarquínio Cobra Olyntho e viúva de Antinarbi Padilha. A poetisa era "madrinha e mãe de criação" de Antinarbi Padilha e, como vivia sozinha após a viuvez, veio residir com Da. Enorédia.
Na revista Nação Brasileira, de fevereiro de 1944, saiu uma nota sobre o falecimento de Padilha:
[...] "natural de Jaboticabal, fez os seus estudos preliminares em Moji-Mirim, e após um curso brilhantes de estudos, em São Paulo, diplomou-se em 1914 em farmácia, pela Escola de Odontologia e Farmácia dessa mesma Capital. Exerceu diversos cargos públicos de confiança, e ultimamente o de coletor estadual de S. José do Rio Pardo, quando a morte o colheu".
A revista, de cujo grupo editorial faziam parte Ibrantina e o esposo Francisco Cardona, prestou homenagem a Padilha, lembrando também que este "era casado com uma prima, Da. Enorédia de Oliveira Santos Padilha, professora e diretora do Grupo Escolar de Itobi, município de Casa Branca, e deixa três filhos: o jovem bacharel e escritor Antinarbi, estudante da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de S. Paulo; Moema, professora recém-formada pelo Ginásio de S. José do Rio Pardo, e Arivelsio, estudante, quartanista desse mesmo Ginásio".
Além de membro da Academia Fluminense de Letras, Ibrantina participava também do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, do Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, da Associação Paulista de Imprensa e outras. Deixou várias obras, entre elas: Plectro (1897); Primavera de Amor (1915); Heptacórdio (1922); Cleópatra (1923); Asas Rubras (1939) e Cosmos (1951).
Por coincidência (ou não), minha avó era vizinha de Da. Enorédia, de quem me lembro bem, e do meu nascimento, em 1952, a 1956, meus pais e eu morávamos na casinha que havia nos fundos da casa de minha avó, portanto é bem provável que tenhamos conhecido a poetisa!
Enfim, por que ela ficou esquecida? Por ser mulher? Por escrever poemas e não prosa? Penso que deveríamos resgatar a memória dessa escritora, uma das primeiras mulheres de destaque na poesia brasileira, a quem críticos de renome teceram louvores, que foi denominada de "Soberana do Verso" por Alberto de Oliveira, e que nesta cidade viveu os três últimos anos de sua existência! Fica o recado aos responsáveis pelo setor cultural do município!